UM ACONTECIMENTO MARCANTE

Tarde de sábado em Fortaleza. Era o ano de 1967. Lucas saíra ao cinema, exibia-se o filme Help!, com aquelas melodias inovadoras – hoje sabemos o quanto de harmonia elas trouxeram ao cenário musical internacional – e suas roupas singulares. Ao Cine São Luiz, àquele então, acorria muita gente, notadamente gente jovem, nos fins de semana, principalmente por força do chamamento dos Beatles. O jovem (Lucas tinha completado 18 anos) entrou sozinho na sala de exibição, já praticamente lotada. Uma cadeira ele viu vazia, ao lado de uma jovem belíssima que, parecia, estava sem companhia. Pediu-lhe licença, sentou-se ao lado da garota e, antes de começar o filme, já estavam conversando animadamente sobre coisas assim como música, livros, cinema. Ah, falaram também de planos para o vestibular. Planos que, aliás, para ele, só se concretizariam 7 anos depois, já em 1974… Mas isto é outra história.

Da conversa entre o jovem e a linda moça nasceu um namoro instantâneo, paixão à primeira vista. Ali, ainda no cinema, trocaram beijos e afagos. Terminado o filme, saíram em direção à Praça Valdemar Falcão (era dali que partiam os ônibus rumo ao bairro Meireles, onde disse residir a bela moça. Chocolates, outros beijos, um “tchau, até domingo”. Despediram-se.
Ao chegar em casa, Lucas, inebriado ainda com o perfume daquela moça tão linda, não conseguia tirá-la do pensamento um único instante. Foi par a calçada, olhar as estrelas. Naquele tempo, ainda se viam estrelas no céu de Fortaleza.

Agora chega o momento de um acontecimento aterrador: o seu pai (viera à calçada o seu irmão, com a nefasta notícia, onde Lucas estava absorto em pensamentos de amor) sofrera um mal súbito e era urgente que o levassem a um hospital de rápido atendimento. Assim foi, desde aproximadamente as 7 horas da noite até às 11:30, um sofrimento atroz, o pai a despedir-se dos três irmãos, estendendo a mão a um e a outro, instantes marcadamente inesquecíveis, até que, num suspiro fundo, faleceu.

O jovem Lucas, acompanhado dos irmãos e irmãs, foi sepultar o pai na cidade em que nasceram o seu pai e eles. Lá permaneceram 15 dias, amadurecendo a ideia (ou melhor, aceitando-a, enfim) de que dali em diante ele e os seus irmãos teriam que levar a vida aos trancos e barrancos, como de fato levaram para, por fim, conseguirem vencer barreiras aparentemente intransponíveis.

Por meses (anos?) seguidos, foi o jovem à procura da bela moça. Em vão. Aquele compromisso de se encontrarem “no domingo” nunca pôde ser cumprido. Conjecturava: será que ela veio e, não o encontrando, desistiu, por entender como uma enganação de sua parte? Será que mudou de endereço? Quantas vezes terá vindo e por ele esperado? Quantas vezes terá por ele esperado? Nunca mais a verei!, sentenciou um dia, vencido. Este pensamento o perseguiu durante muito tempo, muito tempo.

Não se pode dizer que Lucas tenha desistido do seu amor. Ele o perdeu, no labirinto do tempo, ante os redemoinhos que o destino traça em torno das nossas trajetórias de vida. E de morte. Com ele, perdeu também Lucas, para sempre, um poema.


Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 22/12/2013