TRILCE


Pablo Neruda (1904-1973) referia-se a Cesar Vallejo (1892-1938) como sendo melhor poeta do que ele. Cesar Vallejo, peruano de Santiago de Chuco, foi jovem para a cidade de Trujillo onde, a muito custo (dificuldades financeiras intransponíveis) conseguiu formar-se professor na Faculdade de Filosofia e Letras. Como não bastassem as agruras sofridas, teve que se mudar para Lima, por problemas amorosos. Ali trabalhou como Diretor de Escola. Conheceu a obra do poeta anarquista Manuel González Prada (1844-1849), de quem parece ter recebido influência temática e estética. Publicou seu primeiro livro (Los heraldos negros, 1919), obtendo uma boa recepção por parte do público e da crítica, apesar de haverem sido impressos apenas 200 exemplares.

Em 1920 foi preso, acusado de agitador ideológico. Na prisão, escreveu Trilce (1922) e, em liberdade, ainda o publcou em Lima. Fugindo das perseguições de natureza política, parte em 1923 para Paris, onde conhece vários artistas e escritores, entre os quais Pablo Picasso (1881-1973), que fez o retrato de Vallejo, hoje célebre. Jamais regressaria ao Peru.

Em Paris, vive miseravelmente, chegando a passar fome. Consegue empregos irrisórios, mas não lhe falta ânimo para escrever uma poesia em linguagem renovada, associada à vanguarda europeia daquele então.

Expulso da França, parte para a Espanha, de onde regressou em 1931. Conhece Georgette Philipart (1908-1984), que se torna sua fiel companheira. Com ela, casa-se em 1934. Com a eclosão da Guerra Civil Espanhola, engaja-se na causa republicana, sendo desse período o livro España, aparta de mi este caliz (1937).

O seu livro Trilce (neologismo inventado por Vallejo que parece fundir as palavras “triste” e “dulce”) alcançou numerosas edições em vários idiomas e é apontado por muitos como um dos mais belos monumentos literários do século XX, em todo o mundo. O frade trapista da Abadia de Ghethsemani no Kentuck, Thomas Merton (1915-1968), também poeta e estudioso das religiões comparadas, afirmou ser Cesar Vallejo “o mais importante poeta universal depois de Dante.”

Pouco conhecido no Brasil, pelo menos por um público mais amplo, Cesar Vallejo teve sua obra poética completa traduzida por Thiago de Mello. Um trabalho gigantesco, principalmente se levarmos em conta as dificuldades que se apresentam sob os vários aspectos que rodeiam o ato de traduzir, nomeadamente em Cesar Vallejo: linguagem neológica, arcaísmos, palavras nativas do Peru, preciosidades da língua castelhana, todos eles, elementos constantes na escritura do poeta peruano.

Na apresentação do livro traduzido por Thiago de Mello, escreveu Gerardo Mello Mourão (1917-2007):  “No comovido discurso de Aragon à beira do seu túmulo, em que lembrava a fidelidade humana de sua vida e de sua obra, o grande poeta francês pronunciou um juramento: o de manter sempre viva a obra de Vallejo. É um pouco a continuação desse juramento o que se está fazendo com a edição brasileira aqui apresentada.”


Um poeta de difícil leitura, mas não para os que veem na própria poesia a sublimação de todas as artes. Cesar Vallejo foi um precursor na América Latina. E foi um surrealista avant-la-lettre.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 01/06/2014