CICLO LÍRICO



Nos anos 1930 começou Salvador Espriu (1913-1985) a escrever os seus poemas. Desde o início (primeiro livro: Israel, 1931, escrito em castelhano) esse poeta catalão a quem muito se deve o regresso a uma literatura rica e cheia de significados maiores, em língua catalã, pontificou como um luminar. Poeta verdadeiro, no sentido integral do termo.

     A sua poesia é marcada pela assimilação da herança mítica da Humanidade: O Livro dos Mortos do Egito Antigo, a Mística Judaica, a Bíblia e a Mitologia Grega, dentre outras obras de referência nesse campo.

     O poeta catalão desenvolveu em cinco dos seus livros de poemas o chamado “ciclo lírico” de sua poesia: Cemitério em Sinera, 1946; As horas e Mrs. Death, 1952; O caminhante e o muro, 1954 e Final do labirinto, 1955, livros em que Salvador Espriu expressa toda a sua pungente forma de denunciar os horrores da morte.

     Esses cinco livros, conquanto tenham sido publicados num período de mais de dez anos, guardam entre si uma teia que os agrupa tematicamente. Foi publicado em Barcelona, em 2009, um volume intitulado justamente Cicle Líric, enfeixando os cinco livros referidos, dos quais alguns poemas foram traduzidos para o português.

     Destaquemos os poemas  “Oferecido a Cérbero”, do livro As horas e “Os músicos cegos”, do livro Mrs. Death: no primeiro poema, Salvador Espriu vai ao paroxismo da ironia, diante do cão mítico: “Doei a minha vida às palavras / e me fiz lenta pastagem desta fome canina. (…) / Agora danço com dor, para que riam às gargalhadas / e possa obter o aplauso de mil ladridos / e me coroem com um barrete de guizos.” Este tom de resignada ironia parece ter endereço aos tristes poetas que se debruçam sobre palavras e fazem vaguear o pensameto em torno de criações que não se leem e, ao final, completamente vencidos, vão bailar a sua dor para os ladridos dos cães. Em “Os músicos cegos” o poeta é ainda mais contundente diante da pobreza, da indirença do mundo e da morte: “’Quem sabe em que festa / ganharam um difícil / pedaço de pão. Vêm agora / vacilantes pela rua  / cheia e lodo, pela água, / até o repouso de tumbas. // Um fagote, um patético / violino, na dança / suburbana dos tristes / mortos amigos. Mais profundas, / com excessiva mensagem de prêmio ou de condenação, / as trombetas do Juízo Final.”
Essa imagem dos tristes cegos caiminhando de volta à casa (“ao repouso de tumbas”)
é aterradora.

     Salvador Espriu viveu, real e literariamente, ou seja, em sua ficção poética, a contradição do desejo de redenção dos seus mortos, porém com a vontade de uma paz metafísica, impossibilitada de ser alcançada, tanto na vida coletiva, quanto na pessoal, o que o fazia tentar distanciar-se da coletividade e de sua recordações pessoais.


Poeta profundamente marcado com os horrores da II Guerra e, já antes, com a guerra civil espanhola, Espriu desenvolveu uma escritura poética de enorme vinculação com o destino do homem, principalmente do homem despossuído e do amordaçado (não esqueçamos que a língua catalã era proibida durante o franquismo). É antológico o poema XLVI, do livro A pele de touro, em que clama: “Às vezes é necessário e forçoso que um homem morra por um povo. / Mas jamais há de morrer todo um povo por um homem só.”

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, domingo, 20 de abril de 2014.