TRISTE EM SEU PAÍS


Max Ernst 


Quando Samuel (dito Sami) Rosenstock, judeu romeno nascido em 1896 na pequena cidade de Moinesti, na Moldávia, chegou a Zurique, já ia certamente com ideias originais em termos de estética literária. Lá, encontrou Hugo Ball e Richard Huelsenbeck que, com o escultor alsaciano Hans Arp e outros, formaram com ele o núcleo primeiro do Dadaísmo (dadá) em 1916. A instalação, em fevereiro de 1916, do Cabaret Voltaire “oficializa” o movimento.

O Manifesto Dadaísta foi redigido dois anos depois, em 23 de março de 1918, por Tristan Tzara, pseudônimo adotado por Rosenstock. Era o período em que se desenrolava ainda a primeira guerra mundial e a Romênia era particularmente afetada pelo conflito: na verdade, os principados romenos da Valáquia e da Moldávia (a Transilvânia estava ainda sob a dominação do império austro-húngaro). As minorias eram tratadas de forma injusta e opressiva. Rosenstock sentiu de perto as vicissitudes daquele então. O codinome escolhido para a participação na nova estética é eloquente: Tristan Tzara é um metaplasmo de trist în tzara (triste em sua terra, em seu país). Denunciava a situação vivida pelos judeus na Romênia. O fim da primeira guerra mundial determinou a independência total da Romênia e o colapso dos impérios austro-húngaro e turco.

O movimento dadaísta surgiu em contraposição à estética – ou às estéticas – dominantes; eivado de non sense, caracterizava-se por uma atitude anarquista,  impulsiva. Nas artes plásticas, um tipo de pintura em que as imagens retratadas estão fora da realidade. Nisso, aproxima-se do Surrealismo, que o adotou (André Breton, 1924).

Movimento dadá: na redação do Manifesto, escrito em francês, exclama Tzara: Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto estas coisas e sou por princípio contra manifestos (...) e nada explico porque detesto o bom-senso. Mas o que é, enfim, dadá? Cavalo de brinquedo? Linguagem infantil? Dupla afirmação (da) em romeno? Ou nada disso? Uma estética a mais, que angariou seguidores até a primeira metade do século XX. Houve influência dadaísta em vários poetas latino-americanos, como é certamente o caso de Vicente Huidobro (Chile), Cesar Vallejo (Peru), Ismael Nery (Brasil), sem contarmos com mais alguns.  Cite-se da obra de Tristan Tzara O homem aproximativo (1931). Defendeu o ser humano da subserviência e da docilidade medíocre em A fuga (1947). Faleceu em Paris em 1963.


LM
Publicado em O Povo em 5 de julho de 2016