SEM SEPULTURA

Na esquina de um subúrbio, o passo enfim detido
ante a pressa prendida à crua indiferença
um brasileiro adulto, há muito desnutrido
achega-se ao batente e dorme, sem que o vença
o barulho da rua, esse eterno ruído
da louca correria, do medo e da descrença.
Seu sono não o descansa, é um sono sofrido
intranquilo demais, que não o recompensa
de ter chegado ali, enfim, de ter vivido.
A vida foi-lhe sempre um repetido insulto
e a morte, a Desejada, o sonho mais querido.
Não praticou um crime e assim merece o indulto
de ser mais um em meio a um povo desvalido…
Esse homem é nosso irmão, o que dorme insepulto.

LM