ARGENTI SITIS

Sequiosas agitam-se as pessoas
em quefazeres de sua vida insana.
Não têm sossego, já ninguém se irmana
em lograr para outrem coisas boas.
Repetem ladainhas, cantam loas
à lei do argento, a que a vida dana.
A corrida à riqueza o ar profana
e aos ímpios lhes põe falsas coroas.
Reinados de ilusão... quedas fatais
ao longo de árduas e dementes lidas
do querer ter a mais e sempre a mais.
Depois, as existências exauridas
no perdulário tempo, tão falaz
sem memória deixar de suas vidas.







 

ENTARDECER

O sol se faz parco
e a sombra acontece
na flor do pau d’arco:
- não resisto à prece.

             Praça da Capela de Santa Luzia, no Espinho, onde uma noite eu quase virei cantador de viola.




GEMINANDO O ESPAÇO DO TEMPO

Era o céu de silêncio com brisas azuis
eram luas de fogo, era o fogo do dia.
Eram os sons da quermesse, a festa de luz
eram trêmulos beijos, quentura e mão fria.
Eram tardes de chuva, setembro e cajus
era a música alegre a triste melodia.
Eram pés (travessura), soltos braços nus
eram frutos alheios roubada alegria.
Foi o tempo dizendo presente depois
foi o hoje chegando depressa demais
foi lembrança ficando do tempo que foi.
É o tempo dos sonhos que não se desfaz
é o sonho outro sonho, ou um que são dois
é memória do sempre vivendo o jamais.






O DANÚBIO NO JAGUARIBE


 
       
                                                                   


  Francisco Neto da Silveira Brandão*


 
O Rio Jaguaribe traz canções tangidas em segredo pelo vento, declamou em tempos o nosso poeta Luciano Maia. Ele desvendou outros segredos e desnudou-os nesta outra jornada: desaguar o Danúbio no Jaguaribe. O mistério do majestoso rio que cruza a Romênia até abraçar o Mar Negro pareceu agora ser próximo na literatura romena da qual nos fez vizinhos e íntimos como se as gentis jangadas do Aracati o povoassem em ubiquas regatas.  Por mister da sua suave peleja, a Romênia é no Ceará sinônimo de Poesia. Podem avivar as memórias do braço do milenar Império Romano do Oriente, do nosso tronco latino, de um povo indomável, do gênio do filósofo Mircea Eliade, mas o que fulgura é a poesia romena  pela pena e alma de Luciano Maia trazendo-nos a poesia dos jardins de Bucareste.

Aprendemos que traduzir é trair, mas podemos reaprender que, afinal, o tradutor é penhorado pelo mais fiel compromisso. O verdadeiro tradutor reencontra nas palavras as mesmas emoções e as recria novamente. A verdadeira sabedoria só se transmite de coração a coração i shin den shin, reza a  expressão oriental (do meu coração ao teu coração) . Assim foi a tradução nesta obra Além do Azul / Dincolo de Azur . Calar fundo em silêncio e fazer ressoar os mesmos sentimentos novamente mais frescos e límpidos numa nova língua.

O Consulado honorário, missão voluntária que abraça a vida de algumas pessoas para a defesa de outros povos e outras culturas em diferentes territórios, é no destino do nosso escritor Luciano Maia uma missão mais vasta que o abraçou pelo chamado das aragens da sua Dacia Feliz, povo  e cultura varridos por vagas históricas de invasões, mas sempre reunido novamente por um braço forte da língua latina que o identifica e honra .

Como leitor arrebatado eu mergulhei no Azul desta obra bilíngue com a reverência do silêncio tantas vezes nela repetido. Não conhece a poetisa Elena nada mais do que o silêncio para encher o instante a dor o Poeta. Como se a poesia  me levasse pela  mão ao profundo oceano e me fizesse ressurgir no azul do céu e ali perante o absoluto me largasse a mão e me fizesse procurar contemplar o incontemplável. Moisés nos pode fazer ver a Sarça Ardente no Monte Sinai? São Francisco nos pode fazer ouvir Deus no Monte Subásio ou Milarepa pode nos fazer abrir as portas do vazio no Monte Kailash no Tibet? Que auspicioso que a capital primordial da Romênia seja precisamente o complexo de santuários Sarmizegetusa Regia no pico de montanhas inspiradoras. As suas brumas ainda insuflam a mística da literatura da nossa poetisa Elena-Liliana Popescu?

O Poesia é neste livro o guia do absoluto, e como cita Luciano Maia , estás à porta do infinito mas só entrarás quando o último irmão o fizer, no mais nobre dos votos do Bodissatva. Que se passará lá, naquele lugar, naquele instante em que no coração e alma do poeta emergem a palavra do silêncio ou naquele silêncio a palavra eterna é revelada ? Nesse instante diz Elena: tudo está em seu lugar como outrora , apesar de tudo não significar mais nada , quando se perde no espaço sem tempo , no tempo sem espaço.

Mircea Eliade nos ensina que a hierofania, a manifestação do sagrado é uma revelação de uma realidade absoluta que se opõe à não realidade da imensa extensão envolvente . Que dizer da poesia quando nos versos de Luciano Maia o coração alcança outras alturas mais que as meras alturas da razão , sobe aos cumes esguios da ilusão do arco-íris adentra as cores puras.

Caberia aqui relembrar Florbela Espanca: Ser poeta é ser mais alto é ser maior do que os homens. 

Tudo remete para a perenidade da poesia que almeja  imortalizar mesmo o mais singelo, como nos versos de Luciano: o teu sorriso de brancura cheio, trazendo permanência àquele instante.

Luciano Maia prossegue noutros versos quando escreve: a encruzilhada pode parecer um rumo indesejado ou um convite, uma encruzilhada é também uma distância em dobro. Diríamos nós:  ainda bem que assim é, que temos estes dois caminhos de Elena Popescu e Luciano Maia a percorrer tal o deleite destas alamedas poéticas  que nos dirigem a um banquete literário em que em torno à mesa se interrogam sombras como escreve Luciano ou como declama Elena:  sentados à mesa do silêncio no reino desconhecido os poetas repartem para nós o Pão fresco umedecido pelo Orvalho celeste ….

 Agradeço humildemente a oportunidade de ter  mergulhado Dincolo de azur nestes dois  luminares da latinidade, como exclama o Professor Raúl Lavalle .

Verti o coração do leitor de poesia e não mais me demoro. Leiamos, sintamos a poesia e em reverência agradeçamos aos dois poetas pela partilha e nos quedemos com a lição do nosso poeta Luciano Maia:


Dessemelhante de outros bens, o Amor
aumenta se o entregas aos demais.
Por isso, ama, seja como for
e não deplorarás isto, jamais.


*Vice-Cônsul de Portugal.



 
 
O PAEAN DAS IPUERAS


Euclides da Cunha (1866-1909) disse, num poema, ser “misto de celta, de tapuia e grego”.  Essa assertiva presta-se, à perfeição, ao rapsodo Gerardo Mello Mourão (1917-2007), este paean das Ipueras (grafo assim Ipueras, sem a posterior contaminação). O autor de Os Sertões condensou naquela frase a sua origem em três vertentes primazes: grego, pela herança civilizacional mediterrânea, que teve em Roma o seu crisol; celta, como reconhecimento aos antepassados que meio civilizaram a península ibérica, e tapuia, aporte mais recente e pleno de vitalidade (tapuia não é tribo, mas um difuso conjunto), como testemunho da descendência dos povos aborígenes habitantes dos ermos dos sertões (os tupis do litoral lhes puseram esta designação, significando língua travada, ou seja, que não falavam o tupi...).
Se considerarmos que estes povos foram já miscigenados desde sempre, temos que Euclides se disse – brasileiro! E o poeta das Ipueras não apenas se dizia desta tríade, como em verdade viveu, sonhou e criou qual um herdeiro convicto da matriz mediterrânea com boa dosagem brasílica. Um atlanto-medieterrâneo.
 Gerardo era possuidor de uma carga de informações culturais tão vasta (onde se agrupavam a história das literaturas, a filosofia, a teologia, entre outras), que ao conversarmos com ele, tínhamos a sensação de estarmos começando a ouvir tudo de novo. Em Os Peãs, (de paean, cântico em louvor de Apolo e um dos seus epítetos) o poeta Gerardo reuniu a sua trilogia País dos Mourões, Peripécias de Gerardo e Rastro de Apolo. A obra Os Peãs, épica e lírica a um só tempo, tem uma dimensão que ultrapassa em muito o que os títulos sugerem, sem, no entanto, alterar o significado primordial e imenso, considerando-se a verdade  histórica, cultural e mesmo psicológica daquela herança de matriz enriquecida.
Desde a juventude, o poeta fez profissão de fé (com a Irmandade da Orquídea), de seguir, em sua trajetória escritural, a Dante. – “Ou Dante ou nada!”, era o lema daqueles jovens entusiastas da cultura clássica. Foste Dante, poeta! O nosso cânone ocidental, configurado e consubstanciado na Divina Comédia, foi por ti, Gerardo, cultuado, reverenciado e seguido com talento e grandeza.
Oito de janeiro é o dia aniversário do Paean das Ipueras. De parabéns o poeta e, principalmente, esta caudalosa vertente da poesia brasileira por ele gestada no País dos Mourões, de Mel Redondo e também dos tapuias do Rio do Caminho da Onça.