“SE DEVO A VIDA À MORTE, …”


No dia 17 de novembro passado, aqui nesta página do Diário do Nordeste, fiz uma exortação no sentido de que se estude mais a obra do imenso poeta Vinicius de Moraes (1913-1980), um dos maiores sonetistas do Brasil, em todos os tempos. Sabe-se o quanto este poeta e outro, Paulo Mendes Campos (1922-1991), foram amigos, tinham gostos em comum, como o pelo bom whisky, as animadas conversas em casa de Rubem Braga, o poeta da crônica brasileira e, não por último, escrituras que em muito se assemelham. Não se faz aqui uma generalização, pois tem-se que Vinicius, principalmente no início de sua escritura literária, exercitou muitíssimo a lírica amorosa com traços de uma metafísica pessoal. Foi a época, em sua profissão-de-fé como poeta, em que se observou a chamada “busca do sublime”, como o próprio Vinicius alguma vez declarou.

Em Paulo Mendes Campos, não obstante existirem traços definitórios do seu estilo que o colocam numa posição algo diversa, há que considerar-se que as similitudes não são poucas. Liam e debatiam sobre os mesmos autores, viveram uma época bem definida da literatura brasileira, já despojada da “ditadura do verso livre” que se intentou implantar a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, notadamente pelos poetas paulistas que se seguiram a Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo e tantos outros. Não se pode negar o contributo de 22: criou-se uma atmosfera mais propícia à criação literária (e artística, de um modo geral) com a inserção de temas eminentemente nacionais. O que houve foi a exageração desses postulados.

Sabe-se o quanto os dois (Vinicius e Paulo Mendes Campos) cultivaram o verso medido, bem estruturado em métrica e rima, com a adesão da chamada “Geração de 45”.

Voltando à trama inicial, a de estudarmos mais a obra de Vinicius, penso ser tempo de fazermos o mesmo com relação a Paulo Mendes Campos, senhor de uma poesia vazada em metáforas iluminadas e iluminadoras, sempre atento às manobras do tempo, ao passar dos fugazes instantes, à memória da infância (sob esta invocação tem um dos mais belos poemas da nossa literatura: “Infância”, com mil ressonãncias imorredouras em nós pois, claro, todos fomos crianças e adolecentes).

Num final de tarde, não lembro o dia, mas sei que foi em 1981, tive a honra e o prazer de tomar alguns whiskies com o querido poeta, em companhia do saudoso Rogaciano Leite Filho, aliás, o responsável pelo encontro, no Ideal Clube. Quando sentamos à mesa, perguntado sobre qual bebida desejava tomar, o poeta foi incisivo: “Tem que ser whisky e tem que ser Old Parr”. O Roga pediu três doses, ao que foi subitamente agarrado pelo braço, asseverando-lhe o poeta: “Três doses, não. Um litro de Old Parr. Eu pago”. Nós é que pagamos, ouvimos dele inúmeros desabafos e poemas que sabia de cor, inclusive o soneto “Epitáfio”, de uma enorme abrangência sobre o sentido da vida e  cujos três últimos versos são: “Para que me reflitas e me fites / estas turvas pupilas de cimento: / se devo a vida à morte, estamos quites”.

Luciano Maia
Diário do Nordeste, 5 de janeiro de 2014