FALEMOS DE BOCAGE



O poeta português nasceu em Setúbal em 1765 e era filho de família ilustre. O pai foi juiz de direito e depois advogado. A sua mãe era filha de Gil Hedois du Bocage, Almirante francês que veio a Portugal em 1704 para reorganizar a Marinha de Guerra portuguesa. Apesar de bem nascido, o sofrimento, desde a infância, perseguiu Manoel Maria. Seu pai foi preso quando ele era ainda menino de seis anos. A sua vida guarda ainda muitos mistérios: não se sabe com certeza em que e quando se graduou, sendo porém certo que estudou francês e latim, além de mitologia grega e latina. Também os seus amores são outro território insondável. Fala-se de uma paixão não correspondida e a entrega ao vício da bebida e à vida mundana, com vários incidentes com a segurança pública. Bocage é mais conhecido pelo seu lado fescenino. Em Lisboa, no famoso Rossio, há o Café Nicola, fundado em 1787! É famoso o episódio em que Bocage, altas horas da madrugada, é interceptado pela Guarda Civil e inquirido: “Diga quem é, de onde vem e para onde vai!”. Bocage levanta os braços e brada: “Sou o poeta Bocage, / venho do Café Nicola / e irei pro outro mundo / se me dispara a pistola!”. “Devoto incensador de mil deidades”, escreveu Bocage, ao mesmo tempo “inimigo de hipócritas e frades”. Neste soneto (“Autorretrato”), em que profere estes versos, o poeta se confessa anticlerical e admirador “de moças mil”. Um póstero achou de lhe alterar o último verso, por falso pudor: “Num dia em que se achou cagando ao vento” para “Num dia em que se achou mais pachorrento”. Tolice.


Em 1786 viajou à Índia e ia, pasmem, como oficial da Marinha! Em junho fez escala no Rio de Janeiro, onde, segundo alguns biógrafos, pretendia ficar. Escreveu poemas-canções para o Vice-Rei, francamente bajulatórios... mas isso não vingou. Indagado depois sobre o que achou do Rio, confessou irônico: “Belíssimas mulheres e péssimos poetas!”. Os sonetos arcádicos de Bocage são magníficos, modelos para muitos dos seus pósteros. A Arcádica caracterizava-se pela divulgação dos valores do Neoclassicismo, oriundos do Iluminismo, plasmados sobre a razão, a clareza, o bucolismo. Poeta de gênio, Manuel Maria Barbosa du Bocage está além de uma análise crítica conjuntural, ainda que em muitas de suas criações vejam-se traços de Barroco tardio: “(...) Quando a morte à luz me roube / ganhe um momento o que perderam anos / saiba morrer o que viver não soube.” Esta deu-se em Lisboa, em 1805.

LM
Publicado no O Povo em 2 de fevereiro de 2016