UMA NOITE EM CONSTANÇA



Em julho de 1989 não se vivia na Romênia uma atmosfera de expectativa de mudança, tal como a ocorrida em dezembro daquele ano.

De Bucareste partimos, Ana Maria e eu, de avião, para Constança, no litoral do Mar Negro, a antiga Tomis dos gregos, no Ponto Euxino, onde foi exilado o poeta Ovídio Naso em 8 d.C.. por ordem do imperador Augusto, seu amigo.

Era naturalmente grande a curiosidade em conhecer Constança. Acertamos que voltaríamos no dia seguinte de trem, bilhetes comprados. Mas não havíamos reservado hotel! Chegamos por volta do meio-dia e em vão procuramos acomodação em toda a cidade.

E aí, aconteceu: depois de passearmos pelo centro e pelo litoral, onde se encontram o cassino, os mosaicos romanos e uma imponente estátua do poeta de Ars Amatoria e Epistolae ex Ponto, além de uma de Mihai Eminescu, o poeta nacional romeno, almoçamos e voltamos em busca de hotel. Todos lotados!

Já escurecia, quando, de repente, faltou luz! Entramos num restaurante alumiado à luz de velas. A mocinha que nos atendeu sentiu imediatamente que estávamos em apuros. Mal lhe relatamos o acontecido e nos entregou, com um gesto de cumplicidade, um pedaço de papel com os dizeres: Familia Jalea. Strada Miron Costin, 78.  Compreendemos de pronto. Saímos por uma rua longa, que subia desde a praça central.

A custo pudemos ler a placa com o nome da rua.  Estava escuro. De repente, passos atrás de nós! Apressaram-se, alcançaram-nos, deram Boa-Noite. Respondemos laconicamente. Apresentaram-se: Sou macedônio. Eu, grego. Sou mesmo daqui, e vocês? Disse-lhes que éramos estudantes em Bucareste e vínhamos à casa dos amigos Jalea em Constança. Mas a casa é esta, à direita! Claro, respondi, é esta! Boa-noite!

Fomos bem recebidos por um casal idoso, afável e muito simpático. Olhamo-nos com a cumplicidade que sabíamos necessária: o regime proibia aos romenos receberam estrangeiros em suas casas...
Tomamos uma sopa quente e fomos convidados ao... porão! Quando descemos, uma tampa pesada de madeira fechou-se sobre nós! Dormimos com a roupa da viagem, exaustos. No outro dia, fomos despertados para um singelo café-da-manhã.


Quanto pagamos? , perguntei. Ah, o senhor nos dá o que quiser.  Lembro de lhes ter estendido um cédula de 10 dólares, que não quiseram aceitar por ser muito. Esta aventurosa noite em Constança é-nos inesquecível! A família Jalea, onde e como estará?...

LM
Publicado no O Povo em 28/06/2016