OS SENTIDOS DO BARCO DA VIDA

Deixa-nos o grande poeta Francisco Carvalho, domador das éguas ruças, o que pastoreia também as nuvens-pássaros, desde a sua terra natal e ainda escuta as matracas no oitão da Igreja matriz. Entre os nossos melhores poetas, ele pontifica. A sua obra é vasta e profunda, como os lagos siberianos.

Francisco Carvalho foi meu mestre desde que o conheci, levado por meu saudoso amigo Rogaciano Leite Filho, em 1980, ao seu gabinete na Reitoria da UFC. Não posso esquecer a expressão de descrença estampada em seu rosto, quando o meu amigo apresentador disse-lhe que eu pretendia publicar um livro e lhe pedia o prefácio... “A poesia é, hoje, um terreno minado, muitos escrevem supondo que estão inventando a roda, é um terreno onde andam muitos pensando que estão abrindo caminhos... Em todo  caso darei uma lida em seus poemas”. Saímos de lá (muito mais eu, por razões óbvias) desolados. O Rogaciano tentou me animar. À noite, fomos à desforra no Estoril.

Algo como duas semanas depois, toca-me o telefone: na linha, o poeta. “Estou escrevendo algumas notas sobre o seu livro. Passe aqui amanhã” Súbito, senti aquele frêmito de alegria e temor. O que escreverá o poeta sobre os meus poemas?

Desde aquele dia ficamos amigos verdadeiros. Bebi poesia de uma fonte pura e inesgotável. Vale lembrar as idas ao seu gabinete em companhia de Caetano Ximenes Aragão, seu amigo, com quem conversava sobre todas as coisas da vida... e da morte.

A poesia de Francisco Carvalho se insere, como disse uma vez Jorge Luis Borges, referindo-se às obras duradouras, num livro cujas páginas têm a vocação da imortalidade. E diga-se: nunca deixou de louvar a suavidade e a aspereza da terra interior. Leia-se o que diz em “Canção do pote”: (...) Vi o amor se extinguir numa fogueira. / As constelações grandes e as pequenas / e os cavalos dos elfos a galope. / Ao contemplar a água prisioneira / vi o perfil de um deus. Mas era apenas / o rosto do meu pai dentro do pote”.

Em Francisco Carvalho vale aquela bela assertiva de Evgeni Evtuchenko: “A biografia de um poeta são os seus versos”. Quem o lê com a merecida atenção e a devida curiosidade, e também com a paixão de leitor receptivo aos acenos da beleza, encontrará nas mil e uma páginas dos seus livros a luminosidade da metáfora imprevista, ou como ele própria dizia: “cada palavra tem o seu fulgor inesperado”.

O grande poeta tem consciência do valor da beleza, está apto à compreensão do fenômeno vital, tanto na existência dos homens, como na dos bichos e dos vegetais: o seu olhar penetra a essência pura da Natureza. A sua alma pervaga por todos os templos e por todas as crenças, conhece a outridade e sabe que mais valioso do que amar ou odiar, é compreender, como nos ensina Spinoza.

Deixa-nos o poeta. Calou-se a voz do homem, permanece a voz do vaticinador. O verbo silencia, mas apenas no silêncio efêmero da vida, pois no silêncio da eternidade reverberará a poesia que ele construiu com o barro do Grande Oleiro. Admirador e conhecedor profundo de Omar Khayyám, sabia (em sua obra, sabe) que a vida merece ser vivida em plenitude, mesmo quando “sob o manto do Ocaso desfalece o dia”, para outra vez renascer a luz. Assim segue o barco dos sentidos da vida.

Repito aqui o que um dia escrevi sobre o poeta: Francisco Carvalho tem uma noção muito precisa de todas essas implicações que rodeiam e penetram a criação artística e, em especial, a criação literária. É mestre-aprendiz. O que aprende de Deus , ele nos ensina. 

L.M.

Publicado no Diário do Nordeste, 17 de março de 2013