PLÍNDOLA, ORA BOLAS!


As línguas nativas do Brasil apresentavam (ou apresentam, para efeito de estudo diacrônico/filológico) um sistema fonético relativamente descom-plicado, talvez exceção feita ao u (= y grego), aproximativo do francês e ao r (sempre brando, mesmo em início de palavra).

O poeta Pedro Henrique Saraiva Leão nos narrou que o seu livro Plíndola (ACL, 2016) com prefácio do professor Pedro Paulo Montenegro, tem este título (curioso, diga-se) pelo fato de ter o poeta ouvido, há algum tempo, em meio ao palco em que se apresentava Macunaíma, peça teatral de Mário de Andrade, alguém, ao abrirem-se as cortinas, exclamar: Plíndola! Que quer dizer esta palavra, se é que se trata mesmo ou apenas de uma palavra? Disse o poeta não ter a menor ideia do que seja, mas tendo-a considerado bem sonante, resolveu por isso adotá-la como título do seu próximo livro. Bárbaro, pensei na ocasião. E fui atrás, nos dicionários tupi-guarani-português de que disponho, do seu significado. Nada. Nem parecido.

O encontro consonantal pl parece ser inexistente na chamada língua geral, tão pródiga em vocalismos. Vejam-se Aiuaba, Piauí e outros topônimos, com tantas vogais seguidas e uma única consoante! Registro, pela inusitada coincidência, que há em Georgetown, na Guiana, a Plindola Nursey School. Mas o mistério sobre o significado da palavra, pelo menos para mim, continua. Vejam: falo do significado trivial, não do poético: este é dispensável.

Voltando a Plíndola: importa-nos mais o seu conteúdo. Todo o lirismo encontrado em Ilha da Canção (livro de  alto conteúdo lírico) reponta aqui, em pérolas como esta: tenho um lírio na consciência / e uma rosa no passado:/ ainda queres? Ou, em sua frequente linguagem multissemântica: se o mundo parasse / , / desceríamos ou ir / íamos com ti / luar? Ou este verdadeiro achado: voltando, sol se aninhando nas nuvens. aboio. lua denda lagoa./ lagoadendalua. / lume no fogão. vagalumes. pez. paz.

Estamos aqui diante de um lirismo tendente ao quase inefável. Forma sutil de luz em matéria poética.

Não falta a Plíndola (não poderia faltar) o testemunho lúcido de poetas da estirpe de José Alcides Pinto, Francisco Carvalho e Jorge Tufic. E a prestigiosa carta de Carlos Drummond de Andrade (12 de setembro de 1984) enaltecendo Poeróticos, outro livro singular de PHSL.

Agora, está explicado por que Plíndola. Explicado? E carece de explicação, diante da poesia nele contida?  Plíndola, ora bolas! Plíndola, simplesmente.


LM 
Publicado no O Povo em 13/07/2016