Poemas de Tudor Arghezi
Tradução de Luciano Maia


INSCRIÇÃO NUMA TAÇA

Cristal redondo sobre a sombra de veludo,
com o coração eternamente sereno,
me inventei nas águas azuladas,
congelado sob flocos nevados de luz.
E incessantemente, qual os brilhantes do orvalho,
parece que renasço em meu lugar virginal,
com uma cintilação mais novo no meu íntimo,
ainda que o meu conteúdo seja pouco.
Porém não saberás por mim quantas torrentes
se filtraram tranqüilas, docemente.
E não perceberás nos meus lábios resplandecentes
quantos lábios me sorveram, como forças,
quando procuram o meu frescor não provado.
E a tua boca, sorvendo-me estas novas gotas,
é beijada ao vento, à sombra daquelas bocas.


CANÇÃO

Defendi-me inutilmene e agora abandono a luta
à sombra da lua branca brandindo a lança rota.
Fiz de terra, fiz de água, barreiras entre nós,
mas somos, aqui e alhures, os vizinhos mais próximos.
Te encontro em todo atalho, sempre à minha espera,
minha incontida e muda companheira.
Me dás a água das fontes na palma da tua mão,
surgida de entre as pedras e dos tempos que vão.
Te desfazes da blusa e com os seios defronte
me indagas: “saciarás tua sede com eles ou na fonte?”
Procuras, com a boca na minha boca colada,
beber de uma vez a luz da neve irisada.
Com tudo confundida, qual sombra e pensamento,
neles te leva a luz e na terra és crescimento.
Em cada som se escuta o teu silêncio,
em vendavais, em preces, em passos e instrumentos.
O que sofro por ti é saudade, parece,
se és em tudo que nasce e em tudo que fenece,
se estás próxima a mim, e no entanto apartada,
eterna prometida, mas nunca esposa amada.

Extraídos de Praia Formosa
Fortaleza: CEARTE, 1988.