EL DÍA QUE ME QUIERAS


Alfredo Le Pera bateu à porta do quarto de hotel em Nova York, onde estava Carlos Gardel: -- Carlitos, quiero mostrarte lá más hermosa lertra que escribí para una canción nuestra! Levava Le Pera nada mais, nada menos que os versos de “El día que me quieras”. Naquele ano de 1934 Gardel gravou com selo da RCA Victor, com música sua, aquela que viria a ser a mais conhecida parceria destes dois grandes capos do tango-canção.

Le Pera tinha consciência de que o poema homônimo do mexicano Amado Nervo, pseudônimo de Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo (1870-1919) fora-lhe a fonte inspiradora. Na verdade, há quem fale até de plágio. Talvez seja mais apropriado falar-se de uma paráfrase. O poema de Amado Nervo é composto quase integralmente com alexandrinos em rima binária. Começa assim: El día que me quieras tendrá más luz que junio; / la noche que me quieras será de plenilunio (...) Em Le Pera, pode-se igualmente dispor a maioria dos versos do mesmo modo, só que, aqui, com rimas alternadas: El día que me quieras la rosa que engalana / se vestirá de fiesta con su mejor color (...) O tema é mesmíssimo: a exaltação do amor que se revela, a amada que não tardará em chegar.  Amado Nervo: Êxtasis de tus ojos, todas las primaveras / que hubo y habrá en el mundo serán cuando me quieras... Le Pera: Y al viento las campanas dirán que ya eres mía / y locas, las fontanas se contarán su amor...

Há relatos de que Le Pera teria ficado muito apreensivo após a realização da feliz parceria com Gardel. Teria mesmo telefonado à família do poeta, de quem recebeu autorização para que fosse gravada a sua versão. Seja como for, creio que ganhamos todos com essa melodia encantadora, cantada por inúmeros intérpretes mundo afora, bandoneonizada... pianizada... violonizada... acordeonizada... flauteada... à exaustão. Permanecerá, tudo indica, para sempre como peça emblemática do tango-canção. Os versos de “El día que me quieras”, tanto os do mexicano quanto os do argentino nascido em São Paulo em 1900, com a primorosa música do francês (Toulouse, 1890) mais argentino do mundo serão sempre benvindos e ouvidos por quantos amem a música.


Alfredo Le Pera e Carlos Gardel morreram juntos naquele fatídico  24 de junho de 1935, em Medellín, na Colômbia, apenas uma conexão sem maior importância, quando tornavam à Buenos Aires querida, que jamais os esquecerá.

LM
Publicado no O Povo em 19 de julho de 2016