AQUELA MANHÃ

Noite a findar, a música embalando
o sono acontecido, finalmente
e o fulgor do momento perdurando
nas visitas do sonho intermitente.
Segredos desde então... desde esse quando
em que a noite da veste transparente
foi despojada e fomo-nos doando
em recíprocos, mágicos presentes.
Vimos no alto a cúmplice presença
de uma argentada e confidente lua
fingindo olhar os astros, displicente...
E o sol enfim chegou, pediu licença
e flagrou, na moldura do nascente
a ti, amada, esplendorosa e nua!





SONETO DA TARDE CÚMPLICE

Tu estavas mais nua que jamais
e me deste na tarde que inventaste
os beijos prometidos e ancoraste
o meu barco ofegante no teu cais.
Somas paixões e dúvidas subtrais
e aos nossos corpos juntos tu ateaste
um fogo de quenturas abissais
flor em delírio na pulsante haste.
Foram horas de voos e funduras
e quando se fez noite entre as escuras
vozes do vento, ainda havia luz
em nosso peito quieto e confortado.
Amei, querida, e quanto tens amado
na tarde que nos une e nos seduz!







 CÂNTIC0 À ESTIRPE LATINA

Vasile Alecsandri
(tradução de Luciano Maia)  
                                                                                                                                                                                               
Nossa estirpe latina é rainha
 entre as grandes estirpes do mundo;
em sua fronte uma estrela divina
 brilha eterna no tempo profundo.
Seu destino adiante é o guia
e à vanguarda seus passos conduz.
Sempre à frente, com mais galhardia,
 ela esparge ao redor sua luz.

É uma deusa a estirpe latina,
 de fascínio e de encanto mais doce;
o estrangeiro, à sua frente, se inclina,
 à sua voz todo o mundo curvou-se.
Tão formosa, tão viva e ridente,
 sob um céu que ares tíbios desfralda,
ela espelha-se ao sol resplendente
e se banha num mar de esmeralda.

Nossa estirpe latina faz parte
 dos tesouros das terras louçãs;
de bom grado, ela os doa e reparte
 com as suas diletas irmãs.
Mas terrível se faz, quando um dia,
 o seu braço é furor libertário
e golpeia a cruel tirania
 em defesa do seu corolário.


Quando, enfim, no Juízo Final,
 frente a Deus, se lhe for perguntado:
Qual missão foi o teu ideal
 na existência terrena? Eis o brado
da estirpe latina, alto e forte:
   Senhor, quantos mundos andei
ante os olhos da vida e da morte,
 a Ti, sempre, Te representei!

Este poema foi escrito pelo poeta romeno Vasile Alecsandri em 1878. Ligado à França e à latinidade por sua educação, suas convicções e suas amizades, Alecsandri participou do concurso dos félibres (grupo de escritores occitanos que instituíram o Félibrige, movimento de resistência cultural em favor da língua e da cultura occitanas), por iniciativa de A. Quintana, para a escolha do mais belo poema dedicado à estirpe latina. De acordo com a decisão unânime do júri, composto por Fréderic Mistral, C. Tourtoulon, A. Quintana, M. Obedenaru e Graziadio Ascoli, venceu o concurso o poema de Alecsandri. Foi um reconhecimento da sua visão da latinidade e dos seus dons poéticos, mas Alecsandri considerou a premiação ao seu “Cântecul gintei latine” principalmente como uma homenagem ao povo romeno que, embora distante de Roma, soube conservar, através dos tempos, a sua identidade e as suas tradições latinas.
O poema de Alecsandri foi traduzido para o francês, por Fréderic Damé, em 1878; para o latim, por Demetriu Fekete, em 1878; para o italiano, por Gaetano C. Mezzacapo, em 1883; para o provençal, por A. de Gagnaud, em 1885; para o romanche, por Alfons Tuor, em 1896; para o espanhol e para o português, respectivamente, por Luis Hernán Ramírez e José B. Gonçalves, em 1978. A presente tradução, de Luciano Maia, é de 1998, em comemoração aos 120 anos de sua criação por Vasile Alecsandri.






 
ENGLISH SPLEEN


Habitava a tristeza de um azul
na cor inquieta de uma nuvem tarda.
Um território imaginado ao sul
que a só lembrança desvalida guarda.
Jardins desertos, restos de paul
em torno às sombras ocres da mansarda
num subúrbio cinzento em Liverpool –
resquícios de uma tarde em hora parda.
A cor da melodia ainda se ouvia
como em lamentos roucos de violino
a resvalar no rosto desse dia
da poesia inglesa em desatino.
     Romântico menino, hoje este homem
     é preso destas horas que o consomem.