VICIADO EM VIRTUDE

Tem-se que o vício é um defeito, se não de caráter, pelo menos de comportamento. Mas, noutra acepção – mais generalizada, inclusive – o vício pode ser, simplesmente, uma reiterada prática. Nociva, no mais das vezes, outras vezes mera inclinação a um determinado comportamento. Não é raro ouvir-se: Fulano tem o defeito de só dizer a verdade. Esse defeito pode ser definido como um vício?
Lembro um pouco conhecido autor brasileiro que escreveu um dia em suas Moralidades Duvidosas, algo assim: Há determinados defeitos ou vícios que somente por descaso, negligência, ainda são considerados defeitos. As pessoas bem postas na sociedade exercitam uma vaidosa sinceridade ao confessar esses defeitos.
É bom lembrar que a virtude está, muitas vezes, bem próxima do seu falso amigo: a coragem excessiva pode descambar para a temeridade, assim como a prudência excessiva pode tender para a covardia. E há ainda uma virtude que se tem não por querer, deliberadamente, mas por um capricho do destino, como diriam os fatalistas românticos: o amor. E é, no entanto, o único bem que só aumenta quando se dá aos demais... Os outros bens podem minguar, se compartilhados. O amor se multiplica justamente com a doação.
Um amigo me dizia, há poucos dias, que conhecia uma pessoa viciada em praticar a caridade. Pergunte-lhe: será para ser reconhecido pelos amigos como filantropo? De jeito nenhum, respondeu-me. Prefere manter em segredo as suas doações aos necessitados, só pela boca de outrem sendo descobertos seus obséquios, quando isso ocorre, uma vez ou outra.
Claro, a caridade é uma virtude, que em nada se confunde com a prodigalidade. A pessoa generosa sente prazer em ajudar o semelhante, mas não se jacta disso.
A palavra vício tem em dicionário o sentido prevalente de defeito moral, tendência para o mal, ou algo assemelhado. Já na palavra vezo, que tem a mesma etimologia (do latim vitium) abranda-se mais esse sentido, sendo tomada preferencialmente como hábito ou costume. Designa antes uma tendência para algo, porém neutra. Por exemplo: ele tem o vezo de tomar dois banhos por dia.
Passemos a aceitar, portanto, este paradoxo (talvez só aparente): viciado em virtude.
LM
Publicado no O Povo em 16 de maio de 2017


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O MOMENTO BRASIL


Antônio Maria, poeta, cronista, compositor e letrista, dizia ter como  profissão a esperança. Com efeito, nós, brasileiros, estamos sempre obrigados a acreditar numa mudança nos modos de fazer-se política, em nosso país. Sempre! Sempre urgem medidas que remendem os velhos hábitos, medidas que demoram a chegar. Daí, a bem-humorada e, por que não dizer, triste frase do poeta. E pensar que o nosso país já foi do futuro... Será hoje um país do passado?
A últimas semanas trouxeram à baila alguns dos mais discutidos e antigos problemas que afligem a nação. Deram-se acesas discussões no Senado Federal, na Câmara dos Deputados, no Conselho Monetário Nacional e em tribunais de várias instâncias em torno desses problemas.
Pendentes estão de solução, entre outros: fim do foro por prerrogativa de função; julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE; fixação de uma taxa básica de juros compatível com a perspectiva econômica nacional; reforma trabalhista; reforma previdenciária, reforma política etc.
Vejamos, apenas para reflexão: a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou , por unanimidade, no dia 26 próximo passado, o fim do foro privilegiado, ato contínuo à aprovação da lei de abuso de autoridade. Num passe de mágica, todos os senadores presentes se despojaram de suas prerrogativas. Calma! Faltam ainda três votações para que isso aconteça.
Mas, quais foram, então, os motivos dessa renúncia tão altruísta? Primeiro, aplacar os ânimos da sociedade; segundo, conhecendo os trâmites a que forçosamente terá de submeter-se uma proposta de emenda constitucional, sabem perfeitamente quanto tempo isso irá demandar; terceiro, com a sobrecarga de ações no foro federal de Curitiba, cogita-se do fatiamento da distribuição dos vários processos, sendo bem provável que um juiz de primeira instância, atuando na comarca onde tem seu reduto eleitoral um tal ou qual parlamentar seja o responsável por julgamentos que a esses digam respeito.
Enfim, são muitas as variáveis que se apresentam, apenas com relação à extinção do tal foro privilegiado que, é bom lembrar, teve seu fim anunciado com a exclusão dos chefes de poder: presidente da República, presidente do Congresso Nacional, presidente da Câmara dos Deputados e presidente do Supremo Tribunal Federal.
Longe estamos da solução dos mais discutidos e antigos problemas que afligem a nação. Brasileiro, profissão esperança.

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LMPublicado em O Povo, em 2 de maio de 2017

DIÁLOGO: POSSÍVEL?


As últimas décadas da história brasileira revelam uma progressiva corrosão de valores morais, estéticos, políticos, culturais, enfim. Acentuou-se e se aprofundou o fosso entre a realidade e as mais variadas e delirantes convicções, tanto acerca de política, quanto de qualquer outro tema de interesse público. Tudo isso fruto de um esgarçamento dos próprios objetos de estudo. Os brasileiros não se veem em sua literatura, hoje.

Se dermos uma olhada, por curiosidade intelectual e histórica, no cenário literário brasileiro de quatro décadas atrás, verificamos, pasmos, o quanto deteriorou-se este cenário! Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Lima Barreto, João Guimarães Rosa, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e tantos outros na prosa; Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, na poesia, são nomes que bastam para detectar-se a visível e deplorável diferença de estatura literária entre eles os que hoje são considerados nomes respeitáveis da cultura nacional. Se recuarmos mais ainda (Machado de Assis, Euclides da Cunha...), ainda mais sentiremos o tamanho da perda. O que houve com a cultura brasileira? Que valores produz hoje a nossa Universidade?

Essas observações poderão parecer saudosismo. Pois eu digo: ah, se fosse apenas saudosismo! Mais do que isso, é a constatação de uma empobrecedora fragmentação cultural em nome sabe-se lá de quê! Pluralidade de ideias é algo bastante diverso de fragmentação cognitiva, eis a questão.

Assistimos hoje a uma improdutiva discussão entre contendores armados de convicções emperradas, cuja validade o tempo já tratou de desmentir. No entanto, corifeus tardios e empedernidos de engrenagens ideológicas enferrujadas dispõem-se à sua defesa e – não bastasse – demonizam os que a isso se opõem, nominando-os com todos os qualificativos que denigrem a pessoa humana. Atualmente, no Brasil, não há uma ideia clara, nem sequer do que seja verdadeiramente o nosso país em sua cultura, sua história e seu difícil crescimento como povo.

Vemos, não uma pluralidade cultural, o que seria de todo salutar, mas uma fragmentação empobrecedora de conceitos. Ao tentar-se estabelecer um complicado diálogo (impossível, melhor dito), jorram os xingamentos e a  incapacidade de ouvir. Os rótulos ideológicos cegam os incautos, enquanto os seus “líderes” se refestelam em cima disso tudo. Diálogo: possível?

LM
Publicado no O Povo em 18 de abril de 2017

AMOR DE TROVADOR


Todas as línguas apresentam as suas peculiaridades, às vezes parecendo verdadeiros enigmas. Tal é o caso, por exemplo, do verbo plicare do latim, que em português e espanhol veio a significar chegar, (llegar), e em romeno o contrário: partir (plecà). Por quê? Porque nas duas línguas ibéricas, em terra de marinheiros, veio de plicare velam, dobrar a vela, chegar (a um porto). Já na Dácia ( Romênia atual), terra interior, veio de plicare tentoria, dobrar as tendas, partir (do acampamento).

O exemplo acima parece, antes de se ver a história da palavra, um paradoxo. Examinado o caso, chega-se a uma conclusão lógica. Também em inglês temos cold, para frio, que não vem do latim callidus (= quente)! A raiz é indoeuropeia: gel (pronunciado ghel). Daí, o latim glacies e também gelum. Deu glace em francês e gelo em português. O alemão Kalt tem a mesma raiz de cold.

Voltando ao título destas linhas, damos aqui um dado que apenas necessita de uma explicação simples: as palavras francesas que derivam do latim e terminavam em -or, como calor, color, cor, dolor, flor, doctor, senior, valor etc, na língua de Voltaire terminam em -eur: chaleur couleur, coeur, douleur, fleur, docteur, segneur, valeur... Mas, então por que amour e troubadour e não ameur e troubateur? Em latim, são amor e trovator. Entre o latim e o francês estava o occitano, onde estas palavras, apesar de se grafarem amor e trobador, pronunciam-se amur e trubadur, como, de resto, as demais vindas do latim com a terminação -or.

Dizem os occitanos que estas duas palavras são mágicas: resumem o prestígio de que gozou na Idade Média a literatura trovadoresca em língua occitana, a lauda do amor cortês que serviu de matriz a muitas literaturas ocidentais. Não somente trovadores e jograis, mas também reis de países de línguas diferentes escreveram em occitano e principalmente construíram poemas à maneira occitana (provençal, diziam). Na Divina Comédia aparecem versos em occitano, atribuídos a Arnautz Daniel, segundo Dante, il meglio fabbro a compor em romance (língua românica). Então, amor e trovador, palavras prestigiosas em qualquer língua têm, em francês, matriz trovadoresca... A história cobrando o seu preço: toda a região da Occitânia (sul da França) só foi incorporada ao império francês após a trama dos reis da dinastia dos capetos e do papa Inocêncio III, para o aniquilamento dos cátaros de língua occitana.

LM
Publicado no O Povo em 4 de abril de 2017


POETAS SINGULARES


Faz algum tempo, o poeta Jorge Tufic e eu, em conversa sobre as coisas da literatura brasileira, falávamos acerca dos tais poetas singulares. O vate fenício indicou, de pronto, um nome acima de qualquer dúvida, sendo, segundo fez questão de enfatizar, absolutamente singular: Augusto dos Anjos (1884-1914). Naquela ocasião não ficaram definitivamente estabelecidos os critérios que determinariam poder um poeta  ser considerado singular. Concordamos, então, num ponto: se ao se pronunciar um texto qualquer de um poema, o ouvinte identificar de pronto a sua autoria, sem conhecimento prévio do texto, então, pimba!, trata-se de um poeta singular. Então, a singularidade residiria no uso do vocabulário, na abordagem do tema e na tensão do discurso? Talvez. O certo é que os versos seguintes: Tome, doutor, esta tesoura e corte / minha singularíssima pessoa ou Tu não és minha mãe, vela nefasta! (referindo-se à Natureza) parecem ser como um indez da obra de Augusto dos Anjos.
E Castro Alves (1847-1871)? Ponderamos: romântico, ultrapassa os limites dessa estética, sendo possuidor de uma verve rara, de uma eloquência ímpar e de uma convicção muito forte, sem aludirmos às imagens personalíssimas de alguns poemas seus: Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. Castro Alves, também poeta singular.

Raul Bopp (1898-1984) em sua obra Cobra Norato revela-se, ele também, singular: Vejamos isto: Quero levar minha noiva / quero estarzinho com ela / numa casa de morar / com porta azul pequininha / pintada a lápis de cor / quero sentir a quentura / do seu corpo de vaivém / querzinho de ficar junto / quando a gente quer bem-bem.

E quanto a Manoel de Barros, ah, este é intensamente singular. A abordagem que faz dos temas (sim, no plural) é única. Parece que o poeta desconfia das “sinceridades” com a que de costume fazem os que tratam da questão poética. Cabe citarmos esta passagem: 41. Palavras / Gosto de brincar com elas. / Tenho preguiça de ser sério. Mais esta: O menino sentenciou: / Se o Nada desaparecer a poesia acaba. / E se internou na própria casaca / ao jeito que o jabuti se interna. Esta última citação alude à “Dona Lógica da Razão” que, segundo este singular poeta, “bosteia” contra a poesia...

Poetas singulares... Mais alguns há na literatura brasileira, certamente, mormente se levarmos em conta os poetas populares do Nordeste. É tema que, comportando muitas relativizações, merece ser estudado.

LM
Publicado no O Povo em 21 de março de 2017

OS LONGES - Lançamento



OS LONGES
Coquetel de lançamento

15 de março de 2017, às 19 horas no Ideal Clube.
Sob os auspícios da Academia Cearense de Letras.

Na ocasião, o ator Ricardo Guilherme interpretará
3 poemas do livro.


Aguardo vocês para um brinde.

Luciano Maia

DOS CARNAVAIS SAUDOSOS II


Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos?... A memória dos meus primeiros carnavais chega-me com as melodias dos frevos-de-bloco de Nelson Ferreira, Luiz Bandeira, Capiba e outros carnavalescos do Recife de antanho. Era ainda em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, onde a influência da cultura pernambucana era bem maior do que hoje. Ouso dizer que até que os acentos eram mais próximos: a casa de João, o cavalo de papai, as vacas dede Joaquim...

O frevo gozava, no início da segunda metade do século XX, de imenso prestígio em todo o País, particularmente no Nordeste. Um prestígio à altura do seu merecimento: músicas cujas harmonias penetram fundo, ritmos entranháveis, difíceis de ser banidos da nossa lembrança. Mesmo a atual geração (refiro-me aos jovens que têm hoje entre 21 e 30 anos) ouve o frevo de forma entusiástica.

Em 1972 fui morar no Recife e lá pude conhecer de perto a forte tradição do frevo (e as belas noitadas na praia do Janga, em Olinda, com a suas cirandas). O Recife apresentava aquela atmosfera singular em sua feição arquitetônica, com seus bairros arborizados, seus casarões vetustos, habitados por gente que, no período do carnaval, era tomada por uma irresistível magia foliã, da forma tanto mais natural quanto obrigatória, se fora isso possível. Os barzinhos do centro do Recife (e de Olinda) eram recintos quase sagrados para os brincantes de todas as idades. Eles nutriam uma reverência profunda por aqueles frevos-de-bloco! Lembro o “Frevo nº 2 do Recife”, de Antônio Maria, que alude aos maracatus retardados, chegando à cidade cansados, com seus estandartes pro ar...Poesia! Ilusão, desilusão, novamente ilusão! Mas, reparem: ilusão, aqui, ganha um significado mais elevado, não apenas um engano, mas quase o contrário: o encontro com o sonho que vale a pensa ser sonhado.

Gosto de todos os outros ritmos de carnaval: a marchinha... algumas delas insuperáveis! O samba, dentre eles, alguns de Noel e de Lamartine Babo, sei não! A marcha-rancho, com letras tão líricas, a que Vinícius de Moraes dedicou a sua pena! Mas é no frevo-canção que encontro ainda a alma ancestral do verdadeiro e imortal carnaval de rua. Não é raro encontrarmos no Recife Antigo, blocos ostentando estandartes com o ano de sua aparição por volta de uma centúria. Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum, dos carnavais saudosos.

LM
Publicado no O Povo em 7 de março de 2017


DOS CARNAVAIS SAUDOSOS


Falamos, nestes dias, em várias rodas, do Carnaval da Saudade. A festa do Náutico Atlético Cearense já chega ao seu cinquentenário. Vale dizer que as músicas de carnaval compostas na década de 1960 e nas três seguintes podem hoje perfeitamente ser incluídas no rol das... saudosas. Em 1967, não entravam na lista simplesmente pelo fato de terem sido concebidas naquele tempo, não se constituindo, portanto, saudade. Saudade como resultado de pelo menos duas décadas passadas.  Hoje é diferente: há pressa em dizer-se que algo é do passado.

Cinquenta anos! Desde 1966, eu morava vizinho à casa de Christiano Câmara, o primeiro organizador do entrudo. Lembro dos ensaios  com os músicos da terra, do desejo inarredável de Christiano de que os arranjos permanecessem fieis aos originais... Lembro do Dr. Helano Studart Montenegro, diretor do Náutico à época,  idealizador e também operador do evento.  Lembro do apreço aos compositores dos anos 1930 e 1940, especialmente Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, João de Barro, Ataulpho Alves e outros mais. E em se tratando de carnaval... Lembro que participei de algumas gravações de anúncio das músicas para a Festa das Nações daquele ano, também no Náutico. Com certeza, esses arquivos estão guardados no vastíssimo acervo daquele verdadeiro museu. Vem-me à memória uma marchinha por mim anunciada, cantada por Dalva de Oliveira, dentre as mais antigas da diva da música brasileira, durante décadas. Aquele evento revestia-se, de primeiro, de uma aura, digamos, nostálgica. Os mais interessados em ouvir as famosas marchinhas, sambas e marchas-rancho eram os de cabelos prateados... As músicas de carnaval eram mais músicas, ou melhor, tocavam mais ao ouvido da gente do que as de hoje?...  Curioso: em 1967 eu tinha 18 anos! E agora, 50 anos depois, são os mais jovens a inundarem os salões do Náutico. Àquela época, eu acompanhava o Christiano e a Douvina, sua mulher, ao Náutico, mas eu era franca minoria, entre os demais, em se tratando de faixa etária.

O que mudou? Além do enorme sucesso do evento, uma coisa parece certa: as músicas que se ouvem hoje no Carnaval da Saudade são menos... saudosas. Será por isso que os jovens sentem-se mais atraídos à festa do que os que têm hoje mais de 60 anos? Não será que figuram hoje no rol das músicas do Carnaval da Saudade músicas compostos, a bem dizer, ontem? São perguntas cujas respostas podem variar a cada um que as pretenda responder.

LM
Publicado no O Povo em 14 de fevereiro de 2017

SEM CIDADANIA

Comentar, analisar os fatos da vida, opinar quanto à validade desses fatos na existência das pessoas, mensurar os efeitos benéficos e danosos dos mesmos sobre a sociedade, adotando, sempre que possível e oportuno, uma atitude positiva frente a essas questões, colocar-se à disposição dos semelhantes para um possível ato de solidariedade – eis uma tarefa, ou melhor, tarefas dignas de alguém merecedor do título de cidadão.
Um cidadão, nos dias de hoje, anda a nos fazer falta: é grande a enxurrada de informações e desinformações a partir dos meios de comunicação; essa carga diária de “novidades” vem, no mais das vezes, deformada pela prenhez indevida de preceitos que, ditos adequados à vida em sociedade são, na realidade, falsos axiomas. É comum ouvirmos frases como: “o cidadão tem que reivindicar os seus direitos”. Rara é esta: “devemos todos cumprir com os nossos deveres”. É isto: direitos e deveres formam hoje praticamente uma dicotomia na cabeça da moçada quando, ao contrário, são, ou pelo menos deviam ser encarados como um binômio.
Lembro essa dicotomia, em face da injustificada revolta de filhos contra pais, contra quem os ama e os criou com sacrifício, para bajularem os marginais que mandam no submundo do crime (organizado ou não). Não aceitos como verdadeiros homens pela gangue a que querem servir, sentindo-se tratados como jovens tolos pelos que os desprezam e exploram, voltam-se contra os que sempre os aceitaram e deles cuidaram desde a nascença. Isso é muito mais do que ingratidão: é cretinice.
A liberdade que se diz hoje conferir aos jovens é uma verdadeira arapuca, que os deterá mais cedo ou mais tarde nas teias da quase impossibilidade da convivência salutar com os demais, num ambiente de verdadeira, possível harmonia.

Não passa pela cabeça desses “revolucionários” a mínima ideia do que seja a cidadania (diretos e deveres). Na universidade de hoje não aprendem isso. No ambiente universitário de hoje (salvo raras exceções que confirmam a regra) assiste-se a uma verdadeira dissolução dos valores fundamentais, básicos, de coexistência humana fundada no equilíbrio possível. E jogam fora o que em casa aprenderam (ou deviam ter aprendido) com os seus pais. O tempora, o mores!


LM
Publicado no O Povo em 31/01/17

UM PRÓCER DA LÍNGUA


Imagem extraída do blog da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo


Lendo Esboços e Arquétipos – língua – ciência – literatura, do prof. Vianey Mesquita (Fortaleza: Expressão, 2016), inteiramo-nos de que o descaso das instituições de ensino no Brasil não fez esmorecer o trabalho daqueles que se dedicam ao estudo dos fatos linguísticos, com uma percuciente abordagem dos aspectos científicos relevantes que o tema envolve. O estudo, o conhecimento e, por consequência, o amor à nossa língua é atributo que deve ser exaltado em nossos dias, tão escassos de estudos revestidos de competência e seriedade e, portanto, de alto valor.
O prof. Vianey Mesquita é já bastante conhecido e reconhecido em seu labor, por quantos se interessam pelas coisas da cultura e da arte. Mas ainda nos surpreende, numa escansão do soneto, desde a sua invenção/ criação/ descoberta, no século XII, até agora. Interessantíssimo é o soneto de sua autoria “Insânia lúcida”, escrito ainda em 1965 e aposto como objeto de estudo neste livro, peça, como ele mesmo nos informa, “produzida de maneira adrede (grifo nosso), isto é, em tarefa procedida intencionalmente para a então matéria  Língua Portuguesa (...)”. O título do soneto já nos dá a indicação de um oximóron, aliás o tema do poema, inserido na primeira parte do livro – língua.
Em seguida, oferece-nos explicações sobre o emprego do advérbio adrede, que pode tomar a forma adredemente e até de adrede, como nos aponta, inclusive com a citação de autores de prestígio que utilizaram essas variantes. O advérbio, segundo alguns dicionaristas, provém do latim ad rectus. Porém os mais destacados dentre os lexicologistas afirmam provir do germânico at reth, de onde at red (por conselho). Chegou ao português pelo espanhol adrede.
A segunda e terceira partes do livro Esboços e Arquétipos... dedica-se à ciência e à literatura, em que são objeto de apreciação vários autores cearenses. Por último, temos uma literatura passiva, isto é, sobre o autor.

Desejo ressaltar as páginas que Vianey Mesquita dedica a Espiroá, livro de Augusto Rocha: a sua leitura me induziu a buscar esse livro, que ainda não conheço, mas que, pelas referências de Vianey Mesquita, merece lido, mercê de “constituir artefato imponente da literatura nacional.”

LM
Publicado no O Povo em 17 de janeiro de 2017

A LÍNGUA SARDA


Entre todas as línguas românicas, ou seja, as línguas continuadoras do latim vulgar outrora falado no Império Romano, destaca-se uma como a mais conservadora quanto à morfologia e, em certa medida, quando ao léxico: sa limba sarda (a Sardenha é uma ilha e, como se sabe, as ilhas conservam mais as línguas). Inclusive o artigo definido su, masculino (do latim ipsum) e o feminino sa (do latim ipsa), difere dos das demais línguas românicas, que adotaram ille (pronome demonstrativo latino).
Em muitas publicações sobre a língua sarda, encontramos a frase abaixo, no intuito de demonstrar a similitude (no caso, a identidade) do sardo e do latim: Columba mea est in domo tua (claro, domo, aqui, não tem mais a função de ablativo, é uma forma fossilizada). Em todo o caso, é indubitável que alguém com noções, ainda que rudimentares, do latim vulgar, ao ler ou ouvir a língua sarda terá a impressão de estar diante de um latim modificado, evidente, mas com uma sonorização que o remete a in illo tempore, ou seja, a uma deliciosa e rara sensação de tempos antigos.
A língua sarda apresenta cinco vertentes: o logudorês, no centro-norte (incluindo o nuorês), considerado o sardo por excelência e que a maioria dos escritores utiliza como língua literária; o campidanês, na metade meridional da ilha, incluindo a capital, Cagliari; o sassarês e o gallurês, no norte.
Há atualmente na Sardenha um intenso movimento linguístico-cultural, onde se inserem instituições públicas e particulares, com o apoio de escritores e até de políticos, visando à uniformização do sardo. Tarefa difícil, mas não impossível: o cantão suíço dos Grisões tem hoje o rumantsch grishun, língua unificada dos seus cinco codialetos. E o sardo é muito mais homogêneo do que o romanche, além de ter uma população muitíssimo mais numerosa que os Grisões.
Para os estudiosos das línguas românicas, o sardo é uma relíquia, uma língua falada numa ilha banhada pelo mar Tirreno, com um povo alegre e hospitaleiro, ainda com características encontráveis, por exemplo, no nordestino do interior. Inclusive a vertente da vendetta (vindicta, em sardo, latim puro), a vingança praticada fora dos ditames da lei. Perfeitamente compreensível, numa região onde a ausência do Estado deu lugar às contendas pessoais e familiares desde tempos remotos (vide, mutadis mutandis, o cangaço). Há na Sardenha um provérbio bastante ilustrativo da cultura da vingança: justitia pronta, vindicta facta!

LM
Publicado no O Povo em 03 de janeiro de 2017

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O CANTO FLAMENCO


O sul da Espanha foi, por mais de setecentos e cinquenta anos, submetido ao domínio árabe, havendo dele recebido importantes influências, desde a invasão da península em 711 por Tárik Benzema ibn Ziyad al-Layti, ou simplesmente Tárik  (Gibraltar é uma adaptação do árabe Jaba al-Tárik, ou a montanha de Tárik) e o aliado Musa ibn Nusayr com seu exército berbere, até a expulsão definitiva do último reduto árabe da Espanha, Granada, em 1492.
A partir do século XV, por volta de 1447, chegaram à Andaluzia grandes levas de gitanos, vindos da Catalunha, que parece ter sido a sua porta de entrada na Espanha. Passaram anteriormente pelo Egito (vinham do noroeste da Índia), daí talvez a sua denominação, oriunda  de egiptanos (em inglês gypsies).
Quando desejamos falar da música andaluza, devemos ter em conta as variadas influências exercidas na região, desde tempos remotos, por romanos, bizantinos, vândalos (Al-Andalus!), muçulmanos, judeus, árabes (moçárabes), além, principalmente, dos ciganos, que a ela deram um colorido especial. O flamenco, palavra de origem algo obscura, parece vir do árabe felamengu (homem errante) e de flahencon (cancioneiro). Assim, flamenco seria a denominação dada por moçárabes (andaluzes mestiços arábigo-espanhóis) aos gitanos, notórios andarilhos e músicos extraordinários.
Não devemos reduzir o conceito de flamenco a um guitarrista, um cantaor, um tablado e uma dançarina! O flamenco comporta, além do cante hondo, romances corríos, martinetes, soleares, tientos, peteneras, bulerías, fandangos, seguiriyas... uma miríade de estilos e ritmos. E há, sobretudo, a poesía flamenca, uma estética especial: Se adespierta un rey celoso,/ coje la pluma y escribe, / y en el primer renglón pone; / quien tiene celoz no vive! Ou: Dezpué de haberme llevao / toa la noche de harana, / me vengo a purificá / debajo de tu ventana, / como se fuera um artá.
O poeta andaluz Federico García Lorca, ele próprio se autodefinindo gitano, escreveu, em tom encantatório: Cuando la cabeza inclina / sobre su pecho de jaspe, / la noche busca llanuras / porque quiere arrodillarse. A música andaluza cantada reflete uma herança ancestral vincada sobre a voz gitana. Ela tiene duende, como disse o poeta.
Há evidente semelhança, não somente temática, mas de intensidade dramática, entre o flamenco e o tango argentino. Matéria para um estudo. E já os há, a respeito.

LM
Publicado no O Povo em 20/12/2016