JUAN GELMAN, poeta do refinamento


A obra do argentino Juan Gelman, nascido em 3 de maio de 1930 em Buenos Aires, é já bastante conhecida fora do seu país, principalmente nos países de língua espanhola. Seu livro de estreia, Violín y otras cuestiones (1956), já dizia a que viera Juan Gelman. Tem mais de trinta livros publicados, tendo lançado El emperrado corazón amora em 2011. Foi reconhecido mundialmente, com a outorga do Prêmio Cervantes, em 2007, comenda equivalente a um Oscar da literatura.

No Brasil, é pouco conhecido do grande público. Mas alguns dos seus livros foram traduzidos ao português e outros publicados em Portugal. Vamos deter-nos, na economia destas linhas, a alguns trechos do livro Dibaxu (Debaixo), de 1994,  traduzido ao português por Andityas Soares de Moura e publicado em Fortaleza numa coedição da Secretaria da Cultura do Governo do Estado do Ceará e das Edições UFC, em 2009.

Juan Gelman é poeta acima de qualquer suspeita, como nos diria o grande Francisco Carvalho. Mas, acima de tudo, é poeta de várias manifestações estilísticas. Os seus poemas diferem tanto uns dos outros, que se poderia supor escritos por vários autores. Em todos eles, no entanto, a inconfundível marca de uma refinada solidariedade. Refinada, não afetada. Sobre isto, escreveu Eric Nepomuceno: “O exílio e os horrores das derrotas acumuladas não tiraram de Juan Gelman a generosidade, a ternura e uma infinita capacidade para a poesia.” Quer isto dizer que estamos diante de um humanista convicto. Sabe que a poesia tem, sim, seu papel de oferecer a outrem sonhos e esperanças.

Dibaxu é livro marcante: o poeta quis e o escreveu em sefardita (ladino, judezmo), a língua dos judeus de Sefarad (a península ibérica), não por ele ser sefardita, que não é, mas como tributo a um idioma riquíssimo de sugestões artísticas e que, sem ser uma mescla de espanhol e português medievais (é língua autônoma), lembra-nos a todo instante as línguas portuguesa e espanhola de antes do século XVI.

Vejamos o poema XVII de Dibaxu: “um vento de separados / de beijos que não nos demos / dobra o trigo do teu ventre / suas açucenas com sol / vem / ou desejarei não ter nascido / traz tua água clara / os ramos florescerão / vê isto: / sou um menino tonto / tremo na noite / que cai de mim. Ou esta outra maravilha: “amar-te é isto: / uma palavra que vai falar / uma arvorezinha sem folhas / que dá sombra.”

Vários são os estudiosos de literatura contemporânea que consideram hoje Juan Gelman o maior poeta argentino vivo. Após ter seu nome reconhecido internacionalmente, já há décadas, o poeta continua o seu labor, indiferente ao mercado editorial e aos modismos, presenteando-nos com a verdadeira poesia (a mera e vera poesia, como dizia Gerardo Mello Mourão) bem diferentemente de inúmeros “poetas”, escrevinhadores de palavras sem nexo, parecidas com coisa vinda de neuróticos.

Julio Cortázar afirmou sobre Juan Gelman: “Talvez o mais admirável em sua poesia seja sua quase impensável ternura ali onde mais se justificaria o paroxismo do rechaço e da denúncia, sua invocação de tantas sombras por meio de uma voz que sossega e arrulha (…)” Felicitações aos editores e ao tradutor de Juan Gelman entre nós.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 19/01/2014