ORGULHO VERSUS UFANISMO

O jogo de futebol de logo mais, entre Alemanha e Argentina, configura um cenário bem interessante: durante o desenrolar do torneio, houve tanta discussão, pontos-de-vista contraditórios em torno das perspectivas de cada selecionado! No caso da seleção brasileira, então, o caso é de paroxismo.

     Havia os derrotistas de todo tipo, engalfinhados com os ufanistas de todo tipo. Manter-se no equilíbrio, eis uma atitude árdua. Como nos protestos (invadidos por oportunistas e arruaceiros) de junho de 2013: quem era a favor, poderia ser taxado de bolchevista. Quem era contra, seria considerado nazista. Poucos vislumbraram o momento histórico, infelizmente passado por nós como um relâmpago. A Copa das Confederações, naquele então, era o vetor.

     Voltemos ao nosso selecionado: venceu a Copa das Confederações, jogou partidas regulares e até boas, nunca brilhantes. Mas o fato de ter levantado a taça suscitou em muitos, penso que na maioria, uma expectativa mais que otimista. O treinador, o famigerado Felipão de outras copas, considerado o paizão da moçada. O clima era enganoso.

     O jogo de logo mais encerra a querela, vença quem vencer. É chegada a hora de nos determos um poucuo mais sobre o que significa orgulho e o que significa ufanismo. O primeiro, em se tratando de cidadania, civismo e outros valores correlatos, não pode ser execrado. O segundo, sob qualquer ponto de vista, parece perigoso e enganador.
     Vejamos: em conversa com qualquer alemão (refiro-me ao alemão tido como o mais tipicamente alemão), sente-se de imediato o orgulho de pertinência ao país, ao povo, sente-se uma consciência de nacionalidade, longe do nacionalismo e ufanismo hitlerista do século passado. Consciência de nacionalidade, não nacionalismo. A seleção alemã é apenas um símbolo disso. Mas um símbolo altamente convincente.
     No caso brasileiro, dá-se o contrário: um ufanismo paroxista em luta com um derrotismo simplório. Nem uma coisa nem outra aproveita à situação em que a seleção brasileira parte para o confronto com outra. O treinador, o famigerado Felipão, não é um técnico que prima pelo estudo tático. É o “homem cordial” na versão de Sérgio Buarque de Holanda: nada de afabilidade, mas atitudes arrogantes e paternalistas, própria de um emulador, de um incentivador a todo custo,  que busca imprimir com sua individualidade o selo sobre o coletivo.
     No nosso caso, vê-se que isto não é o que mais convém a um selecionado: provoca ufanismo e, na derrota, um sentimento de inferioridade, causado pela falta de consciência nacional, daquele orgulho natural de pertinência a um povo, a um país. As duas palavras (orgulho e ufanismo) não se casam, jamais. Fala-se aqui do orgulho com honradez, sem desdém, e do ufanismo advindo da platitude, da inconsciência.

     O ufanismo, quando vencido, torna-se derrotismo simplório. O orgulho, em equilíbrio, aceita a derrota, sem sentimento de inferioridade. Inclusive porque não se resume a uma partida de um jogo qualquer. Está enraizado em valores mais altos e mais duradouros. A partida das 16 horas deverá comprovar essas assertivas.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 13/07/2014