A NAI DOS GALEGOS


A mãe dos galegos, sintagma que intitula estas linhas, prentende homenagear Rosalía de Castro (1837-1885), a autora de Cantares gallegos, livro publicado em Vigo em 1863, em que ela empresta dignidade poética à cultura popular. Àquele então, a língua galega, através dos seus mais destacados escritores, lutava pela afirmação literária. Sabe-se que a língua galega estava sob o influxo linguístico do castelhano, por vários motivos, princicpalmente políticos. Era a época do chamado Rexurdimento. O aparecimento de Cantares Gallegos é considerado o marco inicial desse movimento literário.

Rosalía de Castro, ao lado de nomes como Eduardo Pondal (1835-1917), Manuel Curros Enríquez  (1851-1908) e Manuel Murguía (1833-1923), dentre outros, pontifica, não somente no cenário literário galego propriamente dito, mas em toda a península ibérica e no exterior. Com Manuel Murguía casou-se Rosalía em 1858. Refere-se esta união porque foi Murguía o maior incentivador da autora de Follas Novas, livro que, diferentemente de Cantares Gallegos, em que se sente ainda a influência do castelhano, já veio escrito totalmente em língua galega.

A poesia de Rosalía de Castro é impregnada de um lirismo maternal, que aproxima sempre a sua expressão mais profunda aos anseios e vicissitudes do seu povo. Esse lirismo cede às vezes a uma expressão colérica, por força, certamente, da intenção da autora em denunciar a opressão centralista de Madrid. Momentos há em seu primeiro livro, aqui referido, de revolta contra os “castellanos de Castilla”. A jovem Rosalía escreve, dirigindo-se a Castela: “a mala lei aque che teño”.

É talvez impossível encontrar ne literatura espanhola uma expressão tão dura, quanto a que Rosalía empresta a uma mulher desamparada. No trecho que se segue temos provavelmente o poeta a falar pela boca de uma mulher de emigrante: “Non cuidaréi xa os rosales / que teño seus, nin as pombas; / que sequen, como me seco, / que morran, como me morro.” E adiante deplora a condição do seu povo, obrigado a emigrar – para onde , se o mar não tem varandas? “Si o mar tivera barandas / fórate ver ó Brasil, / mais o mar non ten barandas, / amor meu, dónde hei de ir?”

Rosalía de Castro, “a nai dos galegos”, é uma voz suave e, ao mesmo passo, forte da literatura em língua galega, a língua que deu nascimento ao idioma português. Na verdade, os dois idiomas eram um só, desde o seu embrião na Idade Média até a separação definitiva por questões de ordem política, quando a Galícia restou presa à coroa espanhola e Portugal aventurou-se por “mares nunca dantes navegados”, enriquecendo a sua língua com o aporte de vários outros idiomas, a começar pelo árabe, quando da Reconquista.

“A mãe dos galegos” ficou eternizada em seus cantares e seus gemidos, em seus louvores à sua terra e em suas imprecações contra a opressão. A sua voz ressoa hoje como ontem e por certo no futuro ressoará aos ouvidos de quantos tenham a poesia como fonte de elevação do espírito : “Deixa que nessa copa en donde bebes / as dozuras da vida, / unha gota de fel, unha tan sóio, / o meu dorido corazón exprima. / Comprenderás entonces / cómo abranda a delor as pedras frías, / anque abrandar non poida / almas de ferro e peitos homicidas.”


Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste, em 29 de junho de 2014