ÁGUA CORRENTE



Galopava o ano de 932 d.C. Os exímios cavaleiros árabes chegavam a Majrit. Esta é a primeira menção digna de nota deste lugar. Conquanto tenha sido identificado um assentamento romano anterior neste mesmo sítio, Madrid é considerada historicamente fundada por Muhamed I de Córdova. O Palácio Real de Madrid ergue-se exatamente onde foi, no século X, Majrit (= fonte, água corrente, em árabe coevo). O rio Manzanares, que banha a cidade, é o Al Mudaina dos árabes. Com a guerra da Reconquista, Madrid foi tomada e ocupada por Alfonso VI de León em 1085. Data daí o início de uma epopeia que culminaria com a expulsão definitiva dos árabes em 1492. Toda cidade merece a sua fundação mítica e Madrid a tem; mas os dados acima são históricos.

Quanto esplendor vislumbramos de sua grandeza imperial nos logradouros de Madrid! Caminhando pelas praças (qué plazuelas hermosas!) e alamedas dessa mágica cidade, de pronto imaginamos quanta riqueza, quanto trabalho foram destinados à construção desses edifícios, ainda hoje demonstração de pujança, poder, tenacidade. A Gran Via, a Plaza Cibeles, a Puerta del Sol...

Mas Madrid nos oferece também (e talvez até mais) uma faceta algo mais descontraída do modo de viver do madrilenho; para uma caña (copo de chopp) ou uma taça de vinho, há sempre motivo, sejam quais forem as circunstâncias. Aqui, o enunciado de José Ortega y Gasset “Eu sou eu e minhas circunstâncias” cede ao segundo ditame, o das circunstâncias. Faz lembrar uma passagem de um relato do nosso saudoso seresteiro Sílvio Caldas: encontrando-se com um amigo que não via há algum tempo, ouviu esta proposta: “Vamos comemorar!” Comemorar o simples encontro ou, quem sabe, o fato de estarem vivos? Não importa: vamos comemorar!
Madrid, como aponta a sua etimologia, é água corrente. E quanta água terá corrido pelo rio Manzanares desde tempos imemoriais, até chegar a estas águas de hoje! Al lado, al outro, al centro, abajo, arriba, adentro!

Bem no centro de Madrid está a Plaza Mayor e bem próximo a ela a Calle Cuchilleros. Ali encontram-se os que vivem a comemorar. Reduto antigo, empresta-nos a sensação de estarmos convivendo com figuras do passado. Por pouco não deparamos com a severa face de Francisco de Quevedo: “Polvo serán, mas polvo enamorado!” Este terá sido o mais belo verso escrito em língua espanhola, afirmou um dia Jorge Luís Borges.


LM
Publicado em O Povo, 29 de março de 2016