SOBRE O SOLO SAGRADO


Solo Sagrado, de Révia Herculano, lançado recentemente, resgata nomes, episódios, topografias e toponímias de um tempo e de um cenário histórico merecedores não apenas de leituras, mas de profundas reflexões. O chão sagrado do Cariri é neste livro palmilhado com a curiosidade que se empresta aos viageiros sedentos de novidades antigas, embuçadas nas mal contadas histórias do nosso passado. Os protagonistas, nem sempre, são assim nomeados pela chamada historiografia oficial.

     As ruínas do Caldeirão e a figura emblemática do beato José Lourenço; o retirante deserdado em busca de um refúgio na compaixão divina; os passos do Padre Cícero Romão Batista, desde o real ou mítico Curato de São Fidelis – o Crato onde nasceu – até a sua missão em Juazeiro do Norte; o  médico baiano Floro Bartolomeu e sua decisiva influência entre os jagunços; os sermões do Padre Monteiro e do Padre Ibiapina, que deixou o mundo, a beleza e o amor de Anas, Amélias, Teodoras e Domitilas, sem deixar a ordem sacerdotal, onde encontrou tantas verdades; a beata Maria de Araújo e os enigmáticos acontecimentos em torno de sua pessoa, todos esses personagens e todas essas paisagens partilham o chão sagrado do Cariri, que neste livro é o solo a que se destinaram essas almas.

     Estamos diante de uma obra que, pelo seu conteúdo de resgate, reveste-se de contornos épicos sendo, ao mesmo passo, um testemumnho lírico, algo perfeitamente adequado, não apenas ao poema narrativo clássico, como às formas pós-modernas. A maioria dos textos não dispensa a rima e a métrica sem, no entanto, submeterem-se de forma ortodoxa a esses paradigmas, hoje quase banidos dos poemas pelos autores que não reconhecem, ou melhor, não conhecem o seu valor na tessitura poemática.

     Alguns críticos e estudiosos do fenômeno poético afirmam que o épico é algo ultrapassado, que em nossos dias não há lugar para o poema narrativo, heroico, seja histórico ou fantástico. Pois acreditem: segundo quero crer, a época em que vivemos  está a nos exigir um testemunho à altura dos anseios dos povos, inclusive daquelas aspirações frustradas, perdidas, que correm subterraneamente, à espera de despontarem adiante, feito um rio que regressa ao solo ressequido. Isto é a Épica. Isso de que a História chegou ao fim é uma das balelas mais extraordinariamente impostas pelos que acreditam no deus-mercado e no fim da dignidade humana. Este atributo – o da dignidade humana – está apenas despontando entre os mortais, muitos tão deserdados ainda de um quinhão de respeitabilidade em suas pobres vidas.

     O livro de Révia Herculano possui luz própria. Isto quer dizer que o corpus deste poemário não se prende de forma factual e datada às narrativas nele contidas, fruto, sim, de uma pesquisa histórica e mesmo etnográfica, mas também resultado de uma fértil fabulação, como convém à escritura poética.

     Solo Sagrado está semeado de imprevistas metáforas, o que, por si só, lhe confere o estatuto de vera poesia. A autora junta o silêncio do pássaro à sequidão do riacho, mas acorda cantigas ancestrais, que se fundem nas águas dos rios do Cariri e do Ceará, repassadas com a reverência profunda com que se deve assistir a esses cantos.

     Há nele  uma manifestação peculiar de vida, de morte, de desamparo e de esperança. Mas, acima de tudo, há nele o pulsar de um testemunho sincero e corajoso, solidário e imensamente humano. O resto é destino. Destino poético.

Luciano Maia
Publicado no Diário do Nordeste em 07/09/ 2014