Poemas de Octavian Goga
Tradução de Luciano Maia


ESTÁS SOZINHA

Estás sozinha hoje, ó minha alma,
velha igreja aldeã em ruínas...
Sob o teu teto sagrado, enegrecido pelo tempo,
hoje nenhum caminhante se inclina.

Estás sozinha hoje...
As paredes envelheceram,
não há canção, o coral emudecido.
Os ícones se apagaram e não há ninguém
que venha beijar os teu altar esquecido.

Pela penumbra chegam raras lembranças,
a morada perdida buscando rever ainda.
Flutuam silenciosas com suas asas,
como terríveis aves de rapina.

Conduzindo a morte, correm os ventos
pelas veredas,
atormentando-te com seu galope pagão...
E tu imploras, debalde, um raio que seja,
que tua velha abóbada faça tombar ao chão!


OCASO

Meu amor é sombra peregrina
em um tardio e triste ocaso
que dolorida se ilumina
dos dias idos pelo espaço.

Formosa nômade, tão linda,
os olhos cheios de nascente,
contempla o raio que se finda
e se confunde no poente.

Olha-o e refaz o itinerário
e a noite cai sobre as janelas:
como o ébrio raio solitário
sepulta mil histórias belas.


PASSAVA UM HOMEM

Junto à janela lá de casa,
longos caminhos por trilhar,
na noite branca e constelada
passava alguém com seu cantar.

Tal qual um canto que nos diz
dos sofrimentos de mil anos,
um triste cântico infeliz
que só conhecem os paisanos.

De onde é que o viajor
o trouxe à aldeia, para mim?
De que mistério veio a dor
desse cantar aflito assim?

Senti que a sua inquietação
por sobre os vales se reparte,
magoada e frágil confissão,
remorso que de longe parte.

Qual o cantar de antigamente,
num suspirar de nostalgia,
nesse momento o trouxe à mente,
pois também eu cantei um dia...


CANTA A MORTE

Me queima uma luz ardente,
revivo o tempo vivido.
Não o quanto vem-me à mente:
quanto pudera ter sido!

Me canta a morte à janela
qual um ocaso em surdina.
Reconta-me a história aquela
e de sombras me ilumina.

Escuto-a na noite muda,
do abismo o seu vulto cresce.
A vida se me transmuda,
o meu passado aparece.

Extraídos de Praia Formosa,
Fortaleza: CEARTE, 1988.