A CANÇÃO ARAUCANA


Em língua espanhola, ao lado de nomes como Federico García Lorca (1898-1936), Cesar Vallejo (1892-1938), Jorge Luis Borges (1899-1986) e Antonio Machado (1875-1939), poucos terão alcançado a altitude da pergunta poética como Pablo Neruda (1904-1973), chileno de Parral, cidadezinha no sul do Chile, de onde partiu para comover e convencer o mundo com sua força lírica e épica. Desde o seu primeiro livro (Crepusculario (1920), Neruda (cujo nome real era Neftali Ricardo Reyes Basoalto) já demonstrou a sua imensa capacidade criadora, com uma linguagem renovada, sem perder-se do fio condutor da lírica em castelhano. Filho de um ferroviário, O jovem Ricardo foi para Santiago, onde estudou e se fez conhecido como poeta fecundo e inspirado.

Adotando já o nome de Pablo Neruda (em homenagem a um obscuro poeta tcheco, Ian Neruda), consagrou-se com o livro 20 Poemas de Amor y una Canción Desesperada (1923), considerado o Cântico dos Cânticos do amor profano por muitos dos estudiosos da obra desse araucano ilustre.

Este livro marcou a juventude minha e de muitos amigos de forma impactante. Tenho ainda de cor vários dos poemas alí contidos e alguns deles, como o que começa: “Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos, te pareces al mundo en tu actitud de entrega…” vararam muitas madrugadas nesta Fortaleza, nos anos 70 e início dos anos 80 do século passado.

A sua obra mais vasta (e talvez a mais significativa) é o Canto General (1950), obra que começou a escrever clandestinamente no Chile desde 1948. Para conseguir o seu intento, Neruda atravessou a Cordilheira dos Andes como um andarilho, andando a cavalo, a pé, dormindo ao relento, em casas sombrias, lugarejos remotos, até que nos ofereceu este esplendoroso poema épico, cuja primeira edição a alcançar o mundo hispânico apareceu na Cidade do México.

O Canto Geral tem traduções em todas as línguas de prestígio do planeta e até em línguas ditas menores; é a consagração deste poeta que, em “Alturas Macchu Picchu” (parte integrante do Canto Geral) nos dá o testemunho do povo sepultado na história que foi a sua anti-história: (“… Sube a nacer conmigo, hermano. / Dame la mano desde la profunda / zona de tu dolor diseminado. (…) /  Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta / (…) Acudí a mis venas y a mi boca. / Hablad por mis palabras y mi sangre.”

Neruda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e, voltando ao Chile, teve que presenciar (ou disso tomar notícia, pois estava internado num hospital) o golpe militar desferido em 1973 e que daria cabo à vida do Presidente constitucional do Chile, Salvador Allende, seu amigo fiel e companheiro de lutas. Neruda faleceu no dia 23 de setembro daquele ano, onze dias após o banho de sangue (que ainda seguiria por muitos anos) que jorrou sobre a cordilheira.

Assim foi e, lamentavelmente, parece que assim será sempre: virão os poetas e, com eles, a temporada de pássaros, como disse um preclaro amigo; depois, virá a temporada de caça e, com ela, os verdugos, os tiranos, o amordaçamento. Ao final, contudo, esses últimos, que parecem julgar-se eternos, vão-se sem deixar saudades, enquanto os poetas permanecerão vivos na memória do seu povo. Dedico estas linhas ao meu amigo Thiago de Mello, poeta-cantor das noites claras, com o seu verbo solidário.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 18/05/14