O VERSO LIVRE

Nos primórdios da literatura ocidental, quando surgiram na Grécia os primeiros poetas (Homero), rapsodos, aedos, criadores de uma poesia narrativa, heróica, fantástica e exemplar, não se conhecia, tal como sucede hoje, a rima; e a métrica obedecia a cânones outros que os atuais. O metro se fazia na dependência das sílabas tônicas e átonas. Escandiam-se as sílabas mais com a pronúncia lenta ou breve do que com o número delas no verso daquele então.
 
      Tal prática continuou em toda a literatura greco-romana subseqüente com o apogeu da literatura clássica na Grécia e, depois, em Roma. Também assim na Idade Média, quando, já ao seu término, começaram a surgir novas formas.
 
      O decassílabo, para citarmos o metro mais difundido do verso medido no Ocidente, depois da redondilha maior, surgiu no século XII para o século XIII, com Jean Pierre de Vignes e Jacobo de Lentini. Somente com o Renascimento, com o advento de uma estética específica àquele período, é que a métrica e a rima, tal como as conhecemos hoje, foram levadas a um patamar de hierarquização ampla e sólida, com Dante e Petrarca e depois com todos os poetas que conhecemos, até chegar aos maneiristas, como Camões.
 
     As estéticas posteriores ao Renascimento continuaram a prática do verso medido e rimado, pontificando poetas da magnitude de Shakespeare, Quevedo, Góngora, Ronsard, Boileau, Victor Hugo, Baudelaire, Novalis, Pushkin, Eminescu... com o Barroco, o Neoclássico, o Romantismo, o Simbolismo, o Realismo.. Bom, com o Realismo, começou o uso do verso livre e branco (sem rima). No Brasil, esta prática iniciou-se em 1922, como todos sabemos, com a Semana de Arte Moderna, que contou com poetas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti Del Pichia, Cassiano Ricardo, para citarmos apenas alguns, com a posterior adesão de nomes como Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Vinícius e tantos outros.
 
     Com exceção de pouquíssimos, todos os poetas pós-Semana de Arte Moderna, depois de passado o entusiasmo dos primeiros anos do chamado Modernismo brasileiro, escreveram versos rimados e metrificados, sendo que alguns, como Vinícius, Drummond e Bandeira, estão apontados entre os melhores sonetistas do Brasil. Até Cassiano Ricardo, que proferiu em livro (1939) este disparate: “Já podemos citar o soneto entre as nossas mais caras recordações...”, publicou, em 1952, um livro de sonetos!
 
     Voltemos ao título deste artigo: o verso livre chegou com um vigor renovador e... apressado. Uma enxurrada de autores que ousam dizer que o verso rimado é coisa do passado e cometem poemas, em sua maioria, desprovidos do que René de Chateaubriand chamou de “oreille heureuse” (ouvido feliz). Para se afastarem da rima e da métrica, muitos cometem excessos de cacofonia, nada adequados à percepção do poema. Jacques Charpentreau, diretor de publicação da revista “Le Coin de Table”, editada em Paris, nos alerta: “Nós não somos os únicos a querer reencontrar uma poesia que se emancipe enfim da ditadura do falso verso livre, que nos impõem desde decênios sob a chantagem permanente da “modernidade” (...) a imensa maioria dos poemas publicados hoje não vale nada. Eles não têm leitores; e é justo.”
 
     O poema, para conter (e transmitir) poesia, não está sujeito a ser escrito com versos livres. Pode perfeitamente ser elaborado em traje harmonioso e musical. Em verdade, os maiores e mais consagrados poetas do mundo inteiro escreveram com aquele “ouvido feliz”, conduzindo os seus poemas através de sons de melodias à percepção do leitor ávido de musicalidade, de harmonia.
 
      Poetas versilibristas os há, também, excelentes. Fala-se aqui contra a ditadura dos que não entendem a poesia como algo mais alto. Ritmo há que haver, ainda que interior. Por um verso livre de uma falsa modernidade!
 
Diário do Nordeste, 19 de maio de 2013