ÉMILE NELLIGAN, POETA NACIONAL DO QUÉBEC

O século XIX foi, principalmente para os países recém tornados independentes ou por se tornarem independentes, no que diz respeito às Américas, um período em que as ideias do movimento romântico, surgido na Europa no final do século XVIII, tomaram  um impulso formidável. Em trabalho publicado para a Fundação Joaquim Nabuco, em 2006, tive a oportunidade de referir as semelhanças entre dois poetas românticos – Mihai Eminescu (1850-1889) e Castro Alves (1847-1871) – o primeiro, romeno, e o último, brasileiro, considerados, ambos, os poetas nacionais da Romênia e do Brasil, os dois dotados de uma genialidade incontestável. Pois bem: o Québec teve, também, o seu poeta nacional: Émile Nelligan (1879-1941), filho de um imigrante irlandês e de uma québecoise. Muito cedo, como igualmente ocorreu com Eminescu e Castro Alves, Émile Nelligan arrebatou aplausos para a sua poesia: tinha apenas dezesseis anos quando recitou “Romance du vin”, um poema em resposta aos críticos da época, em que, confessando-se poeta, diz saber do desprezo que por ele nutrem os que não o compreendem: “Femmes! je bois à vous qui riez du chemin / Où l’Ideal m’appelle en ouvrant ses bras roses; / Je bois à vous surtout, hommes aux fronts moroses / Qui dédaignez ma vie et repoussez ma main!”

 Émile Nelligan esteve sempre mais ao alto do que os poetas de sua geração. Jovem, muito jovem, mereceu o elogio e, como jamais poderá deixar de ser, a repulsa dos incapazes de compreendê-lo. Veja-se o que a seu respeito escreveu Louis Dantin, crítico literário coevo, tendo sido responsável pela sua apresentação ao público: “Uma verdadeira fisionomia de esteta; uma cabeça de Apolo sonhador e atormentado, onde a palidez acentuava os traços finos, talhados como por um cinzel no mármore. Olhos muito negros, muito inteligentes, onde rutilava o entusiasmo, e cabelos, oh! cabelos de fazer sonhar, derramando soberbamente sua espessura de ébano, caprichosa e maciça, com ares de juba e de auréola”. Esta descrição cairia como uma luva aos dois poetas a que nos referimos no início: Eminescu e Castro Alves, quando dos seus 18 anos. Aliás, a fisionomia de todos os poetas românticos, quando jovens, é a mesma: ares de sonhador e atormentado, olhos como a vislumbrar o inatingível. Assim reclamava a estética romântica, uma busca de felicidade longe do mundo que nos cerca, uma busca de um paraíso só encontrável onde não podemos estar, uma fuga às coisas comezinhas do mundo real, cotidiano, enfadonho.

Voltando a Nelligan: sua vida era a poesia. Viveu em poesia. Seguidor de Baudelaire e de Rimbaud, trouxe o Simbolismo ao Québec, modernizando com a sua luz de gênio a poesia daquele então. Demos a palavra a Jean Royer “Nelligan é um mito. Desejando-se descrever a sua poesia de todas as maneiras, ela continua viva. Ela nutre uma geração após outra [...]. Nelligan tem sempre vinte anos. Irmão de Nerval e de Rimbaud, este anjo negro para quem “a neve nevou” continua a encarnação do poeta maldito, vítima do seu anticonformismo absoluto”. O poeta disse em um dos seus poemas, como a pedir a compreensão dos demais: “Deixai-o viver assim, sem lhe fazer mal! / Deixai-o partir; é uma sonho que passa; / É uma alma angélica aberta sobre o espaço, / Que em si leva um céu de primavera auroral”. Como todos os românticos, Nelligan começou o seu “padecimento” poético, completamente tomado pela volúpia da poesia sonhadora e rebelde e nutrido de um gênio criador, semelhante ao de Eminescu e Castro Alves, aliás encontrável em praticamente todos os românticos do mundo, inclusive nos primeiros simbolistas, cuja estética arrebatou o québecois, principalmente a partir da poesia francesa daquele então. Por isso, Nelligan é considerado, além de romântico, simbolista e parnasiano.

Émile Nelligan, o poeta nacional do Québec, é praticamente desconhecido do grande público brasileiro. Está a merecer uma apresentação mais ampla de sua preciosa obra, que com toda certeza, irá chamar a atenção da crítica especializada.

L.M.

Diário do Nordeste, 07 de abril de 2013