CAMBALACHE

Cambalache em Mendoza, Argentina. Foto de janeiro de 2011.


Em Buenos Aires, com o enorme afluxo de imigrantes, desde o último quartel do século XIX e durante a primeira metade do século XX, com suas múltiplas falas, desenvolveu-se uma gíria muito especial a que se chamou lunfardo (de lombardo, com o sentido de ladrão). Era principalmente uma mescla de dialetos italianos, notadamente o genovês e o napolitano, com aportes também de outros falares peninsulares, do espanhol, de termos indígenas e até do português do Brasil. Some-se a isto tudo o chamado vesre (revés) de algumas palavras: tango = gotán; mujer = jermu; noche = cheno; calle = yeca; medio = diome....e já se tem uma noção do que era essa geringonça... O lunfardo, que foi em suas origens, o dialeto do delito, segundo as palavras de Antonio Dellepiane, seu primeiro estudioso, foi muito utilizado pelos delinquentes em Buenos Aires, como forma de não serem entendidos pelos policiais. Depois, caiu na fala popular para em seguida ser muitíssimo utilizado no tango. Não esqueçamos que o tango tem lá suas origens arrabaleras, prostibulares, dança de cais de porto...

Que el mundo fué y será una porquería  ya lo sé; en el quinientos seis y en el  dos mil también.

Enrique Santos Discópolo (Discepolín para os íntimos), que está entre os maiores capos del tango, compôs em 1934 Cambalache, em que denuncia a decadência de valores que afetava o século XX em Buenos Aires. Discepolín põe em contraste figuras díspares, como San Martín (herói nacional argentino) e Primo Carnera (boxeador); Stavisky (um conhecido estafador = picareta) e Napoleão Bonaparte (imperador dos franceses, corso), todos misturados num cambalache, onde se vê llorar la Biblia junto a un calefón... (aquecedor). Cambalache é o local onde se vendem móveis velhos, aparelhos eletrodomésticos usados, relógios de segunda mão, juntos a toda uma sorte de quinquilharias. Cambalachero é o atravessador de produtos de origem obscura.

A palavra migrou para o Brasil, como tantas outras, e nos anos 1960, no Ceará, alguns políticos chamaram de cambalacho uma aliança formada para ganhar as eleições estaduais de qualquer jeito, a qualquer custo... E hoje, no Brasil, há um verdadeiro cambalache político, onde é o mesmo un burro que un gran profesor. Está tudo à venda, como nas vitrinas dos cambalaches. Se o século XX foi, segundo Discepolín, um cambalache problemático y febril, tampouco o XXI se apresenta diferente. E isto vaticinado em 1934...

LM
Publicado no Jornal O Povo em 10 de maio de 2016