VERDADEIRO FIDALGO

      Quando, em 1946, o jovem Samir Jereissati, com 14 anos incompletos, saiu de sua cidade natal, Zahle, no Vale do Becá, no Líbano, cidade cujo nome veio a tornar-se familiar a muitos cearenses, em decorrência de nossa aproximação com os libaneses de lá oriundos – a imensa maioria deles é proveniente de Zahle – possivelmente não imaginava os rumos que iria tomar a sua vida na capital do Ceará.

     O jovem Samir logo começou a estudar (inclusive lições de português, língua que veio depois a dominar como um luso-falante) e trabalhar, passando por instituições  bancárias, empresas imobiliárias, vindo a formar-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará, tornando-se depois o advogado e o empresário de nome e respeito que tivemos a honra de conhecer e admirar.

     Mas não é exatamente ao empresário exitoso ou ao advogado brilhante que desejamos aqui saudar: pretendemos tecer o elogio do homem cuja dignidade e cavalheirismo o caracterizavam como a um verdadeiro fidalgo. O Dr. Samir Jaresissati não fazia o mínimo esforço em ser cordial e atencioso com todos que o procuravam. Ele era essencialmente cordial e cavalheiresco. É notória e consabida a sua conduta de gentilhomem, de esposo e pai amoroso. Creio ser oportuno aqui narrar o que um amigo nosso, o também cordialíssimo Anastásio de Sousa Marinho, lembra a respeito do Dr. Samir Jereissati. O adolescente jornaleiro Anastácio – depois, respeitado jornalista e empresário da comunicação – aos seus 13 anos, entregava os jornais pela manhã aos executivos, comerciantes e industriais daquele então; eram os anos 50 do século passado.  Conta-nos  ele que todos os dias, quando anunciava a chegada do jornal, o Dr. Samir Jereissati levantava-se da cadeira, vinha até a porta de seu gabinete, abria-a e convidava ao pequeno jornaleiro a entrar, recebia o jornal e, agradecendo, abria-lhe novamente a porta para que saísse, sempre desejando-lhe bom-dia. Gesto que, disse Anastácio, não era comum aos demais que recebiam o jornal.

     No dia em que o Dr. Samir partiu para outra dimensão ou, para usar a expressão de Guimarães Rosa, no dia em que ele se encantou, o nosso comum amigo Anastácio me telefona, diz que vai ao velório, mas pede que lhe poupe de vê-lo pela última vez. E narra outra vez essa bela história, que agora se reveste de um aura mítica, diria. Queria lembrá-lo abrindo-lhe a porta, sorrindo-lhe, agradecendo-lhe e dando-lhe bom-dia.

     Não foram poucas as vezes em que tive com ele diálogos sobre história, literatura, religião e outros temas tão distantes do dia-a-dia de um advogado-empresário. É que ele nutria, como poucos, o prazer de uma descoberta ou redescoberta deste ou daquele tempo, desta ou daquela geografia, desta ou daquela cultura. Também não foram poucos os livros que me presenteou sobre todas essas vertentes do conhecimento.

    Vale lembrar o testemunho de Emmanuel Vasconcelos, também nosso amigo comum, recordando as suas animadas conversas com o Dr. Samir Jareissati sobre história. Emmanuel não é um historiador profissional, mas conhece mais sobre história do que muitos deles. E de Napoleão Nunes Maia Filho, jurista de notório saber e humanista convicto, lembrando a temperança e a sabedoria deste homem, cuja experiência terrena muito nos ensinou a enaltecer as virtudes, no mais das vezes, adormecidas em nós, bastando, para que elas despertem, que nos tornemos mais atenciosos e compreensivos com os demais. O Dr. Samir conhecia bem essa dimensão humana: a possível convivência com a alteridade.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, 23 de março de 2014