SAUDAÇÃO A VINICIUS DE MORAES

Não esqueço o dia em que, voltando do Castelão, aonde tinha ido para registrar no Banco de Memórias a vinda do Papa João Paulo II a Fortaleza (era o dia 9 de julho de 1980), ao ligar a televisão, ouvi a notícia de falecimento do “poeta meu muito amado”.

A surpresa foi menor que a dor sentida de forma mais do que brutal: de repente, eu estava com o olhar marejado... E é quase sempre assim, com todos nós – ao sentirmos uma perda humana. Com a morte do Poeta, passaram pela minha mente as centenas de poemas seus, muitos dos quais eu tinha de cor. E junto com eles as circunstâncias – reais ou imaginárias – em que foram criadas aquelas obras-primas de sua inspiração de Poeta sonhador. Lembrei-me de O Caminho para a distância, seu primeiro livro, quase todo vazado de um sentimento triste e solitário.

Não sei se o que direi aqui agora corresponde à verdade factual: Manuel Bandeira, ao ler os primeiros versos do Poeta, ou pelo menos depois de ter visto seus primeiros livros, disse que, entre os autores que surgiram naquele então, havia UM que estava tocado pelo mistério, que se inundava da verdadeira dor da poesia: este era Vinícius de Moraes. E aconselhou o Poeta a escrever sonetos de amor. Lenda ou realidade, o certo é que, como sonetista, Vinícius pontifica entre os melhores da língua portuguesa, pelo menos na minha opinião. E na de muitos.

Os poemas de amor de Vinícius transpõem todas as barreiras do esteticismo para desaguarem num mundo para além das imaginações comuns. Configuram um cenário, à primeira vista, simples, quase banal para, após uma observação mais atenta e mais profunda, darem um sem-contorno aos seus significados: vão além do nosso pensamento imediato.

Considera-se que o Poeta sofreu uma influência decisiva dos poetas metafísicos ingleses, desde a época em que estudou na Universidade de Oxford (Magdalen College), isto em 1938. Parece evidente que Vinícius teve uma preocupação com o sublime, como ele próprio confessou em algumas entrevistas. O sentimento do sublime parece mesmo ter sido uma opção para aquele período. Mas, veja-se: ele já havia publicado, além do livro mencionado, Forma e Exegese em 1935, como se pode observar, três anos antes de sua estadia na Inglaterra. Então, pode concluir-se: a presença da metafísica em Vinícius é algo substancial, orgânico, antes de ser uma “influência dos poetas metafísicos ingleses”.

Quando compôs seu primeiro samba, Quando tu passas por mim (letra e música) em 1962, ano em que faz músicas com Baden Powell, Carlos Lyra, Tom Jobim e outros, já o Poeta nos dá a certeza de que sua inclinação para o sublime cede à tentação de uma participação mais efetiva na esfera da cultura mais próxima do povo, ainda que, para falar-se a verdade verdadeira, àquela época a chamada música popular brasileira (reduzida a uma sigla: MPB) esteve nas mãos de uma elite carioca ou carioquizada. Claro que, com o passar do tempo, a bossa-nova foi sendo assimilada por camadas mais abrangentes da população.

O que se disse aqui é do conhecimento de todos quantos se interessam por Vinícius de Moraes, o poeta e o compositor. Mas o que penso ser de ressaltar é a necessidade de se empreender um estudo mais aprofundado da sua obra poética. A sua guinada para a música popular parece ter provocado em alguns setores da crítica literária um certo afrouxamento em relação à apreciação de sua escritura. Urgente, diria, uma atualização ampla e profunda dos estudos críticos da obra desse imenso, repito, imenso poeta brasileiro!


Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, 17 de novembro de 2013.