Andaimes




Da argila seca vim, desintegrado.
Oh terra, oh cor antiga da poeira!
Arquitetura sóbria da distância
dos sonho ou pesadelo em que emigrei.
Despreguei-me da pedra, dispersei-me.
Virei parede escura de edifício.
Atropelado em cinzas avenidas
me desavim com o dia forasteiro.
Caí na desandança, retirei-me.
Eu tinha um nome. Eu me chamava Pedro.
Que desmemória agora me consome?
Onde, em que construções me destruí?
Eu era Pedro! Pedra? Eu tive um nome!
Que noite me esqueceu do que já fui? 

CRÔNICA DO EMPAREDADO


São muitas as cidades, especialmente entre as grandes metrópoles, que guardam em sua face arquitetural, seu desenho urbano, sua gastronomia e no perfil dos seus habitantes os traços indicadores de uma herança vinda com o aporte de imigrantes. Estes, chegados de variadíssimos recantos do planeta, amalgamam-se, uns mais, outros menos, no caldeirão étnico dos seus países de adoção.
Duas cidades sul-americanas me chamam a atenção, quando demoro examinando esses aspectos: Buenos Aires e São Paulo. Deixo Buenos Aires fora destas linhas, em que pesem suas semelhanças com a Pauliceia, principalmente quando à feição italiana. Buenos Aires deve ser hoje a maior cidade “italiana” habitada por descendentes daqueles imigrantes.
Em São Paulo, foi recentemente inaugurado o Museu da Imigração, com sede na antiga Hospedaria de Imigrantes, de 1888, no bairro do Brás, que como tal funcionou até 1978. Foi nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX que aportaram as maiores levas de imigrantes a São Paulo. O Museu da Imigração é um espaço amplo, dentro do qual as várias seções nos informam sobre origem, dados da chegada, avaliações de alojamento, situação sanitária e outras informações sobre aquelas pessoas vindas em busca de vida, enfim.
No museu detive-me, na seção em que se encontram as correspondências entre os recém-chegados e seus familiares, lendo algumas cartas de imigrantes italianos. Penso que, por ter escutado desde muito tempo canções napolitanas que falam da dilacerante separação imposta pelo sortilégio de fà l’America, lembrei-me de Lacreme Napulitane, de 1925, uma confissão pungente de quem, na América, até ganhou algum dinheiro, mas não suporta a dor de ter deixado a família em Nápoles e lhe amarga o pão na boca. É feita uma carta e começa: Mia cara madre, stà pe trasì Natale...e lhe implora,  quanno è a sera da Vigilia, que faça o presépio para os seus filhos e ponha a mesa com o seu prato, como se ele também estivesse presente à ceia...

Não sei que emoção me invade mais do que a que experimentei ao ler aquelas cartas; vieram-me à mente os expatriados do mundo. E me lembro dos nordestinos que ajudaram a construir São Paulo e terminaram emparedados em prédios escuros. Como é evocativa e dilacerante aquela música! Irmã de Triste Partida, de Patativa, que Gonzaga cantou em homenagem aos nordestinos que viraram parede de edifício. Ah, légua tirana!
LM
Publicado no O Povo em 11 de julho de 2017

O POEMA EMBLEMÁTICO


Não cuidamos de que podemos respirar o clima do soneto ao caminharmos pelas ruas e praças de São Paulo, hoje.
Não? O Senhor Lentini, de trato cortês e modos cavalheirescos, taxista na Pauliceia, mais de 30 anos na profissão, me surpreende com o seu depoimento de bisneto de um certo Signore Lentini, da cidade homônima, não distante de Siracusa, na Sicília. Fica na planície catânia, região onde se encontram inúmeros e valiosos vestígios da civilização grega na ilha. Lentini foi a antiga colônia de Leontínoi; como o próprio nome indica, trata-se de algo entranhadamente grego. De fato, todo o leste da Sicília foi conquistado e influenciado pela cultura grega.
Voltando a São Paulo: o Sr. Lentini me narrou a ida, até a sua cidade natal, do seu irmão que fez questão de conhecer – isso já há mais de cinquenta anos – o local onde tinha o seu bisavô uma herdade com o nome da família estampado no portão principal da fazenda. “O meu irmão fez várias fotografias... de joelhos, chorou em frente à casa do nosso bisavô”, relatou-me o Sr. Lentini.
Foi justamente aí que me ocorreu lembrar do soneto! Essa forma métrica foi “inventada” ou descoberta, talvez venha a dar no mesmo, no século XIII por Jacopo da Lentini (1210-1260), natural daquela cidade siciliana, notário da Corte de Frederico II da Sicília. Segundo o testemunho de Dante Alighieri, trata-se do mais ilustre autor da Scuola Poetica Siciliana.  Que parentesco poderá haver entre o cordial taxista e o idealizador do soneto? Importa menos que a narrativa que me fez lembrar, além daquele notário notável, precursor do soneto em todo o mundo, também os grandes sonetistas de São Paulo, como Guilherme de Almeida e, presentemente, de Paulo Bomfim, hoje do alto dos seus noventa anos completos e autor de uma magnífica, imensa obra, poeta admirado por quantos respeitam e consideram a poesia um dos mais elevados cultos ao saber humano humanizado.
Jacopo da Lentini, o notário do Purgatório (Canto XXIV) da Divina Comédia, escreveu em siciliano depurado de localismos, no século XIII. Hoje, o soneto, escrito em praticamente todas as línguas do planeta, não deixa de ser ainda o dolce stil nuovo, sempre remoçado, de gerações em gerações. Em São Paulo também, claro.
A fidalguia de um taxista foi responsável por uma memória preciosa, desde Jacopo da Lentini até os dias de Paulo Bomfim, dois emblemáticos poetas que escrevem a “poesia em traje a rigor”.
LM
Publicado no O Povo em 27 de jnho de 2017 

LUDOVATICÍNIO



O poema-piada ou poema epigramático refere-se a situações reais ou imaginárias em que o grotesco e o ridículo colidem com o bom-senso e cuja mensagem explora com inteligência a sensibilidade de quem o lê. Mas pode ser também um vaticínio certeiro, como alguns raros poemas que tivemos a oportunidade de ler. Garimpei este de Carlos Drummond de Andrade, que me parece adequadíssimo a estes nossos tempos atuais, em que a disputa pelo poder se dá  numa emulação primitiva e medíocre. Não à toa o poema se intitula “Política literária”:  O poeta municipal / Discute com o poeta estadual / Qual deles é capaz de bater o poeta federal. // Enquanto isso o poeta federal / tira ouro do nariz .
Pensando nisso, lembro as discussões que costumam rolar em ambientes de descontração, como bares, botequins e assemelhados, onde por vezes ocorre uma ruptura: alguém lança um argumento forte em favor de um figurão federal detentor de muito prestígio, em detrimento de outro, de dimensão estadual, este com estreitos vínculos com conhecida personagem municipal.
Isso é o bastante para acender-se uma acirrada polêmica em torno da honra, da capacidade intelectiva, da competência profissional e outros atributos do político de espectro municipal, mais conhecido dos circunstantes. O alcance ou a veracidade do que se põe em relevo no bate-boca importa menos do que as reveladas “relações muito próximas, suspeitíssimas e graves indícios” que mantém o tal munícipe com o citado chefão estadual.
Surge alguém e interpela a todos: “Quero ver quem tem peito de denunciar isso no tribunal!”, jogando mais lenha na fogueira.
Amizades antigas se estremecem e, enquanto se dão esses bruscos rompimentos, a personagem federal se articula subterraneamente com outros personagens federais, seus famigerados inimigos, adversários figadais, a fim de se livrarem de eventuais e inoportunas consequências dos seus atos perpetrados em desfavor das instituições, do país, do povo, inclusive daqueles que por eles se digladiam em foros não convencionais, os quais em nada interferem nas instâncias que realmente lhes interessam.

Parece que Drummond teve um senso agudíssimo do que estava por vir em nosso país, que emoldurasse magistralmente o seu curto e certeiro poema epigramático. Poeta vates é isto. Quer fale de política, quer fale do luar da sua aldeia, tem uma antevisão a partir de um ângulo especial, que abrange todo o espectro sensitivo possível.

LM
Publicado no O Povo em 13 de junho de 2017

PACTO




 Vai, poesia,
até os ermos da minha pobre terra...
Dá um abraço de orvalho às madrugadas
poentas do sertão... Dá-lhes alento.
Vai, calmamente pede aos passarinhos
que emudeçam ao menos um momento.
Não mereço a alegria dos seus cantos.
Adentra a noite e o sono dos meus pais
e pede-lhes, por Deus, ainda uma bênção.
Beija as suas frontes cheias de saudade.
Diz-lhes que eu aprendi mal a lição
copiada no meu caderno Avante!
e até as pedras choram meu destino.
À minha doce mãe, que me perdoe
pelas vezes que a fiz chorar. Por lágrimas
derramadas por seu poeta-menino.
E diz ao meu irmão que não sou puro
como ele sempre quis acreditar.
Que o castigo e o remorso têm morada
em meu desconsolado coração.
Que a saudade me acorda e me golpeia
em meus sonhos de exílios e distâncias.
Diz às minhas pretéritas amantes
que a elas, na verdade, eu nunca amei.
Que só lhes presenteei de despedidas
e que as traí por nada, o inconstante.
Vai, poesia.
À minha dor não tens que regressar.
Nossa aliança agora se desfaz.
Não fazemos, por certo, um belo par.
Não venhas ver-me, amiga, nunca mais...

SEM DESESPERO


"Torn" foto/arte por Tommy Ingberg


André Comte-Sponville (Paris, 1952), filósofo francês cuja corrente de pensamento é alinhada à de outros pensadores europeus de séculos precedentes que adotam o humanismo acima do racionalismo, sem prejuízo da lucidez, e com grande proximidade da visão de mundo de Spinoza, fala da desesperança como uma espécie de ferramenta de que se pode valer a humanidade para livrar-se do... desespero. Pode parecer um paradoxo, mas ele explica: não se trata do estado de desespero, que é sem dúvida aterrador, apocalíptico; trata-se antes de um não esperar, ou seja, um estado próximo à beatitude, em que não se anseia por nada. É esta uma das vertentes do ascetismo: as coisas vão acontecer, quer queiramos ou não.

Um parêntese: longe estou de me considerar um asceta. Padeço, como nos confessou Antônio Girão Barroso, do sofrimento, na “própria carne, de toda a dor da Poesia.” Acontece que por vezes algo me transporta daqui, deste “mundo velho sem porteira” e sem solução.

Em conversa com amigos nos últimos dias, vieram-nos à baila algumas questões que povoam o cenário político (e policial) brasileiro desde alguns anos. O que esperarmos, como desfecho dessa situação?

Ocorreu-me, então, a lembrança das leituras do mencionado filósofo francês. Parece-me que, dadas as circunstâncias em que se desenrolam os fatos na esfera da política (e da polícia) atualmente no Brasil, não há que se esperar tal ou qual desfecho: o que tiver de ser, será. Fatalismo? Creio que não. Trata-se, antes, do convencimento de que o rumo dos acontecimentos, naquela seara, independem da vontade dos principais atores da cena política (e policial) da atualidade brasileira. Imaginem, então, o que cabe a um cidadão como eu, desvinculado de qualquer agremiação partidária, sem compromisso com nenhuma corrente política ou ideológica! Confesso: o meu único compromisso é com a inteireza das minhas convicções. Parafraseando um grande poeta, não sou um homem de partido, porque não consigo partir-me.


Certo, devo continuar atento aos acontecimentos que se sucedem incansável e surpreendentemente, porém convencido de que a sua solução, se é que haverá uma solução em curto ou médio prazo, virá cumprir as expectativas que se acumulam nas mentes e nos corações. Melhor, talvez, a desesperança. Sem nutrir ansiedades, assistir às coisas acontecerem. Afinal, quer eu queira, quer não, elas vão acontecer. Do jeito que for. Na desesperança, sem desespero.

LM
Publicado no O Povo em 30 de maio de 2017

VICIADO EM VIRTUDE

Tem-se que o vício é um defeito, se não de caráter, pelo menos de comportamento. Mas, noutra acepção – mais generalizada, inclusive – o vício pode ser, simplesmente, uma reiterada prática. Nociva, no mais das vezes, outras vezes mera inclinação a um determinado comportamento. Não é raro ouvir-se: Fulano tem o defeito de só dizer a verdade. Esse defeito pode ser definido como um vício?
Lembro um pouco conhecido autor brasileiro que escreveu um dia em suas Moralidades Duvidosas, algo assim: Há determinados defeitos ou vícios que somente por descaso, negligência, ainda são considerados defeitos. As pessoas bem postas na sociedade exercitam uma vaidosa sinceridade ao confessar esses defeitos.
É bom lembrar que a virtude está, muitas vezes, bem próxima do seu falso amigo: a coragem excessiva pode descambar para a temeridade, assim como a prudência excessiva pode tender para a covardia. E há ainda uma virtude que se tem não por querer, deliberadamente, mas por um capricho do destino, como diriam os fatalistas românticos: o amor. E é, no entanto, o único bem que só aumenta quando se dá aos demais... Os outros bens podem minguar, se compartilhados. O amor se multiplica justamente com a doação.
Um amigo me dizia, há poucos dias, que conhecia uma pessoa viciada em praticar a caridade. Pergunte-lhe: será para ser reconhecido pelos amigos como filantropo? De jeito nenhum, respondeu-me. Prefere manter em segredo as suas doações aos necessitados, só pela boca de outrem sendo descobertos seus obséquios, quando isso ocorre, uma vez ou outra.
Claro, a caridade é uma virtude, que em nada se confunde com a prodigalidade. A pessoa generosa sente prazer em ajudar o semelhante, mas não se jacta disso.
A palavra vício tem em dicionário o sentido prevalente de defeito moral, tendência para o mal, ou algo assemelhado. Já na palavra vezo, que tem a mesma etimologia (do latim vitium) abranda-se mais esse sentido, sendo tomada preferencialmente como hábito ou costume. Designa antes uma tendência para algo, porém neutra. Por exemplo: ele tem o vezo de tomar dois banhos por dia.
Passemos a aceitar, portanto, este paradoxo (talvez só aparente): viciado em virtude.
LM
Publicado no O Povo em 16 de maio de 2017


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