ATÉ MAIS VER!



Igreja Matriz de Limoeiro do Norte (www.mapio.net)


Nasci no Vale do Jaguaribe. Quando passo algum tempo sem contato com as pessoas do interior, surpreendo-me com a vitalidade de sua fala. Vitalidade conservadora, eis o sintagma preciso, ainda que possa parecer paradoxal.

Durante a Semana Santa tive a oportunidade e o prazer, visitando algumas cidades do interior cearense, de voltar a ouvir aquela língua permeada de arcaísmos. Registro aqui alguns deles. Ouvi de alguém, dirigindo-se a outro, em tom acusatório: inxerido! Uma pessoa é inxerida quando se insere, se mete onde não é chamada. Quando uma tubulação hidráulica apresenta vazamento, a água fica xeringando (de seringa). O chão fica enxombrado, à sombra fresca de uma árvore após a chuva. Vixie esse bicho! Ou seja, veja o que ele faz, preste atenção no que ele diz. Arre, égua!

Como se sabe, as línguas evoluem de forma diversa, sendo que as faladas em centros mais avançados sofrem mudanças mais rápidas, enquanto as ditas periféricas se mostram mais conservadoras. Tal é o caso do português falado, por exemplo, em São Paulo, em face do falado numa cidadezinha do interior do Ceará. O linguista romeno Eugeniu Coseriu desenvolveu a tese das ditas áreas laterais. Assim, o português e o romeno (áreas laterais da latinidade) são mais conservadores do que o francês e o italiano: muiere frumoasa (mulher formosa, do antigo latim mulier formosa) diz-se em romeno e português; em francês si diz  femme belle, em italiano donna bella.

Resquícios do antigo galego-português no falar do interior nordestino: Entonce, avia, te alui e pregunta a i-ela se o de comer tem sustança... Repare, o leite tá desunerado (degenerado!) Eu dei fé que estava destiorado. O nordestino fica aperreado quando um cachorro parte pra cima dele. Por analogia, em qualquer situação difícil. Cachorro, em espanhol, se diz perro. Este é um dos muitos vestígios da língua de Quevedo no português do Nordeste brasileiro. Um deles me diz: estou canso dessa loita, eu dixe a i-ela que carece mudar e é axinha! Esta frase pode ser ouvida hoje na Galícia. Eu tenho na mente que é a mesma língua por mor da parecença...Vixe!

Para o sertanejo, há três tipos de gente: o égua, o pai d’égua e o fio duma égua. O primeiro, não é de nada, o segundo é o tal e quanto ao terceiro... Deus nos livre! Ouvi também: você é meu e o boi não lambe! Entendeu? Ó xente! Até mais ver!


LM
Publicado no O Povo em 12/04/2014