HOMEM CORDIAL?

Em carta endereçada de Marselha a Alfonso Reyes (1898-1963), então Embaixador do México na capital da República (Rio de Janeiro, à época), datada de 7 de março de 1931, Ribeiro Couto (1898-1963) utilizou o sintagma “homem cordial”, para referir-se às pessoas nascidas na América Latina, uma “raça nova”, produto da miscigenação entre os nativos, os negros vindos da África e os ibéricos. Vejamos parte do texto dessa missiva: “O homem ibérico puro é um erro. (…) É da fusão do homem ibérico com a terra nova e as raças primitivas que deve sair o ‘sentido americano’ (latino), a raça nova (…), o homem cordial” Mais adiante, Ribeiro Couto enumera várias virtudes desse “homem cordial”, entre elas a afabilidade, a hospitalidade, a informalidade, a afetividade…

Em Raízes do Brasil, publicado em 1936 pela Editora José Olympio, Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) tomou deliberadamente emprestado o sintagma “homem cordial”, mas utilizando-o de forma um quanto diversa da empregada por Ribeiro Couto. No terceiro capitulo do citado livro, Sérgio Buarque de Holanda emprega-o com o sentido da pessoa que age mais por impulso (pelo coração), do que pela razão. Desta vez, a expressão não se aplica ao homem afável, hospitaleiro e informal, identificado na carta de Ribeiro Couto a Alfonso Reyes. Em Raízes do Brasil, a palavra cordial recupera o seu sentido etimológico primordial, derivando de cordis (coração, em latim). Assim, o termo valerá tanto para o lado apontado pelo autor de Um homem na multidão, quanto para designar a pessoa que a muito custo consegue observar impessoalmente as regras  da vida em sociedade, ou seja, alguém que trata com pessoalidade a coisa pública, imprimindo às suas ações um caráter individualizado no trato com o coletivo.

Essa apreciação do grande historiador e sociólogo paulista suscitou um artigo de Cassiano Ricardo (1895-1974) na revista Colégio em 1948. Para o poeta Cassiano Ricardo, a expressão “homem cordial” estaria vinculada à bondade e à gentileza, aliás, características apontadas com anterioridade por Ribeiro Couto. A crítica de Cassiano Ricardo foi incorporada às edições ulteriores de Raízes do Brasil.

Agora, passados tantos anos desde que pela primeira vez usou-se a expressão que intitula estas palavras, temos em A identidade cultural pós-moderna, de Stuart Hall (1932-2014), referindo-se ao homem contemporâneo: “Eles são o produto das novas diásporas criadas pelas migrações pós-coloniais, a falar duas linguagens culturais, a traduzir e a negociar com elas.” Seria o “homem traduzido”.

Quedam as perguntas: será que o homem cordial de Ribeiro Couto existiu ou existe ainda? Será que o sentido que a expressou ganhou em Sérgio Buarque de Holanda explica melhor o homo brasiliensis? Diante do que temos assistido nas últimas décadas nas grande cidades brasileiras, não estaria o homem cordial fadado ao isolamento?A crise de autoridade a que assistimos atualmente em nosso país, aliada à crise política e ética, determinarão o fim daquele homem idealizado por Ribeiro Couto?

Talvez seja prudente não dar-se agora uma resposta a essas indagações, mas  a marcha da sociedade brasileira para um estado de quase conflagração, isso vê-se claramente, num perigoso sintoma de geral descrença e desrespeito com a alteridade. Homem cordial?

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 15/06/2014