OS KIRIRIS, O CARIRI



Li na adolescência autores como Eça de Queiroz (Os Maias), Gonçalves Dias (Os Timbiras) e tantos outros falando de famílias, tribos e povos. Sempre ouvi falar de tupis, guaranis, tamoios, tremembés... Verifico que, de umas décadas para cá, principalmente entre os antropólogos (não me lembro aqui e agora se é o caso de Darcy Ribeiro) alguns autores preferem falar de famílias, tribos e povos colocando os seus nomes no singular, mesmo quando tratados em seu conjunto, assim: “os Maia, “os Timbira...” Procurei encontrar motivo para isso; não encontrei. Ouvi de um mal avisado, ou melhor, de um pseudolinguista, esta justificativa: as línguas nativas do Brasil não faziam o plural em “s”, como o português! Ora, assim fosse, deveríamos dizer “os alemão”, “os italiano”, “os russo”... já que esses povos também não fazem o plural em “s”!

Falemos aqui, resumidamente, dos Kiriris e do Cariri, dos índios tapuias que habitavam a região homônima, terras férteis no sul do Ceará, com partes também na Paraíba e até em estados vizinhos. Esses índios, aguerridos e taciturnos (de poucas palavras) foram chamados por tribos da vizinhança de kiriris/cariris (calados) por força desse traço comportamental.

Andando pelas terras do Cariri, vemos uma quantidade extraordinária de aspectos geológicos e culturais dignos de nota. Em Nova Olinda, a ponte de pedra natural; em Santana do Cariri, o Pontal da Santa Cruz, o Museu de Paleontologia, os fósseis de animais marinhos, também encontrados noutros municípios da região; em Barbalha, o belo riacho do meio; em Missão Velha, a incrível floresta petrificada e a cachoeira no rio Salgado. Visitando antigos engenhos, pode-se ter uma ideia do quanto foi pujante o ciclo do açúcar ali no Vale do Cariri. E hoje, no início do século XXI, é Juazeiro do Norte uma cidade florescente.

Toquei as águas do riacho Batateiras e do rio Salamanca, afluente do Salgado, este a primeira grande enxurrada que recebe o nosso Jaguaribe. Há quem sustente ser o Salgado o mais verdadeiro nascedouro do Jaguaribe. Realmente, do Araripe ao delta jaguaribano, há uma quase reta! O seu percurso inflete, rio acima, rumo do oeste, até as bandas da Serra da Joaninha.

Pois bem: no Cariri experimentei, visitando muitos sítios daquela região, a sensação de estar pisando o solo sagrado dos Kiriris. Em Juazeiro, do sexto andar do Hotel Iu-á, vi  surgir um soberbo jacy-rendy (luar). 

LM 
Publicado no O Povo em 26 de abril de 2016