ROMANCERO GITANO

O que ainda escrever sobre Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 1898 – Granada, 1936), talvez o poeta espanhol de maior reconhecimento internacional?  De sua obra tão vasta, em que se incluem teatro, artes plásticas, ensaios e, acima de tudo, uma poesia primorosa, já se disse muito. Mas talvez valha a pena uma referência, ainda que passageira, a alguns poemas do Romancero Gitano (1927).

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, 1899 – Genebra, 1986), o esplêndido poeta de Fervor de Buenos Aires, do alto de sua visão muito pessoal e privilegiada (era um aristocrata, com suas excentricidades e seu talento enorme: gostava de tangos e milongas!) afirmou, não sem certa dose de ironia e desdém, que os ciganos não serviam para muita coisa, sendo uma, entretanto, certa: inspiravam os maus poetas… Não há dúvidas de que Borges conhecia muito bem a poesia lorquiana. Se com essa diatribe quis diminuir o poeta andaluz, parece que não conseguiu…

Quem conhece a poesia de Federico García Lorca sabe do fascínio que em certos poemas exerciam os gitanos sobre o seu estro. Há quem diga que lhe corria nas veias sangue cigano. Seja como for, o que parece irrefutável é a magia que se desprende dos poemas do Romancero Gitano: “Foge, lua, lua, lua. / Se vierem os gitanos, / farão do teu coração / colares e aneis mui brancos.” Veja-se a atmosfera de bruxedo, na relação da lua com a presença dos ciganos, estes capazes de fazer dela uma fonte de objetos mágicos. A lua, que para os desconhecedores dos seus mistérios, não representa nada.

Do mesmo livro, no “Romance da Guarda Civil Espanhola”, Federico parece pressentir a noite funesta abater-se sobre o seu povo: “Os cavalos negros são. / As ferraduras são negras. / (…) Oh, cidade dos gitanos! / A guarda Civil se afasta / por um túnel de silêncio / enquanto as chamas te cercam.” Poeta vatis.

Terá sido este poema, como parece a alguns, suficiente motivo para o fuzilamento do poeta? Viviam os espanhois, naqueles então, dias duríssimos, desde o golpe franquista contra a República Espanhola. Federico era republicano, seus melhores amigos o eram. Mas o poeta, em que pesem as suas convicções políticas ou ideológicas, não era exatamente um combatente, no sentido exato do termo. Terá sido este poema o bastante para a sua condenação? Ou terão sido inimigos isolados que aproveitaram o momento para “atirar-lhe na cara, em seus olhos andaluzes, em sua boca de palavras”, como denunciou o nosso Vinícius, em seu poema “A morte de madrugada”? A essas perguntas talvez não haja respostas conclusivas, mas sabemos o quanto esse andaluz de “coração tão deveras”, que escreveu também em língua galega (Seis poemas galegos), idioma  materno do ditador e pelo ditador proscrito das escolas, representou e ainda representa para a alma, para o caráter entranhavelmente espanhol do seu povo, na busca de uma liberdade jamais permtida pelos tiranos, ainda que, com o tempo, estes passem e permaneçam conosco os poetas, vítimas das ditaduras que se pensam eternas, sendo, entretanto, passageiras, se contamos os tempo como fazem os que creem na validade da essência humana. Era este o caso de Federico García Lorca.


Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, 4 de maio de 2014.