KOSMOKAOS

    “Por mais santo ou vil que o tomem, esse é o Homem”. Assim conclui WJ Solha a trilogia que se inicia em Trigal com corvos, passa por Marco do mundo e vem a ter com Esse é o Homem.

     De início, gostaria de salientar um dado que, a meu modo de ver, é muito decisivo na escritura de WJ Solha: a recorrência propositada às fontes inaugurais de uma literatura ad- e subjacente ao que se faz hoje, nesta pos-modernidade um tanto caótica e, aqui e acolá, alumiadora: a poética sertaneja (entendam, por favor, o termo em sua primordialidade), trespassada pelas contundentes alusões à literatura universal.

     WJ Solha esquadrinha territórios. Às vezes, suas visitações têm um caráter denunciatório e isto, diga-se, não sendo algo inaugural é, pelo menos, pela maneira com que o faz, singular. Mas para além da natureza algo reivindicatória dessas visitações, há um toque nietzscheniano, mas sem niilismo, no sentido da compreensão da natureza humana, “para além do Bem e do Mal”. É que WJ Solha, em sua observação do mundo, aceita-o, “graças a um fascínio que faz com que nos agarremos à vida, desde a pequena barata – em pânico ante o chinelo e o inseticida – até Cristo (...) porque a Terra, alerta, mesmo quando erra, acerta”.

     Talvez pudéssemos dizer que WJ Solha tem uma cosmovisão aparentada com os mestres orientais, que nos ensinam ser melhor dizer sim diante de toda e qualquer adversidade. Mas quero crer que neste tratado poético-filosófico (assim se subintitula a trilogia) o autor tem, também, os  seus vínculos com uma reivindicação humanizadora.

     Não se pode deixar de perceber na poética de WJ Solha um descritério próprio dos que se situam além e acima das escolas, dos modismos e das correntes estéticas que, por se arvorarem de vanguardistas (termo que Octavio Paz lembra vir da linguagem militar), terminam por impor o “círculo de giz”, fora do qual dizem tudo ser nada...Bobagem! Não: este poeta da Paraíba do Norte tem consciência de que os ismos são limitativos e se lança para além de ultraísmos e pós-modernismos, para exercitar a sua escritura naturalmente brotada do seu binômio natureza-história e, como lembra Ortega y Gasset, aceitar a verdade simples, humana de que ele é “ele e suas circunstâncias”, não obstante o compromisso inarredável de saber-se num mundo onde nada nos é estranho: homo sum; humani nihil a me allienum puto, como nos sugeriu Terêncio.


     É isto: “por mais santo ou vil que o tome, esse é o Homem”. Trigal com corvos, Marco do mundo e Esse é o Homem chegaram para afirmar um talento enorme, inquieto diante da construção artística e, no entanto capaz de se inserir numa ataraxia perturbadora, paradoxo próprio aos grandes criadores.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste - 22/09/2013