Mar do Rio





Cuando un hombre está tocando sus raíces,
La tierra canta con los astros hermanos.
Vicente Huidobro

Nunca permitas, campo, que se agote
nuestra sed de horizonte y de galope.
Oliverio Gironda

Si eu soupera que no cumio máis alto do monte
estaba cravado o meu verso...
Ou naquela lonxanía, onde o mar ten
os seus grises máis tenros...
Ou nos profundos da terra,
onde nacen os cegos...
Eu iria, co meu corazón canso,
porque ali estaría o meu reino.
Luis Pimentel

Tomé entonces un trozo de piedra que encontré en un río
y empecé a trabajar con ella,
empecé a pulirla,
de ella hice una parte de mi propia vida.
Nicanor Parra


DO MAR AO RIO

      Uma belíssima revoada de sonetos, escolhidos pelo autor em vários de seus livros publicados ao longo de muitos anos, desenha o panorama da presente obra de Luciano Maia, na qual se descortina o lavor e a perfeição inimitável com que dedilha o instrumento dos clássicos nesse
difícil gênero de arte poética.

     São décadas de exercícios bem sucedidos que se fazem brilhar, aqui, nos mais altos momentos da lírica cearense, variadíssima em sua temática, mas fi el às raízes telúricas do poeta. 

     Sintetiza este livro, portanto, o fruto maduro de uma colheita oportuna e seleta de 177 sonetos. Nesta segunda edição, inclui-se o poema "Quando a voz do destino", todos afi nados com a primeira nota que lhe dera a conhecer, desde jovem, os âmagos secretos de insopitável inclinação para as letras. Ao mesmo tempo que isso, dedicava-se Luciano aos importantes estudos de várias línguas românicas, de que resultara, muito depois, o que viria a denominar-se Almanaque Neolatino. Tradutor competente, fez-nos ver, também, a grandeza da poesia romena.

     De Luciano Maia diz o escritor argentino Javier Roberto González: 

“Cuando la idea de latinidad va corriendo el serio riesgo de degradarse, por obra de los mezquinos límites impuestos por la propaganda masiva de la posmodernidad y muy específi camente a propósito de nuestro continente, hasta acabar identifi cándose con huidizas categorías geopolíticas y socioeconómicas, no precisamente halagueñas, resulta reconfortante el hallazgo de este libro (As tetas da loba) de un autor latinoamericano
– brasileño –, cuyo confesado propósito es el de rescatar y cantar poéticamente los verdaderos alcances del espíritu latino.” (O Pão, Ano V, no. 36 - Fortaleza-CE).


     Adotando um rigoroso critério antológico, através do qual minimiza ou extingue as diferenças de estilo a partir de seu livro de estreia, em 1982, o texto que ora nos apresenta traz aquele sabor atualizado dos romanços ou romances característicos de um período áureo da lírica universal: sem abdicar, no entanto, de cesuras, pausas e rimas, quando estas, ou sua ausência, calham melhor ao fl uxo criativo de suas variantes. 

     Apresentando Claroscuro na noite de seu lançamento, escreve a professora e poetisa Noemi Elisa Aderaldo: “Claroscuro é, todavia, uma grande obra da maturidade poética de Luciano Maia, atingindo uma dimensão metafísica, com inúmeras construções formais absolutamente perfeitas! Ali podemos contemplar um raro casamento artístico entre forma e sentido, entre estrutura e conteúdo, entre a matéria rítmico-sonora do verbo – o sequenciamento cadenciado e harmônico das palavras – e o encantamento mágico duma alma expressando apreensão de realidades em níveis imateriais, incluindo vasta gama de sentimentos e correlações anímicas.”

     Sem dúvida, porém, Autobiografia lírica, Mar e vento e Claroscuro lideram, com o tempo, a construção cada vez mais apurada da técnica e da linguagem do vate jaguaribano. Avanço este, contudo, a que ele, numa postura alquímica surpreendente, vem de reunir sonetos de livros de sua autoria, anteriormente publicados – chegando a formar, desse modo, com as partes de cada um, nada mais nada menos do que esta rara coletânea da mais fi na extração que ainda se possa conceber num mundo como o nosso, apressado e ansioso por conquistas fáceis e passageiras.

     Revela-se também, de corpo inteiro, o sonetista que antes estivera entre as formas comuns, disfarçado entre elas, mas que agora se destaca como a parte mais duradoura de um processo vitorioso; como se um rio tivera que ser, como o seu Jaguaribe natal, antes que suas águas fluíssem com as lágrimas da aurora.

Jorge Tufic





TEMPO DE PROSCRIÇÃO
O amor não morrido ainda de todo
nos trazendo suspeitas de saudade.
Nos tocando o ouvido ainda um pouco
as músicas que se ouviam na cidade.
O trago do cigarro, o peito rouco
a fumaça buscando a claridade.
A vontade de ver-te, vez por outra
o tempo de hoje longe de verdade.
A rua, a esquina, o ir-me sem querer
a chama antiga ainda a me chamar
o nosso enigmático proceder.
Os beijos sem socorro como um grito
e eu sem saber de mim e sem saber
quanto tempo estarei assim proscrito.

Fortaleza, 1976



SONETO QUE HABITA O TEMPO DO AMOR
Um nome, claro lume, habita a luz
que incendeia o meu peito numa aurora
de ternura-futuro e me conduz
o facho aceso da ternura-agora.
Um nome de candeia guarda azuis
chamas de estrelas pelo espaço afora
o mesmo espaço (mãos e braços nus)
que em minhas mãos e nos meus braços mora.
Um nome agora e sempre habita o instante
mais largo e mais profundo do meu peito
dele o mais companheiro, o mais amante.
Um nome intimidade habita o leito
futuro tempo verbo que adiante
conjuga o antes-depois mais-que-perfeito.

Fortaleza, 1978


COSMOGRAFIA DO TEMPO
Uma estrela me disse (acreditei)
que noutros pontos de outros universos
há sonhos como aqueles que sonhei
de liberdade. E outros tão diversos
dos que antes sonhara num talvez
de ideais possíveis ou dispersos.
Que noutros longes há também a lei
de libertar o amor soltando versos
de prender solidões vivendo o ermo
de enganar a força dos sentidos
não sentindo um olhar no olhar mesmo.
Outros astros, de nós desconhecidos
povoam-se também do engano ledo
da redenção na morte de outros cristos.

Fortaleza, 1979


VERBO VERSUS MURO
Arranca esse silêncio do caminho
e planta a força da esperança útil!
Mais vale o Verbo (arquitetura anímica)
do que o sonho da revolta muda.
Semeia o vento-azul pelas esquinas.
E se colheres vãs respostas surdas
prepara o solo para o replantio
do grão maduro em sólida urdidura.
Bem maior que o outrora e que o futuro
é o país além da cor do tempo
aliado ferrenho contra o muro.
E mais forte que o ferro e que o cimento
é a palavra acesa em fogo puro
quando penetra o coração do vento.


SONETO DE ESPAVENTO
Da derradeira asa, dessangrada
na exaltação febril do desatino
à livre e insinuante revoada
nas sendas de um espaço peregrino.
Desde a (a)penas canção engaiolada
ao chilrear sonoro matuti no
da voz da rama verde e neblinada,
do outrora paraíso campestrino.
Os ares que se encheram do vazio
as folhas que esqueceram a anti ga cor
a água sepultada sob o rio.
Mas um sol de espavento vingador
dos dias exilados, fende o frio
aço dos gumes que se opõem à flor.