ALTURAS ESTELARES

As estéticas, em qualquer âmbito  (literatura, arquitetura, teatro, pintura, escultura…), parecem nascer da necessidade de superação da estética imediatamente precedente. Assim, o Barroco foi superado pelo Neoclassicismo e este foi negado pelo Romantismo e assim por diante. Anteriormente, o Renascimento já havia superado a estética medieval, tendo este sido superado pelo Barroco. Trata-se de um movimento dialético onde a estética a ser negada é a tese, de que surge a antítese, com a vinda da síntese, já no momento em que esta servirá de tese para nova antítese. Esse processo pode durar muito ou pouco tempo, dependendo das condições sociais, políticas e culturais de cada meio.

Pois bem: como reação ao racionalismo filosófico, herdeiro dos ideais iluministas da estética neoclássica, o movimento romântico surgiu em fins do Século XVIII, primeiro na Alemanha, logo depois na Inglaterra e na França, para depois espalhar-se pela Europa e, ao final, pelo mundo. Esse movimento propugnava por uma maior liberdade de criação, ao tempo em que exaltava valores tais como a mitologia, as lendas ancestrais, a coragem, o heroísmo, a busca do paraíso perdido (em algum lugar, não neste mundo nem neste tempo, ou seja, uma espécie de evasão) e, não por último, o amor ideal.

Como movimento estético, o Romantismo construiu em nossas mentes algo como um espécie de axioma: o amor é romântico. Alguns poetas levaram esse postulado ao paroxismo. Mihai Eminescu (1850-1889), considerado o poeta nacional da Romênia, foi um romântico tardio, tal como sucedeu com os poetas da América Latina: interessante notar que a poesia romântica serviu, tanto na Europa do Leste, como em países da América Latina, de bandeira de luta pela independência e pela superação de ordens políticas atrasadas, tudo sem esquecer a louvação do amor ideal.

Em Mihai Eminescu, gênio que resplandece em criações iluminadas, o Romantismo encontrou um demiurgo. Poeta total, o seu estro perseguia as alturas desmedidas, a sede de Absoluto era a sua mais intensa obsessão. Sede que não foi nunca mitigada, por força de aspirações tão altas. Não é demais fazer-se uma comparação com Castro Alves, no sentido de que ambos os poetas nasceram, brilharam intensamente e morreram jovens.

Destaquemos aqui o poema “La steaua” (À estrela), do poeta romeno: fascinado pelo movimento da luz e dos astros no infinito cosmos, o poeta diz que “até a estrela que surgiu / há um caminho tão longo, / que foram necessários milhares e milhares de anos / para que a sua luz chegasse até nós” (tradução literal). Assim, pode ser que ela já tenha morrido e, agora que a vemos, já não exista mais. E nos conforta: “Também assim, quando a paixão / se apaga em noite infinda, / do extinto amor no coração / a luz nos segue ainda”.

É por conta de criações como esta que, em linguagem corrente, diz-se que o romantismo (não se fala agora da estética literária, mas do lirismo próprio aos namorados) é a pedra de toque dos amantes. Quem não se comove com tamanho jorro de luz e lirismo? O Romantismo pode estar na contramão da história; é natural. Como visão de mundo, é imortal.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, domingo, 6 de abril de 2014.