POETAS SINGULARES


Faz algum tempo, o poeta Jorge Tufic e eu, em conversa sobre as coisas da literatura brasileira, falávamos acerca dos tais poetas singulares. O vate fenício indicou, de pronto, um nome acima de qualquer dúvida, sendo, segundo fez questão de enfatizar, absolutamente singular: Augusto dos Anjos (1884-1914). Naquela ocasião não ficaram definitivamente estabelecidos os critérios que determinariam poder um poeta  ser considerado singular. Concordamos, então, num ponto: se ao se pronunciar um texto qualquer de um poema, o ouvinte identificar de pronto a sua autoria, sem conhecimento prévio do texto, então, pimba!, trata-se de um poeta singular. Então, a singularidade residiria no uso do vocabulário, na abordagem do tema e na tensão do discurso? Talvez. O certo é que os versos seguintes: Tome, doutor, esta tesoura e corte / minha singularíssima pessoa ou Tu não és minha mãe, vela nefasta! (referindo-se à Natureza) parecem ser como um indez da obra de Augusto dos Anjos.
E Castro Alves (1847-1871)? Ponderamos: romântico, ultrapassa os limites dessa estética, sendo possuidor de uma verve rara, de uma eloquência ímpar e de uma convicção muito forte, sem aludirmos às imagens personalíssimas de alguns poemas seus: Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. Castro Alves, também poeta singular.

Raul Bopp (1898-1984) em sua obra Cobra Norato revela-se, ele também, singular: Vejamos isto: Quero levar minha noiva / quero estarzinho com ela / numa casa de morar / com porta azul pequininha / pintada a lápis de cor / quero sentir a quentura / do seu corpo de vaivém / querzinho de ficar junto / quando a gente quer bem-bem.

E quanto a Manoel de Barros, ah, este é intensamente singular. A abordagem que faz dos temas (sim, no plural) é única. Parece que o poeta desconfia das “sinceridades” com a que de costume fazem os que tratam da questão poética. Cabe citarmos esta passagem: 41. Palavras / Gosto de brincar com elas. / Tenho preguiça de ser sério. Mais esta: O menino sentenciou: / Se o Nada desaparecer a poesia acaba. / E se internou na própria casaca / ao jeito que o jabuti se interna. Esta última citação alude à “Dona Lógica da Razão” que, segundo este singular poeta, “bosteia” contra a poesia...

Poetas singulares... Mais alguns há na literatura brasileira, certamente, mormente se levarmos em conta os poetas populares do Nordeste. É tema que, comportando muitas relativizações, merece ser estudado.

LM
Publicado no O Povo em 21 de março de 2017

OS LONGES - Lançamento



OS LONGES
Coquetel de lançamento

15 de março de 2017, às 19 horas no Ideal Clube.
Sob os auspícios da Academia Cearense de Letras.

Na ocasião, o ator Ricardo Guilherme interpretará
3 poemas do livro.


Aguardo vocês para um brinde.

Luciano Maia

DOS CARNAVAIS SAUDOSOS II


Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos?... A memória dos meus primeiros carnavais chega-me com as melodias dos frevos-de-bloco de Nelson Ferreira, Luiz Bandeira, Capiba e outros carnavalescos do Recife de antanho. Era ainda em Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, onde a influência da cultura pernambucana era bem maior do que hoje. Ouso dizer que até que os acentos eram mais próximos: a casa de João, o cavalo de papai, as vacas dede Joaquim...

O frevo gozava, no início da segunda metade do século XX, de imenso prestígio em todo o País, particularmente no Nordeste. Um prestígio à altura do seu merecimento: músicas cujas harmonias penetram fundo, ritmos entranháveis, difíceis de ser banidos da nossa lembrança. Mesmo a atual geração (refiro-me aos jovens que têm hoje entre 21 e 30 anos) ouve o frevo de forma entusiástica.

Em 1972 fui morar no Recife e lá pude conhecer de perto a forte tradição do frevo (e as belas noitadas na praia do Janga, em Olinda, com a suas cirandas). O Recife apresentava aquela atmosfera singular em sua feição arquitetônica, com seus bairros arborizados, seus casarões vetustos, habitados por gente que, no período do carnaval, era tomada por uma irresistível magia foliã, da forma tanto mais natural quanto obrigatória, se fora isso possível. Os barzinhos do centro do Recife (e de Olinda) eram recintos quase sagrados para os brincantes de todas as idades. Eles nutriam uma reverência profunda por aqueles frevos-de-bloco! Lembro o “Frevo nº 2 do Recife”, de Antônio Maria, que alude aos maracatus retardados, chegando à cidade cansados, com seus estandartes pro ar...Poesia! Ilusão, desilusão, novamente ilusão! Mas, reparem: ilusão, aqui, ganha um significado mais elevado, não apenas um engano, mas quase o contrário: o encontro com o sonho que vale a pensa ser sonhado.

Gosto de todos os outros ritmos de carnaval: a marchinha... algumas delas insuperáveis! O samba, dentre eles, alguns de Noel e de Lamartine Babo, sei não! A marcha-rancho, com letras tão líricas, a que Vinícius de Moraes dedicou a sua pena! Mas é no frevo-canção que encontro ainda a alma ancestral do verdadeiro e imortal carnaval de rua. Não é raro encontrarmos no Recife Antigo, blocos ostentando estandartes com o ano de sua aparição por volta de uma centúria. Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum, dos carnavais saudosos.

LM
Publicado no O Povo em 7 de março de 2017


DOS CARNAVAIS SAUDOSOS


Falamos, nestes dias, em várias rodas, do Carnaval da Saudade. A festa do Náutico Atlético Cearense já chega ao seu cinquentenário. Vale dizer que as músicas de carnaval compostas na década de 1960 e nas três seguintes podem hoje perfeitamente ser incluídas no rol das... saudosas. Em 1967, não entravam na lista simplesmente pelo fato de terem sido concebidas naquele tempo, não se constituindo, portanto, saudade. Saudade como resultado de pelo menos duas décadas passadas.  Hoje é diferente: há pressa em dizer-se que algo é do passado.

Cinquenta anos! Desde 1966, eu morava vizinho à casa de Christiano Câmara, o primeiro organizador do entrudo. Lembro dos ensaios  com os músicos da terra, do desejo inarredável de Christiano de que os arranjos permanecessem fieis aos originais... Lembro do Dr. Helano Studart Montenegro, diretor do Náutico à época,  idealizador e também operador do evento.  Lembro do apreço aos compositores dos anos 1930 e 1940, especialmente Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, João de Barro, Ataulpho Alves e outros mais. E em se tratando de carnaval... Lembro que participei de algumas gravações de anúncio das músicas para a Festa das Nações daquele ano, também no Náutico. Com certeza, esses arquivos estão guardados no vastíssimo acervo daquele verdadeiro museu. Vem-me à memória uma marchinha por mim anunciada, cantada por Dalva de Oliveira, dentre as mais antigas da diva da música brasileira, durante décadas. Aquele evento revestia-se, de primeiro, de uma aura, digamos, nostálgica. Os mais interessados em ouvir as famosas marchinhas, sambas e marchas-rancho eram os de cabelos prateados... As músicas de carnaval eram mais músicas, ou melhor, tocavam mais ao ouvido da gente do que as de hoje?...  Curioso: em 1967 eu tinha 18 anos! E agora, 50 anos depois, são os mais jovens a inundarem os salões do Náutico. Àquela época, eu acompanhava o Christiano e a Douvina, sua mulher, ao Náutico, mas eu era franca minoria, entre os demais, em se tratando de faixa etária.

O que mudou? Além do enorme sucesso do evento, uma coisa parece certa: as músicas que se ouvem hoje no Carnaval da Saudade são menos... saudosas. Será por isso que os jovens sentem-se mais atraídos à festa do que os que têm hoje mais de 60 anos? Não será que figuram hoje no rol das músicas do Carnaval da Saudade músicas compostos, a bem dizer, ontem? São perguntas cujas respostas podem variar a cada um que as pretenda responder.

LM
Publicado no O Povo em 14 de fevereiro de 2017

SEM CIDADANIA

Comentar, analisar os fatos da vida, opinar quanto à validade desses fatos na existência das pessoas, mensurar os efeitos benéficos e danosos dos mesmos sobre a sociedade, adotando, sempre que possível e oportuno, uma atitude positiva frente a essas questões, colocar-se à disposição dos semelhantes para um possível ato de solidariedade – eis uma tarefa, ou melhor, tarefas dignas de alguém merecedor do título de cidadão.
Um cidadão, nos dias de hoje, anda a nos fazer falta: é grande a enxurrada de informações e desinformações a partir dos meios de comunicação; essa carga diária de “novidades” vem, no mais das vezes, deformada pela prenhez indevida de preceitos que, ditos adequados à vida em sociedade são, na realidade, falsos axiomas. É comum ouvirmos frases como: “o cidadão tem que reivindicar os seus direitos”. Rara é esta: “devemos todos cumprir com os nossos deveres”. É isto: direitos e deveres formam hoje praticamente uma dicotomia na cabeça da moçada quando, ao contrário, são, ou pelo menos deviam ser encarados como um binômio.
Lembro essa dicotomia, em face da injustificada revolta de filhos contra pais, contra quem os ama e os criou com sacrifício, para bajularem os marginais que mandam no submundo do crime (organizado ou não). Não aceitos como verdadeiros homens pela gangue a que querem servir, sentindo-se tratados como jovens tolos pelos que os desprezam e exploram, voltam-se contra os que sempre os aceitaram e deles cuidaram desde a nascença. Isso é muito mais do que ingratidão: é cretinice.
A liberdade que se diz hoje conferir aos jovens é uma verdadeira arapuca, que os deterá mais cedo ou mais tarde nas teias da quase impossibilidade da convivência salutar com os demais, num ambiente de verdadeira, possível harmonia.

Não passa pela cabeça desses “revolucionários” a mínima ideia do que seja a cidadania (diretos e deveres). Na universidade de hoje não aprendem isso. No ambiente universitário de hoje (salvo raras exceções que confirmam a regra) assiste-se a uma verdadeira dissolução dos valores fundamentais, básicos, de coexistência humana fundada no equilíbrio possível. E jogam fora o que em casa aprenderam (ou deviam ter aprendido) com os seus pais. O tempora, o mores!


LM
Publicado no O Povo em 31/01/17

UM PRÓCER DA LÍNGUA


Imagem extraída do blog da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo


Lendo Esboços e Arquétipos – língua – ciência – literatura, do prof. Vianey Mesquita (Fortaleza: Expressão, 2016), inteiramo-nos de que o descaso das instituições de ensino no Brasil não fez esmorecer o trabalho daqueles que se dedicam ao estudo dos fatos linguísticos, com uma percuciente abordagem dos aspectos científicos relevantes que o tema envolve. O estudo, o conhecimento e, por consequência, o amor à nossa língua é atributo que deve ser exaltado em nossos dias, tão escassos de estudos revestidos de competência e seriedade e, portanto, de alto valor.
O prof. Vianey Mesquita é já bastante conhecido e reconhecido em seu labor, por quantos se interessam pelas coisas da cultura e da arte. Mas ainda nos surpreende, numa escansão do soneto, desde a sua invenção/ criação/ descoberta, no século XII, até agora. Interessantíssimo é o soneto de sua autoria “Insânia lúcida”, escrito ainda em 1965 e aposto como objeto de estudo neste livro, peça, como ele mesmo nos informa, “produzida de maneira adrede (grifo nosso), isto é, em tarefa procedida intencionalmente para a então matéria  Língua Portuguesa (...)”. O título do soneto já nos dá a indicação de um oximóron, aliás o tema do poema, inserido na primeira parte do livro – língua.
Em seguida, oferece-nos explicações sobre o emprego do advérbio adrede, que pode tomar a forma adredemente e até de adrede, como nos aponta, inclusive com a citação de autores de prestígio que utilizaram essas variantes. O advérbio, segundo alguns dicionaristas, provém do latim ad rectus. Porém os mais destacados dentre os lexicologistas afirmam provir do germânico at reth, de onde at red (por conselho). Chegou ao português pelo espanhol adrede.
A segunda e terceira partes do livro Esboços e Arquétipos... dedica-se à ciência e à literatura, em que são objeto de apreciação vários autores cearenses. Por último, temos uma literatura passiva, isto é, sobre o autor.

Desejo ressaltar as páginas que Vianey Mesquita dedica a Espiroá, livro de Augusto Rocha: a sua leitura me induziu a buscar esse livro, que ainda não conheço, mas que, pelas referências de Vianey Mesquita, merece lido, mercê de “constituir artefato imponente da literatura nacional.”

LM
Publicado no O Povo em 17 de janeiro de 2017

A LÍNGUA SARDA


Entre todas as línguas românicas, ou seja, as línguas continuadoras do latim vulgar outrora falado no Império Romano, destaca-se uma como a mais conservadora quanto à morfologia e, em certa medida, quando ao léxico: sa limba sarda (a Sardenha é uma ilha e, como se sabe, as ilhas conservam mais as línguas). Inclusive o artigo definido su, masculino (do latim ipsum) e o feminino sa (do latim ipsa), difere dos das demais línguas românicas, que adotaram ille (pronome demonstrativo latino).
Em muitas publicações sobre a língua sarda, encontramos a frase abaixo, no intuito de demonstrar a similitude (no caso, a identidade) do sardo e do latim: Columba mea est in domo tua (claro, domo, aqui, não tem mais a função de ablativo, é uma forma fossilizada). Em todo o caso, é indubitável que alguém com noções, ainda que rudimentares, do latim vulgar, ao ler ou ouvir a língua sarda terá a impressão de estar diante de um latim modificado, evidente, mas com uma sonorização que o remete a in illo tempore, ou seja, a uma deliciosa e rara sensação de tempos antigos.
A língua sarda apresenta cinco vertentes: o logudorês, no centro-norte (incluindo o nuorês), considerado o sardo por excelência e que a maioria dos escritores utiliza como língua literária; o campidanês, na metade meridional da ilha, incluindo a capital, Cagliari; o sassarês e o gallurês, no norte.
Há atualmente na Sardenha um intenso movimento linguístico-cultural, onde se inserem instituições públicas e particulares, com o apoio de escritores e até de políticos, visando à uniformização do sardo. Tarefa difícil, mas não impossível: o cantão suíço dos Grisões tem hoje o rumantsch grishun, língua unificada dos seus cinco codialetos. E o sardo é muito mais homogêneo do que o romanche, além de ter uma população muitíssimo mais numerosa que os Grisões.
Para os estudiosos das línguas românicas, o sardo é uma relíquia, uma língua falada numa ilha banhada pelo mar Tirreno, com um povo alegre e hospitaleiro, ainda com características encontráveis, por exemplo, no nordestino do interior. Inclusive a vertente da vendetta (vindicta, em sardo, latim puro), a vingança praticada fora dos ditames da lei. Perfeitamente compreensível, numa região onde a ausência do Estado deu lugar às contendas pessoais e familiares desde tempos remotos (vide, mutadis mutandis, o cangaço). Há na Sardenha um provérbio bastante ilustrativo da cultura da vingança: justitia pronta, vindicta facta!

LM
Publicado no O Povo em 03 de janeiro de 2017

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O CANTO FLAMENCO


O sul da Espanha foi, por mais de setecentos e cinquenta anos, submetido ao domínio árabe, havendo dele recebido importantes influências, desde a invasão da península em 711 por Tárik Benzema ibn Ziyad al-Layti, ou simplesmente Tárik  (Gibraltar é uma adaptação do árabe Jaba al-Tárik, ou a montanha de Tárik) e o aliado Musa ibn Nusayr com seu exército berbere, até a expulsão definitiva do último reduto árabe da Espanha, Granada, em 1492.
A partir do século XV, por volta de 1447, chegaram à Andaluzia grandes levas de gitanos, vindos da Catalunha, que parece ter sido a sua porta de entrada na Espanha. Passaram anteriormente pelo Egito (vinham do noroeste da Índia), daí talvez a sua denominação, oriunda  de egiptanos (em inglês gypsies).
Quando desejamos falar da música andaluza, devemos ter em conta as variadas influências exercidas na região, desde tempos remotos, por romanos, bizantinos, vândalos (Al-Andalus!), muçulmanos, judeus, árabes (moçárabes), além, principalmente, dos ciganos, que a ela deram um colorido especial. O flamenco, palavra de origem algo obscura, parece vir do árabe felamengu (homem errante) e de flahencon (cancioneiro). Assim, flamenco seria a denominação dada por moçárabes (andaluzes mestiços arábigo-espanhóis) aos gitanos, notórios andarilhos e músicos extraordinários.
Não devemos reduzir o conceito de flamenco a um guitarrista, um cantaor, um tablado e uma dançarina! O flamenco comporta, além do cante hondo, romances corríos, martinetes, soleares, tientos, peteneras, bulerías, fandangos, seguiriyas... uma miríade de estilos e ritmos. E há, sobretudo, a poesía flamenca, uma estética especial: Se adespierta un rey celoso,/ coje la pluma y escribe, / y en el primer renglón pone; / quien tiene celoz no vive! Ou: Dezpué de haberme llevao / toa la noche de harana, / me vengo a purificá / debajo de tu ventana, / como se fuera um artá.
O poeta andaluz Federico García Lorca, ele próprio se autodefinindo gitano, escreveu, em tom encantatório: Cuando la cabeza inclina / sobre su pecho de jaspe, / la noche busca llanuras / porque quiere arrodillarse. A música andaluza cantada reflete uma herança ancestral vincada sobre a voz gitana. Ela tiene duende, como disse o poeta.
Há evidente semelhança, não somente temática, mas de intensidade dramática, entre o flamenco e o tango argentino. Matéria para um estudo. E já os há, a respeito.

LM
Publicado no O Povo em 20/12/2016

A NOIVA DO OCEANO


Li, já faz algum tempo, no livro Breves memórias de Alexandros Apollonios, de José Paulo Moreira da Fonseca, (Edições O Cruzeiro, 1960), um poema que falava da “líquida Amsterdam”. De fato, a água está para Amsterdam, assim como o monólitos estão para Quixadá: ambas as cidades estão rodeadas, uma, de água, outra, de pedras. Mas, com a vênia do poeta, convenhamos: líquida, mesmo, é Veneza. Os canais de Amsterdam, que podemos navegar em barcos de pequeno porte, não se comparam aos de Veneza, por onde passeiam as gôndolas (con canzone o senza canzone), hoje ainda pilotadas a vara, como há centenas de anos atrás, e muito menos com aquela imensa avenida líquida que tem o nome de Canal Grande. Trata-se mesmo de uma avenida, ladeada por belíssimos edifícios pertencentes a nobres de um passado remoto, por onde transitam hoje táxis aquáticos, levando e trazendo gente, a passeio ou de volta aos cais dos vaporetti (ainda assim se chamam os barcos a motor, em Veneza)  para o abastecimento de hotéis, restaurantes e moradias, ou para o aeroporto ou as estações de trem ou rodoviária.

Em Veneza, uma noite, depois de um vinho e de perambular por seus becos estreitos e trespassados de lendárias pontes, talvez encantado pelo abraço de águas, deu-se que sonhei com um açude, velho meu conhecido. Só que estava irreconhecível: a sua imensidão era tanta, que o horizonte era o encontro de céu e água... Acordei feliz, mesmo sabendo que há cinco anos falta água ao velho açude, em meu sonho, a rivalizar e superar as águas venezianas... Lembrei-me imediatamente de Drummond: talvez porque me faltasse água corrente...

Paredes medievais de construções severas, o ocre a nos mostrar a mão do tempo. Em Veneza, o tempo é, simultaneamente, aliado e mau zelador. Sim, porque se está a nos dizer do valor daquelas vetustas construções (a vida faustosa de Veneza...), está também trabalhando, ainda que a contragosto, para a desconstrução, lenta e irreversível, daquela arquitetura-testemunho, desde os tempos das festas pelos portais de mármore, ao som de vivas e celebrações da Serenissima Reppublica. Hoje, a lua penetra pelas frestas daquelas paredes, embranquecendo as fachadas de velhos palácios silenciosos. Veneza é todo um passado incrustado naquelas paredes ocres e lodosas ao luar, enquanto São Marcos bate a meia-noite, na nostalgia de um tempo líquido e faustoso da noiva do Oceano.

LM
Publicado no O Povo no dia 6 de dezembro de 2016.

LA CAMPANA DI SAN GIUSTO


Quando eu era menino em Limoeiro do Norte, ouvia a minha mãe cantar uma canção, para mim, insólita: era La Campana di San Giusto. Gravei o refrão: Le ragazze di Trieste cantan tutte con ardore, o Italia, o Italia del mio cuore, tu ci vieni a liberar! É claro que eu não intuía no sentido, digamos político, daquelas palavras, embora compreendesse o seu significado literal.

Soube depois que La Campana di San Giusto era canção patriótica composta por Giovanni Drovetti e Colombino Arona em 1915, em plena primeira guerra mundial. Àquela época, a canção era proibida: Trieste estava sob o domínio austro-húngaro. Sempre nutri o desejo de conhecer Trieste. Tinha por San Giusto reverência profunda, mesmo sem conhecer-lhe a história. Conhecer Trieste, coisa tão fácil, dirá alguém. Nem tanto. Trieste está no limite leste da Itália setentrional, incrustada entre uma montanha cuja vertente oriental pertence à Eslovênia (uma das repúblicas da ex-Iugoslávia), e o mar Adriático, algo meio fora do percurso, digamos. O certo é que só agora tive a alegria de conhecê-la.

Quis o acaso que eu me encontrasse em Trieste justamente no dia de San Giusto! Padroeiro da cidade, o santo é venerado com fervor pelos triestinos. Ouvi na Igreja cânticos em latim. Muitos padres na celebração. Pedi a um deles, que estava saindo ao final da missa, para tirar uma foto comigo. Muito gentil, me atendeu.

Voltando: finda a guerra, no final de 1918, com a derrota do Império Austro-Húngaro, deu-se a libertação de Trieste. Uma multidão subiu até a colina da Catedral de San Giusto, a cantar: Tu ci vieni a liberar!... La Campana di San Giusto foi gravada por Enrico Caruso em janeiro de 1919.

Quem foi San Giusto? Um romano, nascido cristão, na segunda metade do século III d.C., cuja vida dedicou à caridade e às orações. Foi denunciado como sacrílego e levado a Magnacio, então Governador de Tergeste (nome romano da cidade), a quem não cedeu para voltar a adorar os deuses romanos. Deocleciano era o imperador, famoso por suas perseguições aos cristãos. San Giusto, desde a prisão, até o momento do sacrifício, adotou uma atitude serena, inabalável. Foi levado numa barca e jogado ao mar, atado a cordas e com uma pedra ao tornozelo. Isso se deu no dia 2 de novembro de 303. Os triestinos comemoram o dia de San Giusto a 3 de novembro, dia em que foi encontrado morto, livre das amarras.  Nesse dia (1.713 anos depois) eu estava lá!...

LM
Publicado no O Povo em 22 de novembro de 2016

LINGUÍSTICA E MODISMO




Vivemos atualmente, no campo linguístico, em vários países, um certo modismo (digo modismo,  porque cíclico: já ocorreu em eras passadas) de, partindo de pressupostos ditos científicos, negarem-se postulados linguísticos. No livro No venimos del Latín, de Carme Jiménez Huertas, especialista em Linguística Catalã, tenta a autora provar que as chamadas línguas românicas não vêm de latim, ou seja, não são neolatinas. Para ela, as línguas românicas apresentam, sob vários aspectos, inclusive o fonético, mais semelhanças com o inglês e o alemão! Diz isto com todas as letras.

Vejam-se alguns argumentos de natureza etimológico-semântica que a autora “pescou” do livro Le Français ne vient pas du Latin!, de Yves Cortez, no campo dos feitos da guerra: segundo ela, as palavras guerra, tratado, luta e desastre são panromânicas (n. n.: exceção ao romeno razboi, para guerra), isto é, segundo ela, existem em todas línguas românicas e não vêm do latim. Diz ela: no latim, estas palavras são, respectivamente: bellum, foedus, pugna e clades. Mas, o que dizer de belicoso, federal, punir? Quanto a clades, é helenismo. A autora se esquece de mencionar que aquelas palavras ditas panromânicas têm origem em outras fontes... latinas! Veja-se: werra, depois guerra, latim medieval, vindo do francônio, que substituiu bellum, lat. arc. duellum; lat. tractatus, de tractu, deverbal de trahere; lat. lucta; lat. disastrum, acontecimento funesto, sem o favor dos astros. A autora menciona que o ibérico, por exemplo, era falado antes da chegada dos romanos à península. Descobriu a roda! Claro, os ibéricos não eram mudos! Falavam uma ou mesmo várias línguas. Mas o que restou de sua ou de suas línguas (alguns topônimos, antropônimos hidrônimos e pouquíssimos outros exemplos) foi incorporado ao romance (língua intermediária entre o latim e as românicas) ibérico (protoportuguês, protoespanhol, protocatalão e ouros falares peninsulares).

O livro de Carme Jiménez Huertas já tem várias edições na Espanha e foi traduzido a outras línguas. Não sei qual a motivação de cientistas (?) que, reunindo conhecimentos de Linguística, mistura-os sem critério para fazer uma salada pouco palatável. Falta-lhes robustez nas contestações, que mais parecem destinadas a vender do que a pesquisar com seriedade. São destinadas mais às coisas novidadeiras que às novidades científicas.

LM
Publicado no O Povo, em 8 de novembro de 2106

SEGUIR OU CONTINUAR?



A nossa língua, como qualquer outro idioma, é um organismo vivo, naturalmente sujeito às transformações de caráter endógeno e exógeno, como tudo, aliás, no Universo. Por outro lado, existem as desnecessárias intervenções novidadeiras e o desrespeito, fruto da ignorância, à nossa língua. Ignorância que vem, quase sempre, travestida de erudição.

Assistimos hoje no Brasil a uma verdadeira onda de ligeirices no uso da nossa língua, com agressivos ataques ao nosso vernáculo. “Com os últimos resultados, a equipe segue líder”. Não é necessário ser estudioso da nossa língua para perceber nesta frase uma desnecessária afetação. Ou nesta: A vítima segue hospitalizada”. Nos dois casos, o verbo a ser empregado, de forma natural, sem frescura, é o verbo continuar.

Nos últimos anos, a imprensa no Brasil parece disposta a sepultar o verbo continuar, de uso tão frequente e útil no nosso vernáculo, em todas as circunstâncias. Na nossa língua, o verbo seguir está mais afeito à ideia de movimento (real ou abstrato): seguir andando, seguir uma ideia, seguir um caminho e assim por diante. Em resumo, o verbo seguir não se presta, de forma adequada, a substituir o verbo continuar, que não exige necessariamente movimento: continuar dormindo, continuar ouvindo o discurso etc.

Outra afetação hoje muito ouvida nos telejornais são as saudações “ótima-tarde”, “ótima-noite”, e assim por diante, quando o normal, o natural, seria o nosso “boa-tarde”, o nosso “boa-noite”. Não vemos ninguém na rua, ou em qualquer lugar, dizer “ele segue aposentado” ou “ótima-noite, José”. A naturalidade faz falta...

Também na crônica esportiva ouvimos tolices como esta: “Ele é um visionário”, pretendendo dizer que alguém previu uma situação ocorrida depois, como o resultado de uma partida, Vidente, alguém com visão premonitória, seriam as palavras para isso. Visionário é outra coisa. Um visionário é alguém que sonha em realizar mudanças revolucionárias, acredita num futuro grandioso, geralmente utópico.

E os políticos? Estão a proferir besteiras, eles também: “O deputado pensa de forma errática”. Errático é vagamundo, nômade, errante. Não errôneo, como pretende a frase acima. Parece que a onda, impingida pela ignorância, não vai pegar.  Não nos obrigamos a seguir essas bobagens. Continuaremos a falar a nossa língua de forma natural. Na verdade, não consigo atinar sobre o que desejam os novidadeiros da fala.

LM
Publicado no O Povo em 25/10/2016