LO PAÏS D’ÒC, QU’ ES AQUÒ? (O País d’Oc, o que é isto?)

Uma terça parte, aproximadamente, do território francês (refiro-me à França  continental) é constituída pelo chamado Païs d’Òc (país do sim, em occitano), em relação ao Pays d’Oui (país do sim, em francês). O País d’Oc, ou Occitânia, como costumam chamar os franceses de lá, possuem uma língua cuja literatura remonta ao século XI, época em que os primeiros trovadores, que tiveram em Bernard de Ventadourum dos precursores, foi depois, por muito tempo, relegada à condição de patois. Desde a derrota dos cátaros, no século XIII, o império francês chegou ao Mediterrâneo e impôs à força a sua língua na Occitânia. O occitano é hoje a maior língua não-oficial de toda a Europa. É estudada em países como a Alemanha, Itália e, pasmem, até no Japão! Pode-se perguntar: que interesse podem ter os japoneses em aprender occitano? A resposta não é das mais complexas: toda a literatura ocidental (pelo menos da Europa ocidental) tem como fonte a cultura dos trovadores, que escreveram, em seus primórdios, em língua d’oc. Até o rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, escreveu poemas em occitano! Não será inoportuno lembrar que Dante, em sua Divina Comédia, escreveu em occitano os versos 40 a 47 do Canto XXVI, do Purgatório, em homenagem ao poeta  Arnaldo Daniel, que ele considerava il meglio fabbro.

Pois bem: assim como sucede com o galego, o corso e outras línguas ditas menores, também com o occitano é raro um turista ouvi-lo nas ruas de Toulouse, Carcassone, Bordeaux, Nîmes (cidades do Midi francês, ou seja, do País d’Oc). Todos ali falam o francês, língua oficial. Mas se você for um curioso das línguas, não será difícil (com certa parcimônia) abordar um taxista ou um empregado do hotel em que você esteja hospedado, ou até um vendedor de uma livraria e deles ouvir alto e bom som: parli l’occitan, la lenga nòstra. É que, apesar de toda a intolerância por parte do governo francês, após haver incorporado à Coroa aquele vasto território, os occitanos, conscientes do seu passado histórico, não abandonaram a sua língua materna, uma língua que fez de Frédéric Mistral o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1904, com sua excelente obra Mirella. Uma língua, quando proibida, torna-se um rio subterrâneo, que não deixará de fluir enquanto os seus falantes assim o quiserem. Um rio que, a qualquer tempo, brotará novamente à flor da terra, cristalino e cheio de vitalidade.

Alain Nouvel, Mestre Conferencista da Universidade de Montpellier e Secretário Adjunto de Defesa e Promoção das Línguas da França, escreveu: “Do ponto de vista puramente linguístico, ela [a língua occitana] faz a admiração dos lingüistas do mundo inteiro, em virtude de sua riqueza e de suas origens. A sua riqueza é excepcional: contam-se atualmente 160.000 palavras (...). Comparativamente, o dicionário da língua francesa de Littré conta aproximadamente 38.000 termos”.

A conquista de todo o território onde se fala o occitano deu-se por conta a uma cruzada contra os heréticos cátaros, que professavam um cristianismo, segundo eles próprios, puro, considerando-se os seus promotores apóstolos verdadeiros do Cristo e condenando a pompa e a riqueza do Vaticano. A luta tornou-se um desiderato político da Coroa francesa, como se sabe hoje. É vasta a literatura sobre o que se deu com a chamada cruzada contra o cátaros: supressão da língua occitana das escolas e universidades. Hoje, resultado de um esforço contínuo dos mestres de Linguística do País d’Oc, esse idioma volta a ser estudado nos vários níveis de aprendizagem. Presto aqui, com estas breves palavras, uma homenagem a todos os escritores de língua occitana, com quem venho aprendendo mais sobre passado tão glorioso e presente tão lucidamente vivido.

L.M.

Publicado no Diário do Nordeste, 10 de fevereiro de 2013