DESEJO DE CORES

O artista que sonhou realizar
o quadro que vejo nesta parede
não assinará por certo
nenhuma obra
mas o seu desejo faz existir
um azul esverdeado
em frente da minha divagação
e para além de tudo
há o quadro na parede:
estranho, luminoso e com
uma instigante pergunta
ao fundo da perspectiva.









SEM SEPULTURA



Na esquina de um subúrbio, o passo enfim detido
ante a pressa prendida à crua indiferença
um brasileiro adulto, há muito desnutrido
achega-se ao batente e dorme, sem que o vença
o barulho da rua, esse eterno ruído
da louca correria, do medo e da descrença.
Seu sono não o descansa, é um sono sofrido
intranquilo demais, que não o recompensa
de ter chegado ali, enfim, de ter vivido.
A vida foi-lhe sempre um repetido insulto
e a morte, a Desejada, o sonho mais querido.
Não praticou um crime e assim merece o indulto
de ser mais um em meio a um povo desvalido…
Esse homem é nosso irmão, o que dorme insepulto.




DURANTE A RESISTÊNCIA



Dante Alighieri (1265-1321), o cânone dos cânones do Ocidente, considerada a cultura a partir do período em que a literatura e as artes em geral começam a ganhar estatuto de exercício individual, espontâneo e livre da égide da Igreja, aquela época que justamente estes que inauguram a nova era chamaram de Idade Média, autodefinindo-se Renascentistas (Dante foi um renascentista avant la lettre), quer dizer, a partir do Humanismo que desembocou na Renascença é, sem dúvida, o nome que mais influenciou toda a criação literária ocidental posterior, aí incluindo-se Shakespeare, Camões, Tasso, Cervantes, também os românticos (vide Goethe) e outros notáveis, num amplo cenário.

Os seus pais (Alighiero di Bellincione e Gabriela – Bella –  degli Abbati) batizaram-no Durante (segundo Jacopo Alighieri, seu filho, um hipocorístico), mas nome do seu avô materno, Durante di Scolaio degli Abbati. Robert Bonell (1940-2016), em seu instigante livro Dante, o grande iniciado – uma mensagem para os tempos futuros, apelando ao Hermetismo Cristão (vide Charles-Rafael Payeur, nascido num distrito mineiro de Québec em 1962), e à numerologia, demonstra que Dante é igual a dois, portanto, ao retorno, ao número da dualidade, representando o Amor. Durante é aquele que aguenta. Em verdade, quão pesado foi o fardo de Dante, desde a primeira infância! Separações dolorosas, mudanças de domicílio compulsórias, da cidade natal até o exílio. Perda da amada Beatrice (morta prematuramente) e obrigado, aos 12 anos, a casar-se com Gemma Donati, por imposição da família...  Em 1289, viu-se obrigado a combater ao lado dos cavaleiros florentinos contra os aretinos, na batalha de Campaldino.  A Florença do Duecento dividia-se entre duas facções políticas inimigas figadais: os guelfos (da casa de Welf) e os gibelinos (do castelo Waiblingen). Os primeiros, ajudados pelo papa Bonifácio VIII e os segundos com o apoio da Casa Suábia de Hohenstaufen, depois perdido. Tendo sido os gibelinos derrotados, Dante foi detido em Roma pelo papa. E depois viu-se Dante obrigado a fugir de Florença (na verdade, foi decretado o seu exílio) para evitar a sua execução. Perambulou por muitas cidades. Exilou-se em Verona por um período em que foi hóspede, com honras, de Cangrande della Scala (1291-1329), quando teve oportunidade de escrever parte de sua obra.

Os escritos de Dante Alighieri penetraram as mentes ocidentais (e, até um certo ponto, as orientais), perdurando, em pleno século XXI, como uma referência maior e fonte de inspiração inesgotável  a quantos procurem beber desse manancial. Desde De Vulgari Eloquentia, Le Rime, Convivium, Vita Nova e outros trabalhos, tem demonstrado Dante a quanto pode elevar-se a mente na busca da luz. Seja tratando temas técnicos e científicos, seja alcançando as alturas da Divina Commedia, onde nos dá lições de filosofia, teologia, história e, acima de tudo de Humanismo. Um Humanismo imortal em sua fé.































A RUA HOJE
(soneto estrambótico)







O silêncio da rua em que caminho
não é de agora, nem sequer a rua
é aquela, em que devagarinho
levantava-se ao céu soberba lua.
Esta rua de agora não tem ninho
de canário… e já não atenua
os ruídos do mundo em borborinho
e antes que o meu passeio se conclua
retorno, como todos, o sozinho.
Quem passa não enxerga por quem passa
só os carros lhe fazem companhia
e a presença constante da fumaça.
Nesta rua de agora, seja dia
ou noite, a pressa sempre me ultrapassa
em meio a insidiosa algaravia.
ARGENTI SITIS

Sequiosas agitam-se as pessoas
em quefazeres de sua vida insana.
Não têm sossego, já ninguém se irmana
em lograr para outrem coisas boas.
Repetem ladainhas, cantam loas
à lei do argento, a que a vida dana.
A corrida à riqueza o ar profana
e aos ímpios lhes põe falsas coroas.
Reinados de ilusão... quedas fatais
ao longo de árduas e dementes lidas
do querer ter a mais e sempre a mais.
Depois, as existências exauridas
no perdulário tempo, tão falaz
sem memória deixar de suas vidas.