O "FADO HILÁRIO"


O fado (do latim fatum, destino, sorte) a canção nacional portuguesa, comporta muitas teorias sobre a sua origem (árabe, portuguesa, afro-brasileira...).

Alguns estudiosos afirmam que o fado tem origem no Brasil: houve, em verdade, no Brasil, uma dança que se chamava fado, muito em voga no Rio de Janeiro no início do Século XIX. Quando D. João VI voltou para Portugal, teriam os cortesãos levado a Lisboa a nova moda. Outros juram que não: o fado é português e data do final do século XVIII. Mas a palavra fado, com sentido poético-musical, só aparece nos dicionários portugueses a partir de 1878! Há outros que dizem que o requebro da voz é coisa de árabe... O nome revela tristeza. E se for uma mescla disso tudo? A palavra fado tomou também o sentido de vida, simplesmente: “Mete a mão no teu seio, não dirás do fado alheio”, diz o provérbio (Bluteau, 1712).

Lisboa ostenta o privilégio de ser a capital do fado, principalmente em seus bairros mais tradicionais, como a Alfama, a Mouraria (“a Severa em voz saudosa...”), o Bairro Alto. Há numa casa de fados no Bairro Alto (hoje fechada) um belíssimo retrato de Amália Rodrigues em azulejo, ao pé do qual fui fotografado várias vezes ao longo de alguns anos, ela sempre mais jovem... Voltemos à canção portuguesa: os alfacinhas sabem muito bem que existe o fado coimbrão, um fado mais acadêmico, com temática mais ortodoxa. Cultivado pela elite universitária coimbrã, o fado é, na bela cidade às margens do Mondego, uma tradição riquíssima.

“Quando o Hilário cantava / alta noite no choupal...” Falemos aqui do “Fado Hilário”, que veio a lume em 1894, gravado em 1928 pelo coimbrão António Menano (1895-1969), composição de Augusto Hilário da Costa Alves (1864-1896), o queridíssimo Hilário, boêmio e cantor, estudante de Medicina em Coimbra, morto prematuramente. Muitos o gravaram, entre eles a inigualável Amália Rodrigues (1920-1999). Começa assim: “A minha capa velhinha / é da cor da noite escura. / Nela quero amortalhar-me / quando for pra sepultura...”

Fizeram-se muitas versões do “Fado Hilário”, uma muito famosa, de Gabriel de Oliveira (1891-1953), gravada por Alberto Ribeiro (1920-2000) em 1946 e pelo magnífico Francisco José nos anos 1950, que assim se conclui: “O Hilário disse um dia / ninguém mais será formado / quando a velha Academia / deixar de cantar o fado!”

LM
Publicado em O Povo em 15 de março de 2016