OS CELTAS, HOJE (parte II)

Dando continuidade ao que se disse domingo passado, estão os celtas assim meio encantoados no noroeste da Europa, onde habitam irlandes, escoceses, galeses e bretões, sem falarmos dos pretendidos celtas da Galícia, no noroeste da Espanha. Há um movimento entre vários intelectuais galegos, o chamado celtismo. Sobre isto, há quem sustente que a gaita galega e a gaita escocesa são irmãs, quer dizer, tanto galegos quanto escoceses reconhecem-se reciprocamente em suas remotas origens celtas. O historiador grego Heclateu de Mileto já referia o povo celta em 517 A.C., ou seja, muito antes do chamado período das grandes migrações que modificaram o mapa étnico de toda a Europa. Os gregos os chamavam kéltis, com o significado de “ocultos”. Toda a misteriosa religiosidade e espiritualidade celtas têm a ver com ocultismo, efetivamente.

Alguns historiadores, inclusive contemporâneos, entre os quais espanhóis, franceses e britânicos, relatam que ao pé do Monte Medulio, na Galícia, teria havido um suicidio coletivo dos celtas que habitavam o norte daquela região peninsular, nas proximidades de A Cruña (La Coruña, em espanhol), para não se sujeitarem ao domínio romano, isso por volta de 19 A.C. Fundando-se nesses argumentos, haver-se-á de chegar à conclusão de que os galegos são celtas apenas na memória longínqua, sendo mais aparentados com os outros povos da península ibérica, mais estreitamente com os lusitanos.

Deixemos por enquanto de lado os galegos e adentremos o território irlandês, a começar por Dublin, uma cidade cortada pelo rio Liffey onde, no verão, muitos nadam em suas águas, saltando das várias pontes ali existentes, entre as quais a Seán Heuston, a James Joyce, a Roy O’more, a mais antiga (a Mellows, de 1768) e tantas mais. A Dublin ao sul do Liffey é a mais procurada pelos visitantes, em virtude dos inúmeros pubs ao longo das ruas do Temple Bar. Nesse bairro boêmio, na rua Anglesea, há um muito antigo pub, The Oliver St. John Gogarty, onde se tocam e se cantam músicas tradicionais. Pode-se facilmente dectetar a influência que elas exerceram de forma contundente na chamada música country norteamericana. Há também as excelentes livrarias. Pode-se adquirir livros em gaélico (com a devida tradução inglesa). Quem for curioso das línguas, não resistirá à tentação de excursionar, ainda que engatinhando, pela literatura em língua gaélica… com um dicionário à mão, claro.

É fácil sentir-se à vontade em Dublin: os irlandeses são expansivos, assim como os escoceses. Em Edimburgo, cidade emblemática para os escoceses, defruta-se de um clima suave e aconchegante no verão, também com seus imúmeros barzinhos da rua Grassmarket, desde os escoceses propriamente ditos, como italianos, franceses e até… árabes. Há a cultura do pub, em qualquer cidade britânica, sabe-se. Mas as irlandesas e escocesas têm um algo a mais… inexplicável.

Pois bem: os celtas, ou talvez melhor dito, os orgulhosos descendentes dos celtas têm muito a nos mostrar, também em termos de literatura. Como se sabe, nomes como William B.Yeats (1865-1939), Oscar Wilde (18545-1900), Bernard Shaw (1856-1950),  James Joyce (1882-1941), Samuel Beckett (1906-1989) na Irlanda; e Walter Scott (1771-1832), Robert Stevenson (1850-1894, Rudyard Kipling (1865-1936), Charles Dickens (1812-1870), Arthur Conan Doyle (1859-1930) na Escócia, além de muitíssimos outros, dignificam a literatura universal. Alguns deles influenciaram inclusive o nascimento da verdadeira literatura brasileira, que teve início com os românticos. Como exemplo, José de Alencar (1829-1877), epígono de Walter Scott.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 24/08/2014