A palavra companheiro: origens e desvios




O termo companheiro, em nossa língua, como nas demais línguas românicas, deriva do latim cumpanis (com pão), de onde o italiano compagno, o francês compagnon, o castelhano compañero, o catalão company etc.
A origem da palavra é cristã? Muitos etimologistas a tomam como advinda do significado da última ceia de Jesus com os doze apóstolos. A Igreja (a que veio em lugar do Reino anunciado na antiga profecia) teria açambarcado o termo? Ou o seu significado primordial é tão humano, tão fulcralmente inerente ao nosso ser, que a sua origem encontra-se bem antes da chamada Congregatio de propaganda fide, quando a Igreja Católica, na Idade Média, ampliou e praticamente impôs os seus dogmas e cânones? Inclino-me mais para esta tendência: a dos etimologistas que fazem remontar a origem de companheiro à transumância (de trans humus, mudar de terra) dos pastores, isso muito antes da nossa era, no alvor da civilização, em que o seu significado primordial está ligado à necessidade de compartilhamento da comida (pão é palavra-símbolo), em vista das longas viagens sem o aprovisionamento suficiente de gêneros para o sustento. Seja como for, a palavra, em sua origem pagã ou cristã, está carregada de um conteúdo muito humano e espiritualmente elevado.
Chegando ao século XVIII, à época da revolução francesa, com a histórica Queda da Bastilha, difunde-se o uso de denominações igualitárias, com o deliberado intuito da abolição de termos concernentes à nobreza, como Madame (Senhora), Monsieur (Senhor). Passa a ser de bom tom ser chamado citoyen (cidadão) ou, melhor ainda, compagnon (companheiro). O próprio Rei Luís XVI gostava de ser chamado de citoyen Louis Capet! A partir daí, o termo companheiro começa a ganhar foros políticos.
No Brasil , a partir dos anos sessenta do século passado, com o triunfo da revolução cubana, cujos líderes preferiam compañero a camarada (termo de origem espanhola, ligado à caserna), a palavra foi cada vez mais utilizada como sinônimo de correligionário político, podendo dizer-se que houve um outro açambarcamento da palavra. Na verdade, a palavra companheiro nunca se aplicará de forma justa aos seguidores de um partido.  Outra palavra, de origem espanhola, compinche, em nossa língua compincha, é mais adequada a quadros partidários, por tudo quanto sabemos.
E quanto a camarada? Palavra de origem militar, também do espanhol. Primordialmente, era o militar que dividia com outros o quarto, a câmara.  Trataremos dela, proximamente.

Publicado em O Povo, no dia 19 de setembro de 2017


        
Labatut advertido pelo Saci


Dizem que quando morreu na cidade de Salvador aos 81 anos, onde não assombra ninguém, pelo contrário, tem rua em sua homenagem, Pedro (Pierre) Labatut (1768-1849) saiu de seu jazigo no Mosteiro da Piedade e retornou à Chapada do Apodi, por onde havia estado à procura dos revoltosos de Pinto Madeira, em 1832. Que deambula por ali, trôpego, com uma aparência espectral, em noites horripilantes.

Esse ogro europeu achou de aterrorizar a gente da chapada e áreas circundantes. Mal vestido, ou melhor, vestido de forma muito bizarra, longas barbas, dentes grandes e amarelos, dizem os mais temerosos que esse fantasma medonho chega às casas em noite de lua cheia e exige alimentos e armas. Os sertanejos escondem as suas crianças, com medo de que Labatut queira devorá-las.

Há mais de um século, portanto, essa assombração vem apavorando a gente de lá. Em janeiro de 2002, no município cearense de Icó, no alto Jaguaribe, perto da fronteira com a Paraíba, numa noite de lua e chuvosa ao mesmo tempo, João Malaquias, ex-tangerino (desde 1961 deixara a profissão), voltando à sua casinha após um dia de muita fadiga (eram 10 horas da noite, ele havia ainda passado em casa do seu compadre Severino Graúna, para ouvir os seus causos), viu algo que nunca poderia imaginar: descendo daqueles terrenos ondulados que fazem a fronteira com os paraibanos, ninguém menos que o Saci, em conversa com Pedro Labatut! E que conversa! Pôde João Malaquias escutar muito bem aos dois, pois os seguiu sorrateiramente (mesmo percebendo que o Saci já tinha dado fé da sua presença. Ao Saci ninguém engana).

- General Labatut, V. Exa. ainda por aqui?
- Venho de Uiraúna e Bernardino Batista, moleque. E estou exausto. Com fome e sede. Caminho a pé há três dias. Tenho um encontro ali adiante, no Icó...
- General, vim avisá-lo que se V. Exa. continuar a perambular e espalhar pavor por aqui, morrerá de novo... Só que, desta vez, para sempre.
- Mas, Saci, logo você, que faz arte com todo mundo?...         
- Sim, mas a minha arte é arte mesmo, não é maldade.
- O que dizem de mim é pura invenção, crueldade dessa gente.
- Diga outra, General, porque essa gente eu conheço bem e não tem nenhuma crueldade. Fantasia, sim, mas a fantasia é própria do homem do interior.
- Está bem, então, pura fantasia.
- Não, senhor. A fantasia que se aceita aqui é a que me criou, da forma mais ingênua e legítima, da maneira mais natural, brasileiríssima. V. Exa. é outra história... Francês, não é isso?
- Francês que brigou pela independência do Brasil em Pirajá...
- Francês que cobriu de sangue as colinas gaúchas! E que degolou os cearenses de Pinto Madeira!
- Sou profissional.
- Mercenário, pega melhor.
- Profissional.
- Para acabar a conversa, repito: volte para o seu jazigo, vá embora, em nome da mitologia brasileira.

Depois disso, João Malaquias viu se espalhar uma fumaça espessa, quando o Saci acendeu o seu cachimbo, fazendo desaparecer a Pedro Labatut. E ele também sumiu.



Luciano Maia pertence à Sociedade dos Observadores de Saci – SOSACI, que luta pela instituição do Dia do Saci no Brasil, para 31 de outubro, em substituição à bruxa americana ralouin (halloween), inventada aqui há pouco tempo. O saci é brasileiro!

Folclore, Folclórico







O que é o folclore? Numa definição lato sensu, o conjunto de crenças e realizações de um povo. Ou se trata de algo mais?
Hoje, é comum dizer-se que algo ou alguém é folclórico, por ser pitoresco ou pouco digno de fé. No Brasil, a palavra está dicionarizada, também com este significado. E em dicionários franceses encontra-se essa acepção. Para mim, nada mais inadequado.
De acordo com  Francisco da Silveira Bueno (GDEPLP, 1974), é “o estudo das tendências religiosas, supersticiosas, artísticas, morais e espirituais de um povo, através de seus cantos, narrativas, danças, celebrações festivas e rituais, lendas e crendices”.
Quando surgiu a palavra folclore (do inglês folk-lore, narrativa popular)? William J. Thoms (1802-1885), no jornal britânico The Athenaeum, edição de agosto de 1846,foi  o criador do termo. Introduzido no Brasil, tentou-se a criação do termo populária  para traduzir a palavra, mas ao fim, terminou por prevalecer o aportuguesamento do termo inglês.
Em se tratando de folclore, no Brasil (sua identificação, descrição, análises e comentários), é impressionante, não apenas para curiosos, mas para qualquer estudioso, o estudo de Luís da Câmara Cascudo (1896-1986),  em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), com inúmeras edições. O que Câmara Cascudo conseguiu reunir, com percuciente agudeza de abordagem e descrição, do rico universo folclórico brasileiro, é digno da nossa admiração.
Tudo o que ele recompilou, colocou em fichários e outros arquivos, enquanto preparava a  sua obra gigantesca, deu-se num tempo em que não existiam as facilidades hoje oferecidas pela tecnologia da informática, valendo, aliás, lembrar que toda a sua obra (mais de 135 títulos!) foi inteiramente realizada com os seus arquivos manuais e da memória!
O Dicionário do Folclore Brasileiro compendia anotações preciosas em torno do tema e podemos afirmar que se trata de trabalho que exauriu todas as abordagens e apreciações sobre o assunto.
É praticamente impossível que se busque encontrar notícia sobre determinado tema folclórico, sem que não se encontre no D.F.B., rica e detalhadamente exposta.
A rica bibliografia de Câmara Cascudo inclui outras obras (todas têm suma importância) de extenso significado, como é o caso de O tempo e eu (1968), livro de memórias, e de Na ronda do tempo (1971), também autobiográfico. Serão poucas todas as homenagens que podemos render a esse potiguar de espectro universal.

Publicado no jornal  Povo, em  5 de setembro de 2017

Ah, as cidades!...

Não são poucas as vezes em que sou perguntado sobre qual a minha cidade preferida, não valendo para essa eleição a cidade natal. Pois digo: a minha cidade natal hoje, tal como é, não tem a minha predileção e, sim, aquela que guardo intocável, mítica, em meu relembro de criança. Não se trata de uma projeção mental: ela, na verdade, existe ou, pelo menos, existiu. A cidade de hoje não consegue ultrapassar a de outrora em meu afeto. E não existe outra cidade no mundo entre as mais importantes, mais ricas historicamente ou as mais belas, que vença o amor que nutro pela cidade em que nasci e permanece intacta, imune aos transtornos que atormentam a cidade-agora.

Tenho ouvido amigos fazerem desfilar , em cortejo de preferências, cidades como Paris, geralmente a mais eleita entre todas, quando a escolha se dá entre as mais charmosas ou mesmo as mais belas, sem falar que é a cidade que ouviu Alfred de Musset gemer de amores, em sua paixão romântica. É ela que possui os cafés (isso é verdade!) mais charmants que jamais conheci. Também o Rio de Janeiro costuma aparecer nessas listas. A cidade maravilhosa merece também a preferência de muitos. O caso do Rio é emblemático: hoje, a cidade está imersa em caos econômico, violência, colapso da saúde e da educação e outros males provenientes de repetidas más gestões e roubalheiras. Mesmo assim, de sã consciência, qual o brasileiro que, podendo, não pensa em passar alguns dias no Rio, desfrutando-lhe as praias, os passeios, botecos e museus?

Claro, existem muitas outras cidades dignas do epíteto de prediletas. Uma que exerce em mim um fascínio singular é Santiago de Compostela, na Galícia, coa sua chuvia pola rua, molhando as pedras seculares, de tanta história. Lá, tento comunicar-me em sua língua e escuto palavras e expressões que me remetem à infância jaguaribana, tais como estou canso, na loita, entonce... e outras tantas que herdamos da formosa língua galego-portuguesa. Mas, e Lisboa? Pois é, Lisboa, a tão amada, tem uma atmosfera nostálgica, a par de tantas modernidades. Lisboa é um fado marítimo cantado na Alfama...

Voltando à minha cidade: é pequena e pobre, porém é nela (na verdade, em sua lembrança) que encontro os maiores deleites da alma. É nela que escuto os cantos dos pássaros nas manhãs de areia, regatos, luas e sóis que nunca se apagam em meu relembro. Está nas manhãs de cataventos, boiadas de sonho e brisas alvissareiras que não deixam nunca de soprar em minha memória.

Publicado no O Povo em 22 de agosto de 2017
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ESPETÁCULO VERSUS CULTURA





A cultura tem sido objeto de estudos com vistas à sua moderna definição, há mais de três séculos, a partir dos pensadores franceses do Iluminismo e depois por eméritos sociólogos, filósofos e críticos da história em todo o mundo. Lembro aqui nomes que mereceram a atenção de especialistas e estudiosos em geral. Há setenta anos, o poeta T. S. Eliot publicou o ensaio Notas para uma definição de cultura (1948), obra em que indica, já àquela época, a preocupação com a decadência da cultura, prevendo um tempo dela desprovido. George Steiner, vinte anos depois, com seu estudo No castelo do Barba Azul, também nessa direção, reclama do fato de Eliot não ter feito menção ao Holocausto ocorrido na Segunda Guerra Mundial, para ele um fato marcante, um divisor de águas na concepção humanista de cultura. O mal-estar da cultura, de Freud, já parecia preconizar o descambo da cultura tido como valor sugerido pela sua própria etimologia: o culto e a prática do conhecimento elevado.

O movimentos dada e surrealista apresentaram-se como arautos desse fenômeno de transformação do conceito de cultura, dado pelas personalidades do pensamento europeu a que me referi. De lá para cá, mormente nos países menos assentados historicamente, esse processo se instalou de forma avassaladora, onde é hoje a cultura mais um objeto de diversão e espetacularização do que um repositório de valores que se possam cultuar (com estudos e práticas), com vistas à construção de patamares do conhecimento para o futuro.

Quem apreendeu uma noção muito precisa dessa desconstrução foi Mario Vargas Llosa, em sua obra A civilização do espetáculo (2012), em que demonstra que a pós-modernidade destruiu o mito de que as humanidades humanizam. Antes em 1992, o francês Guy Debord já denunciava: “O espetáculo é a ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna”. Na imprensa de um modo geral, assiste-se hoje à espetacularização dos eventos de toda ordem: de um assassinato em uma comunidade ao desfile de um bloco carnavalesco; da comemoração do aniversário de uma pseudoartista à transmissão de uma partida de futebol...

Estamos diante de um processo de substituição da cultura, em seus moldes tradicionais, por uma avalanche de coisas novidadeiras, que podem servir para acumular conhecimentos passageiros, mas não sedimenta a noção de compreensão em profundidade do vasto universos das pessoas, suas aptidões e possibilidades. Vivemos a era do espetáculo em detrimento da cultura.

Publicado no jornal O Povo, em 8 de agosto de 2017