A QUINTANA DOS MORTOS


Há, em Santiago de Compostela, em torno da Catedral, espaços que compõem um conjunto arquitetônico, cuja história remonta aos alvores do século IX e se enriquece ao longo do tempo. Cada portal da Catedral abre-se a um desses espaços de mágico traçado. Vamos a alguns deles: a chamada Fachada do Obradoiro (a principal, que recebe os visitantes) é a imagem universal de Santiago, inspirada composição barroca iniciada em 1738 pelo arquiteto Fernando de Casas y Nóvoa. O Pórtico das Pratarias é o único dos três pórticos maiores da primitiva basílica românica. Ali está a imagem da “mulher adúltera”, que segundo o Codex Calixtinus, é a cabeça de um amante morto pelo marido traído que obrigou a adúltera a beijá-la duas vezes ao dia. Há o Pórtico Real, a Porta Santa, a Porta dos Abades, a Praça da Azabachería com o seu pórtico, tudo conferindo ao contorno da Catedral uma grandeza monumental. Ao todo, são mais de dez espaços. Tudo ali, junto à sóbria solidão da pedra, fala de um passado imortal. A vasta literatura sobre os acontecimentos de cunho religioso, político, cultural, humano, enfim, é manancial inesgotável para as múltiplas exigências de quantos desejarem achegar-se a tão rico tesouro.

Vamos agora ao que mais nos interessa nestas linhas: a misteriosa Praça da Quintana, nascida da confluência da fachada sul da Catedral e a chamada Casa da Conga. A sua configuração atual data do século XVII, projeto de Domingo de Andrade. A praça está dividida em dois níveis por uma ampla escadaria de um lado ao outro: a parte mais alta, a Quintana dos Vivos; a mais baixa, a Quintana dos Mortos. Esta era antigo cemitério medieval, transformado em praça em 1611.

É célebre o poema de Federico García Lorca “Danza da Lúa en Santiago” (Seis Poemas Galegos, 1935), descrevendo de forma dramática uma noite na Quintana dos Mortos, em que a filha, em transe, responde à mãe que lhe pergunta o porquê de momentos tão misteriosamente ali vividos: Quen fita meus grises vidros / cheos de nubens seus ollos?  (...) Nai, é a lúa / coronada de toxos / que baila, e baila, e baila / na Quintana dos Mortos! Quem dirigir o passo até ali, em noite de lua cheia, no silêncio que desce do céu há de escutar essa dança de que fala o poeta. À noite, a Quintana dos Mortos é recinto aberto às sugestões misteriosas, que invadem as almas sedentas de poesia.

LM
Publicado no jornal O Povo em 24 de maio de 2016