Vasile Alecsandri
Tradução de Luciano Maia

CÂNTICO À ESTIRPE LATINA

Nossa estirpe latina é rainha
entre as grandes estirpes do mundo;
em sua fronte uma estrela divina
brilha eterna no tempo profundo.
Seu destino adiante é o guia
e à vanguarda seus passos conduz.
Sempre à frente, com mais galhardia,
ela esparge ao redor sua luz.

É uma deusa a estirpe latina,
de fascínio e de encanto mais doce;
o estrangeiro, à sua frente, se inclina,
à sua voz todo o mundo curvou-se.
Tão formosa, tão viva e ridente,
sob um céu que ares tíbios desfralda,
ela espelha-se ao sol resplendente
e se banha num mar de esmeralda.

Nossa estirpe latina faz parte
dos tesouros das terras louçãs;
de bom grado, ela os doa e reparte
com as suas diletas irmãs.
Mas terrível se faz, quando um dia,
o seu braço é furor libertário
e golpeia a cruel tirania
em defesa do seu corolário.

Quando, enfim, no Juízo Final,
frente a Deus, se lhe for perguntado:
− Qual missão foi o teu ideal
na existência terrena? Eis o brado
da estirpe latina, alto e forte:
− Ó Senhor, quantos mundos andei
ante os olhos da vida e da morte,
a Ti, sempre, Te representei!


Este poema foi escrito pelo poeta romeno Vasile Alecsandri em 1878. Ligado à França e à latinidade por sua educação, suas convicções e suas amizades, Alecsandri participou do concurso dos félibres (grupo de escritores provençais que instituíram o Félibrige, movimento de resistência cultural em favor da língua e da cultura provençais), por iniciativa de A. Quintana, para a escolha do mais belo poema dedicado à estirpe latina. De acordo com a decisão unânime do júri, composto por Fréderic Mistral, C. Tourtoulon, A. Quintana, M. Obedenaru e Graziadio Ascoli, venceu o concurso o poema de Alecsandri. Foi um reconhecimento da sua visão da latinidade e dos seus dons poéticos, mas Alecsandri considerou a premiação ao seu “Cântecul gintei latine” principalmente como uma homenagem ao povo romeno que, embora distante de Roma, soube conservar, através dos tempos, a sua identidade e as suas tradições latinas.

O poema de Alecsandri foi traduzido para o francês, por Fréderic Damé, em 1878; para o latim, por Demetriu Fekete, em 1878; para o italiano, por Gaetano C. Mezzacapo, em 1883; para o provençal, por A. de Gagnaud, em 1885; para o romanche, por Alfons Tuor, em 1896; para o espanhol e para o português, respectivamente, por Luis Hernán Ramírez e José B. Gonçalves, em 1978. A presente tradução, de Luciano Maia, é de 1998, em comemoração aos 120 anos de sua criação por Vasile Alecsandri.

LAVS DEO


DUAS ESTRELAS
(Doina)

− A ti levo e a mim conduzes
somente estrelas e luzes!

− E aquelas duas estrelas?

− Lágrimas, que muitas vezes
dos meus olhos se evolaram
e pelo céu se aninharam
qual se aninham os alvores
do orvalho por sobre as flores!...
Muitas lágrimas verti
pela terra em que nasci.
Muitas lágrimas de exílio
pela sorte do meu filho.
Lágrimas de sofrimento...
De doce contentamento
também pudera vertê-las:
aquelas duas estrelas!


Extraídos de Praia Formosa
Fortaleza: CEARTE, 1988.