EN CATALÀ, SI US PLAU!


Minha primeira viagem a Barcelona deu-se em 1977. Naquele então, ainda estava no auge o clima de otimista agitação em torno da recente autonomia reconquistada (foram praticamente 50 anos de ditadura franquista), com o retorno do uso da língua catalã com muito mais vigor, além das conquistas nos planos político e econômico.

Lembro-me de ver a Praça da Catalunha, as Ramblas e ruas adjacentes tomadas de cartazes com dizeres encorajadores das posições nacionalistas, tais como Catalanitzem Catalunya! Llegeu llibres en català! Volem l’Estatut! E tantos mais. Enviei a um amigo um cartão postal com os dizeres: No es pot fer res amb aquesta gente de Madrid! (Não se pode fazer nada com esta gente de Madrid!) Em suma, a cidade vivia uma intensa efervescência política.

A diversidade cultural espanhola nem sempre foi objeto de cuidados por parte do governo central de Madrid. São várias nacionalidades, que a cada dia mais procuram afirmar-se em seu valores. E os catalães são bastante conscientes desse valores, que remontam a séculos.
Data desta viagem de há quase 40 anos o meu interesse pela língua catalã, interesse que já se manifestara antes pelas outras vertentes linguísticas românicas. Descobri poetas como Jacint Verdaguer: dolça Catalunya, pàtria del meu cor, quan de tu s’allunya d’enyorança es mor (doce Catalunha, pátria do meu coração, quem de ti se vai de saudade morre), tido como um dos fundadores da literatura catalã. Tem-se em Salvador Espriu o maior nome da moderna literatura da Catalunha. É famosa esta passagem do seu poema XLVI do livro La pell de brau (A pele de toro): A vegades es necessari i forçós que un home mori per un poble; però mai no há de morir tot un poble per un home sol (Às vezes é necessário e forçoso que um homem morra por um povo; mas jamais há de morrer todo um povo por um homem só). Este poema – é fácil identificar – foi escrito numa época obscura para a Catalunha.

Me agrada, num bar ou numa livraria em Barcelona, dirigir-me a um garçom ou empregado, a uma pessoa circunstante e com ela tentar estabelecer um diálogo, quando escuto, invariavelmente, o entusiasta elogio de estar falando em catalão...
É digno de nota o zelo que os catalães têm pela difusão da sua cultura em língua vernácula. A edição de livros em Barcelona é um assombro, comparativamente a outras cidades espanholas.


En català, si us plau! Gràcies! (em catalão, por favor! Obrigado!)


LM
Publicado no O Povo em 07 de junho de 2016