O MONUMENTO DE ADAMCLISI


Na antiga província romana da Moesia Inferior, foi erguido, em 109 d.C., o Trophaeum Traiani, em honra às batalhas vitoriosas contra os dácios nas guerras de conquista do imperador Trajano,  em 102 d.C. A última etapa das guerras só se concluiria em 106 d.C. Fica a 60 km de Constança, na Romênia, direção sudoeste.

Trata-se de uma enorme construção cilíndrica com 40 m de altura e igual diâmetro (da base ao topo da estátua bifacial que encima o monumento), com 54 esculturas em baixo-relevo, representando as cenas das batalhas, o famoso Monumento de Adamclisi. Adam Klissi é turco e significa Casa de Adão, interpretado como a Igreja do Homem. Ao chegarem à região, no século XV, os turcos imaginaram ser uma igreja o colossal monumento triunfal romano, que era, na verdade, um marco glorioso, após sofridas as perdas de várias legiões em luta, como a XVI Rapax, na Panônia, e a Legião V Alaudae. 3.800 soldados romanos têm o seu nome num altar funerário a 1.500 m do Trophaeum Traiani.

Sobre uma das faces do núcleo cilíndrico, a inscrição latina: AO DEUS MARTE VINGADOR [dedica] O IMPERADOR CESAR, FILHO DIVINO DE NERVA, NERVA TRAJANO, AUGUSTO, VENCEDOR DOS GERMANOS E DOS DÁCIOS, PONTÍFICE MÁXIMO, TRIBUNO PELA DÉCIMA SEGUNDA VEZ, IMPERADOR PELA SEXTA VEZ, CÔNSUL PELA QUINTA VEZ, O PAI DA PÁTRIA (...)

Da construção original só restaram ruínas. Há, a 200 m do local, o Museu Adamclisi, com valiosas peças do monumento antigo. Também no Museu da Civilização Romana, em Roma, há uma maquete do monumento original. Quando os turcos otomanos tomaram a região, foi enviada ao sultão em Istambul uma pedra ornamental com baixo relevo do monumento, ainda hoje exposta no Palácio Topkapi.

A primeira reconstrução gráfica do monumento foi empreendida pelo arqueólogo romeno Grigore Tocilescu (1850-1909), assessorado pelo austríaco Georg  Niemann (1841-1912), em 1882. Em 1973, o historiador Radu Florescu (1925-2014) realizou estudos in loco.

Em 28 de maio de 1977 inaugurou-se a construção da réplica do Trophaeum Traiani, no mesmo sítio onde outrora foi aquele monumento. A construção da réplica obedeceu aos estudos arqueológicos precedentes e procurou ser cópia fiel da anterior.

O Trophaeum Traiani é o mais importante monumento votivo construído pelos romanos fora da Itália e, como a Coluna de Trajano em Roma, é marco histórico fundamental do povo romeno.


LM
Publicado no O Povo em 16/08/2016 

Revista Grial - Lançamento de Aldeia Lonxana em Betanzos

 Revista Grial

Esta resenha saiu na revista Grial, da Galícia, assinada por Miro Villar. 
Aqui publicada no blog As Crebas.

O lançamento do meu livro Aldea Lonxana em Betanzos, na Galícia, contou com a participação de vários escritores e críticos literários.

A COLUNA DE TRAJANO




No Forum Traiani, em Roma, encontra-se até hoje um monumento de mármore, com 40 metros de altura e pouco mais de 3 metros de diâmetro, o que lhe confere um perfil esbelto. É a Coluna de Trajano, obra do arquiteto Apolodoro de Damasco, por ordem do imperador Marcus Ulpius Trajanus, após a conquista da Dácia (mutatis mutandis, a atual Romênia), no início do século II d.C. O monumento tem um pedestal de 5,50 metros de altura, com uma  inscrição sobre a porta de entrada, alusiva à sua construção e finalidade. A obra foi inaugurada em 113 d.C. No topo da coluna, onde havia uma estátua gigantesca de Trajano, em bronze e banhada a ouro, de 6 metros de altura, encontra-se hoje uma de São Pedro, como sinal de que a coluna foi adotada pela Igreja.

A coluna está circundada por esculturas em baixo-relevo, com cenas das guerras dácicas, em espiral de baixo para cima, equivalentes a uma completa obra literária.

O primeiro a procurar decifrar as cenas das guerras dácicas esculpidas ao redor da coluna foi o monge espanhol Alfonso Francisco Chacón (1530-1699), no século XVI. Um século depois, o ministro papal Raffaello Fabretti (1618-1700) escreveu uma esplêndida monografia sobre a coluna, acompanhada de um álbum de gravuras de Pietro Santi Bartoli (1635-1700). Após outros trabalhos, vieram os estudos romenos. Afinal, a coluna é tida como um certificado de nascimento do povo romeno. O melhor trabalho escrito sobre a coluna é, certamente, o do historiador  Radu Vulpe, em seu livro Columna lui Traian, editado em Bucareste, em 1988.

Os dácios representados na coluna são os antepassados dos romenos. Os trajes dos dácios nas esculturas assemelham-se, até hoje, aos dos aldeãos romenos, o que comprova a fidelidade do escultor. Em 1896, Badea Cârtan (1849-1911), pastor romeno que lutou pela independência do seu país, foi a pé ver a coluna de perto. Dormiu ao pé do monumento. No outro dia, a imprensa italiana anunciou: um dácio desceu da coluna!

De todo o Forum Traiani somente esse monumento resistiu intacto ao tempo, às intempéries e à deliberada destruição: apenas levaram a urna de ouro com as cinzas do imperador e substituíram a sua estátua pela de São Pedro.

A Coluna de Trajano, no centro de Roma, sobressai com o seu esbelto perfil de mármore, testemunho histórico do encontro de duas civilizações para a formação de um povo.

LM
Publicado no O Povo em 2 de agosto de 2016.

EL DÍA QUE ME QUIERAS


Alfredo Le Pera bateu à porta do quarto de hotel em Nova York, onde estava Carlos Gardel: -- Carlitos, quiero mostrarte lá más hermosa lertra que escribí para una canción nuestra! Levava Le Pera nada mais, nada menos que os versos de “El día que me quieras”. Naquele ano de 1934 Gardel gravou com selo da RCA Victor, com música sua, aquela que viria a ser a mais conhecida parceria destes dois grandes capos do tango-canção.

Le Pera tinha consciência de que o poema homônimo do mexicano Amado Nervo, pseudônimo de Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo (1870-1919) fora-lhe a fonte inspiradora. Na verdade, há quem fale até de plágio. Talvez seja mais apropriado falar-se de uma paráfrase. O poema de Amado Nervo é composto quase integralmente com alexandrinos em rima binária. Começa assim: El día que me quieras tendrá más luz que junio; / la noche que me quieras será de plenilunio (...) Em Le Pera, pode-se igualmente dispor a maioria dos versos do mesmo modo, só que, aqui, com rimas alternadas: El día que me quieras la rosa que engalana / se vestirá de fiesta con su mejor color (...) O tema é mesmíssimo: a exaltação do amor que se revela, a amada que não tardará em chegar.  Amado Nervo: Êxtasis de tus ojos, todas las primaveras / que hubo y habrá en el mundo serán cuando me quieras... Le Pera: Y al viento las campanas dirán que ya eres mía / y locas, las fontanas se contarán su amor...

Há relatos de que Le Pera teria ficado muito apreensivo após a realização da feliz parceria com Gardel. Teria mesmo telefonado à família do poeta, de quem recebeu autorização para que fosse gravada a sua versão. Seja como for, creio que ganhamos todos com essa melodia encantadora, cantada por inúmeros intérpretes mundo afora, bandoneonizada... pianizada... violonizada... acordeonizada... flauteada... à exaustão. Permanecerá, tudo indica, para sempre como peça emblemática do tango-canção. Os versos de “El día que me quieras”, tanto os do mexicano quanto os do argentino nascido em São Paulo em 1900, com a primorosa música do francês (Toulouse, 1890) mais argentino do mundo serão sempre benvindos e ouvidos por quantos amem a música.


Alfredo Le Pera e Carlos Gardel morreram juntos naquele fatídico  24 de junho de 1935, em Medellín, na Colômbia, apenas uma conexão sem maior importância, quando tornavam à Buenos Aires querida, que jamais os esquecerá.

LM
Publicado no O Povo em 19 de julho de 2016

TRISTE EM SEU PAÍS


Max Ernst 


Quando Samuel (dito Sami) Rosenstock, judeu romeno nascido em 1896 na pequena cidade de Moinesti, na Moldávia, chegou a Zurique, já ia certamente com ideias originais em termos de estética literária. Lá, encontrou Hugo Ball e Richard Huelsenbeck que, com o escultor alsaciano Hans Arp e outros, formaram com ele o núcleo primeiro do Dadaísmo (dadá) em 1916. A instalação, em fevereiro de 1916, do Cabaret Voltaire “oficializa” o movimento.

O Manifesto Dadaísta foi redigido dois anos depois, em 23 de março de 1918, por Tristan Tzara, pseudônimo adotado por Rosenstock. Era o período em que se desenrolava ainda a primeira guerra mundial e a Romênia era particularmente afetada pelo conflito: na verdade, os principados romenos da Valáquia e da Moldávia (a Transilvânia estava ainda sob a dominação do império austro-húngaro). As minorias eram tratadas de forma injusta e opressiva. Rosenstock sentiu de perto as vicissitudes daquele então. O codinome escolhido para a participação na nova estética é eloquente: Tristan Tzara é um metaplasmo de trist în tzara (triste em sua terra, em seu país). Denunciava a situação vivida pelos judeus na Romênia. O fim da primeira guerra mundial determinou a independência total da Romênia e o colapso dos impérios austro-húngaro e turco.

O movimento dadaísta surgiu em contraposição à estética – ou às estéticas – dominantes; eivado de non sense, caracterizava-se por uma atitude anarquista,  impulsiva. Nas artes plásticas, um tipo de pintura em que as imagens retratadas estão fora da realidade. Nisso, aproxima-se do Surrealismo, que o adotou (André Breton, 1924).

Movimento dadá: na redação do Manifesto, escrito em francês, exclama Tzara: Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto estas coisas e sou por princípio contra manifestos (...) e nada explico porque detesto o bom-senso. Mas o que é, enfim, dadá? Cavalo de brinquedo? Linguagem infantil? Dupla afirmação (da) em romeno? Ou nada disso? Uma estética a mais, que angariou seguidores até a primeira metade do século XX. Houve influência dadaísta em vários poetas latino-americanos, como é certamente o caso de Vicente Huidobro (Chile), Cesar Vallejo (Peru), Ismael Nery (Brasil), sem contarmos com mais alguns.  Cite-se da obra de Tristan Tzara O homem aproximativo (1931). Defendeu o ser humano da subserviência e da docilidade medíocre em A fuga (1947). Faleceu em Paris em 1963.


LM
Publicado em O Povo em 5 de julho de 2016