GARDEL, PARA SEMPRE

Luciano Maia

A lembrança de uma marcante personalidade desaparecida, nem sempre vem acompanhada de uma emoção transcendente, íntima e coletiva a um tempo só. Tratando-se de Carlos Gardel, sucede que nós, mesmo os que não o conheceram pessoalmente (uns poucos argentinos e até brasileiros, ainda vivos, tiveram esse privilégio), permitimo-nos invadir de uma triste e, ao mesmo tempo, intranquila saudade. Não exatamente aquela vontade de ver de novo, de que falam muitos autores, mas uma inquietante tristeza de que os tempos que engendraram o gênio de Gardel não voltarão mais, a não ser que se verifique uma mudança radical nos rumos que a vida social tomou, com profundas ressonâncias de natureza cultural, a partir, mais particularmente, do pós-guerra.

A sua figura, a sua presença, o seu modo de cantar, estão entranhados de uma aura muito pessoal e, no entanto, de intenso contágio, abrangente e comovedora. Essa realidade, cultural e psicológica, fez medrar os raros talentos, deus asas à capacidade criadora, O fenômeno Gardel perdurará na memória, não só dos que o viram cantar durante sua vida, mas também na lembrança dos que aprenderam a escutar suas vibrantes melodias, sua voz nervosa e apaixonada, prenhe de uma pulsante energia, registrada em discos, filmes, vídeos etc.

A Argentina, país irmão que o Prata banha e acalenta, não sendo embora a terra natal de Gardel, é o seu país de adoção, o fez crescer e tornar-se um prodigioso artista em sua Buenos Aires portenha (ciudad porteña de mi único querer...) tantas vezes cantada e acariciada por suas canções, seus intrépidos tangos acompanhados de guitarras criollas.

E Buenos Aires, à época em que Gardel passeava por suas calçadas, seus bares (arrabal amargo, metido em mi vida...) podia ostentar a condição de terra que internacionalizou o gosto pelo tango e conferiu ao idioma espanhol um prestígio comparável ao que propiciou um Cervantes ou um García Lorca. É isto: Gardel representa, junto a esses nomes notabilíssimos que deram impulso e prestígio à língua espanhola, também ele, um marco histórico e de grande alcance artístico e cultural. Todos reconhecemos que não se fala de Argentina sem que nos recordemos, automaticamente, de Gardel e do tango.

Os países possuem – cada um deles – geralmente um nome que designa, identifica o seu povo e com ele se mescla nas considerações de ordem psicológica que se possam propor, porque o encarna. No caso argentino, o nome que corporifica o sentimento nacional está intimamente relacionado com uma época em que as manifestações artísticas, de modo especial as musicais, se davam num contexto de muito maior independência dos fatores alienígenas, como hoje verificamos.

Uma música que, por suas identificação com os sentimentos de um povo, se impõe naturalmente como música nacional, assim como o tango, a rumba, o samba ou o baião que não são melhores nem piores que outras. Hoje, por força da dominação alienígena, que se impõe mais pela via econômica do que pela via cultural, diz que o jazz (alguém falou, algures: aqui jaz o samba!) é música universal. Nada mais falso! Seriam, então, o baião ou a rumba ou o tango menos universais que o jazz, por não contarem esses ritmos latinos com o poder de fogo de que dispõe hoje o jazz, através dos multimeios estadunidenses, dos tapes, do cinema, do rádio e da televisão, dos clips, dos dólares e, ultimamente, da internet? O ouvinte, de um modo geral, é empurrado, compelido a ouvir, a engolir o que os produtores dos multimeios bem entenderem. E o que há por trás de tudo isso? Não se discute? O ouvinte, de um modo geral, não se dá conta disso...

Era uma vez... havia música italiana, francesa, húngara e até nordestina (no Brasil). Querem hoje aqueles que se acastelaram nos multimeios, em nome de uma mentirosa internacionalização, negar o fato das diferenças culturais. Não aceitam que um cearense se identifique mais com o baião do que com o jazz, que a um carioca do morro agrade mais ao ouvido um batuque do que um teclado acauboizado... e assim por diante. Essa internacionalização equivale a ianquização, ora essa! O fato cultural, malgrado tudo, perdura, apesar da vidiotização, que fabrica vidiotas em série.

Voltando à trama inicial, voltando a Gardel, voltando ao nosso centro de emoções e identidades culturais, desejamos acrescentar: existe um gênio nórdico, assim como existe um gênio africano, um gênio brasileiro (ainda em formação) e assim por diante. Mais genericamente, existe um gênio indiano, um gênio anglo-saxão, um gênio latino etc. E é aqui que, lembrando o notável ensaísta romeno Mircea Eliade, aduzimos o nosso testemunho do enriquecimento do gênio latino através de Carlos Gardel, que corporifica um sentimento nacional e perdura alhures, intemporalmente.

“...Alma criolla, errante e viajera,
querer detenerla es una quimera...”


Diário do Nordeste, 26 de agosto de 1990