RAZÃO E CORAÇÃO


Não são tão numerosos os poetas que desenvolvem uma estética de equilíbrio entre a razão e o coração, isto é, entre o racional e o emocional. Marin Sorescu (1936- 1996), poeta romeno da contemporaneidade, autor de uma obra poética mais que significativa, expressiva e abrangente, diria, ainda que não tão extensa, caminha nessa diração: ao tempo em que nos convence da validade de suas assertivas de caráter ético e estético, nos comove com um lirismo pungente.

Ele é capaz de nos fazer refletir sobre o sentido da vida e, ao mesmo tempo, do seu absurdo: “Penso que adoeci de morte, um dia, quando nasci.” Quanta verdade nestas palavras! E – diga-se, entretanto – quanta divagação lírico-filosófica! Assim é praticamente toda a poesia que Marin Sorescu nos presenteou.

Ainda pouco conhecido no Brasil, Marin Sorescu teve, em 1995, uma antologia publicada pela Editora Giordano, de São Paulo, intitulada justamente Razão e Coração, em tradução minha. Esta antologia terá, nos próximos meses, uma re-edição. Para o leitor, extraio algumas passagens de poemas seus, a meu ver dignos de atenção: “O malabarista de circo é meu pai. / Foi chamado urgente para a noite / e deixou-me ficar / em seu lugar. / (…). O jogo é divertido, domino como posso / o mundo de bolas e arcos. / Mas, olha, é muito tarde / e o malabarista pai não volta mais.” Veja-se que o poeta nos alerta a todos sobre a efemeridade das nossas vidas. Um dia, o nosso pai será “chamado para a noite” e teremos que equilibrar bolas e arcos, com a sua mesma  destreza, sob pena de o nosso mundo cair. Essa metáfora é-nos posta de forma magistral, com um forte apelo à razão e um enternecido chamamento lírico.

O poeta excursiona entre grandes nomes da literatura universal, como Dante (“Nove céus de pecados, nove de espera, / nove de ilusões, / todos cheios até a borda. / E no meio deles / está Dante”) e Shakespeare (“Os diretores de teatro já tinham enchido a terra com seus cartazes / e Shakespeare pensou que depois de tanto trabalho / merecia ele próprio ver um espetáculo. / Mas antes, / como estava exaustivamente cansado, / foi morrer um pouco”).

É importante que atentemos para o significado de cada frase contida nos poemas de Sorescu, suas metáforas prenhes de símbolos marcantes. Reproduzo aqui parte do poema “A concha”, que nos remete à necessidade de nos encontrarmos a nós mesmos.  O gnoti se auton, do templo de Delfos: “Escondi-me numa concha, no fundo do mar, / mas esqueci-me em qual. / (…) / O fundo do mar me atrai e me espanta / com os seus milhares de conchas / semelhantes. / (…) Quantas vezes fui diretamente a uma concha / dizendo: ‘Este sou eu’. / Quando abria a concha / estava vazia.”

Não nos deslembremos das ciladas armadas pela própria vida. O poeta metaforiza as situações de risco e de enganadora paz. Rouba quadros dos museus, pensando levar consigo preciosidades, é perseguido pelos cães e, ao chegar em casa, altas horas da madrugada, descobre-se segurando debaixo do braço uma reprodução barata… Não nos enganemos: as grandes pequenezas não nos devem iludir como se fossem tesouros. O poeta tem consciência dessas brevidades, entre as quais a da própria vida. Percebe a verdadeira dimensão do mundo real (a razão) e do mundo surreal (a emoção).

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, 2 de março de 2014.