Poemas de Lucian Blaga
Tradução de Luciano Maia


A CANÇÃO DA ORIGEM

Ao princípio, à mesma fonte,
água nenhuma retorna,
senão em forma de nuvem.
Ao princípio, à mesma fonte,
nenhum caminho retorna,
senão em forma forma de dor.*

Caminho, água, nuvem, dor,
que serei, ao retornar
ao princípio, à mesma fonte?
Serei nuvem, ou serei dor?

*Dor, em romeno, traduz-se por saudade e também como dor.


CARTA

Não te escreveria hoje
nenhuma desta linhas,
mas os galos cantaram três vezes na noite –
e foi preciso gritar:
– Senhor, Senhor, a quem reneguei?

Estou mais velho do que tu, Mãe,
mas assim mesmo como me conheces:
um pouco curvado de ombros,
inclinado sobre as perguntas do mundo.

Não sei ainda hoje por que me deste à luz.
Apenas para que eu caminhe entre as coisas
e lhes faça justiça, distinguindo
o que é mais verdadeiro e o que é mais belo?
A minha mão hesita: é muito pouco.
Por que me deste à luz, Mãe,
por quê?

Meu corpo cai aos teus pés
pesado como um pássaro morto!


OCASO MARINHO

Se esvai no jogo de luzes
o salto crepuscular do delfim.

A onda apara os nomes
escritos na areia e os rastros.

O sol, lágrima do Senhor,
cai nos mares do sono.

O dia se extingue, e as notícias.
A sombra faz crescerem os sinais.

Ah, para quem existem os longos
tempos? Para quem os mastros?

Oh, a aventura, e as águas!
Coração, cerra as pálpebras.


PALAVRAS NUMA ESTELA FUNERÁRIA

Quando morremos, nada mais fazemos
do que nos retrairmos suavemente
em nossa própria sombra.
Assim morre um homem, assim morre um lírio.
Absorvendo-nos nela a matéria sombria,
a sombra se corporifica
enfim completamente.
Oh, a camisa delinho! Oh, o último suspiro!


AS LÁGRIMAS

Quando, afugentado do ninho da eternidade,
o primeiro homem
caminhava perplexo por bosques e campos,
atormentavam-no e surpreendiam-no
a luz, a claridade, as nuvens – e de cada flor
flechava-o com uma lembrança o paraíso –
E o primeiro homem, errante, não sabia chorar.
Um vez, massacrado pelo azul sereníssimo
da primavera,
com alma de menino o primeiro homem
caiu com o rosto no pó da terra:
– Senhor, tira-me a visão,
ou, se preferes, cobre-me os olhos
com uma mortalha,
para que eu não mais veja
nem flores, nem céu, nem o sorriso de Eva,
pois como vês, a sua luz me dói.

E então o Piedoso, num instante de compaixão,
deu-lhe – as lágrimas.


A ALMA DA ALDEIA

Menina, põe as tuas mãos sobre os meus joelhos.
Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia.
Aqui todo pensamento se aquieta.
E o coração palpita mais tranquilo,
quase como se não batesse no peito,
mas no seio da terra, em algum lugar.
Aqui se sacia a sede de redenção
e se os teus pés sangrarem
podes repousar num banco de argila.

Olha, é noite.
A alma da aldeia volteia entre nós
como um perfume tímido de erva cortada,
como um evolar de fumaça de um beiral de palha,
como uma dança de cabritos sobre sepulturas altas.


O VERSEJADOR

Mesmo quando escrevo versos originais,
não faço mais que interpretar.
Assim penso que está bem.
Somente assim o verso tem um fundamento
para realizar-se e tornar-se flor.
Traduzo o tempo todo. Traduzo
em língua romena
uma canção que o meu coração
me diz, suavemente encantado, na língua dele.


QUARTETO

A língua não é o verbo que recrias.
A única língua, tua de verdade,
dona de escuridão e claridade,
é a que conheces e em que silencias.


INSCRIÇÃO NUM OLHO D’ÁGUA

Entre o lodo, a escória, a podridão,
por entre os elementos eu caminho.
Viajor, confia nos dizeres
como este meu dizer.
Não sou um deus,
mas saio purificado.


OS POETAS

Não se espantem. Os poetas, todos os poetas são
um único, indiviso, ininterrupto povo.
Falando, são mudos. Pelas eras em que nascem
                                                 e morrem,
cantando, estão a serviço de uma fala perdida
                                                 há muito.

Profundamente, através de povos que surgem
                                                e desaparecem,
pelo caminho do coração eles sempre vêm e passam.
Por som e palavra eles se separam e competem entre si.
São semelhantes pelo que não dizem.

Eles calam como o orvalho. Como o sêmen. Como
                                                  uma saudade.
Como as águas eles silenciam, caminhando sob a
                                                  o campo,
e deplois sob o canto dos rouxinóis,
fonte se fazem na lareira, fonte sonora.


EPÍLOGO

Ajoelho-me ao vento. Amanhã os meus ossos
hão de cair da cruz.
De volta nenhum caminho me conduz.
Ajoelho-me ao vento:
ao lado da estrela mais triste.

Extraídos do livro Dois poetas do espaço miorítico
Fortaleza: Ediçoes UFC, 1998