LivroErrante: Argenti Sitis,Luciano Maia

LivroErrante: Argenti Sitis,Luciano Maia: Sequiosas agitam-se as pessoas em quefazeres de sua via insana. Não têm sossego, já ninguém se irmana em lograr para outrem coisas boas....


A PARTILHA

Deus chamou os brasileiros
para dar a cada um
um que a cada um convém.
Achou de dar ao baiano
uma fala preguiçosa
e um quê que a baiana tem...

Presenteou ao mineiro
as paragens alterosas
e o zelo pelos seus trens.
Ao gaúcho ofereceu
o verde pampa, a coxilha
onde o trigo se contém.

Ao paulista conferiu
a vocação da riqueza
e da soberba também.
Depois ao pernambucano
deu uma Mauritzstad
que na história se mantém.

Ao carioca entregou
uma formosa cidade
o humor loquaz e o desdém.
Depois de prendar a todos
nosso Deus se apiedou
do pobre de um zé ninguém
que chegou por derradeiro
com o andar estropiado
como quem de longe vem.
Trazia um sorriso ingênuo
e um olhar perguntador.
Ficou calado, porém.

E Deus disse ao cearense:
“Ah, compadre, se soubessem
o quanto Deus te quer bem!
Generosa é a tua alma
mas já nada tenho a dar-te...
Há de te ajudar alguém...

Se não fosse a companhia
desse sol que te assedia
serias sozinho... e sem!
Varando léguas de espinhos
habitarás os caminhos
de uma pátria que não tens.

Tal como as aves andejas
buscas, onde quer que estejas
um repouso mais além...
Mas para sempre terás
o chão que ficou pra trás
dentro do teu peito... Amém!”.







A COLUNA DE TRAJANO


No Forum Traiani, em Roma, encontra-se até hoje um monumento de mármore, com 40 metros de altura e pouco mais de 3 metros de diâmetro, o que lhe confere um perfil esbelto. É a Coluna de Trajano, obra do arquiteto Apolodoro de Damasco, por ordem do imperador Marcus Ulpius Trajanus, após a conquista da Dácia (mutatis mutandis, a atual Romênia), no início do século II d.C. O monumento tem um pedestal de 5,50 metros de altura, com uma  inscrição sobre a porta de entrada, alusiva à sua construção e finalidade. A obra foi inaugurada em 113 d.C. No topo da coluna, onde havia uma estátua gigantesca de Trajano, em bronze e banhada a ouro, de 6 metros de altura, encontra-se hoje uma de São Pedro, como sinal de que a coluna foi adotada pela Igreja.
A coluna está circundada por esculturas em baixo-relevo, com cenas das guerras dácicas, em espiral de baixo para cima, equivalentes a uma completa obra literária.
O primeiro a procurar decifrar as cenas das guerras dácicas esculpidas ao redor da coluna foi o monge espanhol Alfonso Francisco Chacón (1530-1699), no século XVI. Um século depois, o ministro papal Raffaello Fabretti (1618-1700) escreveu uma esplêndida monografia sobre a coluna, acompanhada de um álbum de gravuras de Pietro Santi Bartoli (1635-1700). Após outros trabalhos, vieram os estudos romenos. Afinal, a coluna é tida como um certificado de nascimento do povo romeno. O melhor trabalho escrito sobre a coluna é, certamente, o do historiador  Radu Vulpe, em seu livro Columna lui Traian, editado em Bucareste, em 1988.
Os dácios representados na coluna são os antepassados dos romenos. Os trajes dos dácios nas esculturas assemelham-se, até hoje, aos dos aldeãos romenos, o que comprova a fidelidade do escultor. Em 1896, Badea Cârtan (1849-1911), pastor romeno que lutou pela independência do seu país, foi a pé ver a coluna de perto. Dormiu ao pé do monumento. No outro dia, a imprensa italiana anunciou: um dácio desceu da coluna!
De todo o Forum Traiani somente esse monumento resistiu intacto ao tempo, às intempéries e à deliberada destruição: apenas levaram a urna de ouro com as cinzas do imperador e substituíram a sua estátua pela de São Pedro.
A Coluna de Trajano, no centro de Roma, sobressai com o seu esbelto perfil de mármore, testemunho histórico do encontro de duas civilizações para a formação de um povo.





























Tarcísio Garcia - acrílico sobre tela.





SONETO DE SEPARAÇÃO
NO ESTORIL

Foi quando a sua ausência me alcançou.
Um vento errante, qual boêmio louco
cantou canções doídas, maltratou
o silêncio da rua... ouvi um rouco
marítimo lamento, que ensejou
o meu poema, neste muito ou pouco
desejo de falar-lhe, ouvi-la, ou
de dissipar no copo esse sufoco.
À sua falta, a noite agigantou-se
e a dor presente pede que eu consagre
a tamanha amargura, um verso doce
e sorva o vinho deste não-milagre.
Calado e só, o pensamento a mil
bebi a noite imensa no Estoril.
    
                                                     Estoril, 9 de setembro de 1983



DESEJO DE CORES

O artista que sonhou realizar
o quadro que vejo nesta parede
não assinará por certo
nenhuma obra
mas o seu desejo faz existir
um azul esverdeado
em frente da minha divagação
e para além de tudo
há o quadro na parede:
estranho, luminoso e com
uma instigante pergunta
ao fundo da perspectiva.









SEM SEPULTURA



Na esquina de um subúrbio, o passo enfim detido
ante a pressa prendida à crua indiferença
um brasileiro adulto, há muito desnutrido
achega-se ao batente e dorme, sem que o vença
o barulho da rua, esse eterno ruído
da louca correria, do medo e da descrença.
Seu sono não o descansa, é um sono sofrido
intranquilo demais, que não o recompensa
de ter chegado ali, enfim, de ter vivido.
A vida foi-lhe sempre um repetido insulto
e a morte, a Desejada, o sonho mais querido.
Não praticou um crime e assim merece o indulto
de ser mais um em meio a um povo desvalido…
Esse homem é nosso irmão, o que dorme insepulto.