O ESPAÇO MIORÍTICO



Poeta e filósofo. Um binômio rico e incômodo. Lucian Blaga (1895-1961) tem a sua obra poética e filosófica ainda pouco conhecida em nosso País. No entanto, toda ela foi traduzida em praticamente todos os países europeus e vários livros seus em países das Américas.

A Editora da UFC lançou, em 1998, uma coletânea de poemas de Blaga, trauduzidos diretamente do romeno, enfeixados no livro Dois poetas do espaço miorítico, juntamente com poemas de Mihai Eminescu, considerado  o poeta nacional da Romênia.

A altura e o espectro das metáforas de Lucian Blaga nos dizem, de imediato, tratar-se de um poeta afeito às sedutoras perguntas, àquelas perguntas que, no mais das vezes, não encontram respostas a partir do nosso precário entendimento das esferas metafísicas. “O que se transforma em poesia? / Apenas as coisas que se extinguem / passando a ser lembranças. / (…) Apenas a folha que cai / e o cansaço dos povos”. A pergunta lança-se, mas as respostas, ainda que nos convençam pela beleza lírica e pela envolvente plasticidade, fazem-nos novas perguntas…

Lucian Blaga nasceu numa aldeia nas proximidades de Sebes, na Transilvânia. Ao ingressar na Academia Romena em 5 de junho de 1937, pediu vênia aos seus pares para saudar a um ente imortal, mas não membro daquele sodalício, um membro da mais íntima vida do povo romeno: a aldeia. E esse discurso ali proferido foi uma verdadeira lição de telurismo e comunhão com o cosmos. Para Blaga, a aldeia não está situada numa geografia puramente material, nem na teia de determinantes mecânicos, como a cidade; pela sua própria consciência, a aldeia está situada no centro do mundo e se prolonga no mito. E a infância é a idade ideal para a absorção (comunhão) dessa beleza que a cidade perdeu. Ao contrtário do citadino, o aldeão vive a experiência do mundo como totalidade.

Esse cenário da infância do poeta está projetado em muitos – quase todos – dos seus escritos, tanto poéticos quanto filosóficos. O elogio da aldeia, como ficou conhecido o célebre pronunciamento quando do seu ingresso à Academia, é peça merecedora de muitos estudos exegéticos da chamada “alma da aldeia”. Há mesmo um poema com este título, onde diz o poeta: “Menina, põe as tuas mãos sobre os meus joelhos. / Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia. / (…) Olha, é noite. / A alma da aldeia volteia entre nós / como um perfume tímido de erva cortada, / como um evolar de fumaça de um beiral de palha, / como uma dança de cabritos sobre as sepulturas altas.”

Lucian Blaga é autor de um riquíssimo livro de ensaios intitulado O Espaço Miorítico. Este título remete ao que há de mais específico da alma romena, o espaço do pastoreio. Miorita significa corderinha; é um antiquíssimo poema popular onde um pastor, alertado pela miorita da trama de outros dois para matá-lo, resigna-se e pede que lhe contem à sua mãe que esposou a princesa divina do bosque, onde estrelas e pinheiros foram os padrinhos. Uma lenda ancestral que serviu a Blaga para moldar muitos dos seus poemas e muito do seu pensamento filosófico. E a doina, a entranhável e melancólica canção da Romênia, é a música de fundo.


Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, 16 de março de 2014