TENS TEMPO, ISTEPÔ!


Floripa é agradável, para mim, sob todos os aspectos (registro aqui que, pela minha curiosidade, pude confirmar: os de lá não gostam muito do nome Florianópolis, colocado a partir de 1894 por Hercílio Luz, com o fim da Revolução Federalista). Há, entre tantos, um aspecto muito peculiar, interessante do ponto de vista linguístico-cultural, que considero dos mais valiosos. Na Ilha de Nossa Senhora do Desterro (muitos querem de volta esta antiga denominação) há uma população descendente de açorianos (pescadores, artesãos, a maioria gente simples) responsável pela preservação de um falar que, segundo o poeta português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), que a visitou em meados do século passado, faz-nos lembrar a língua do século XVI. Uma verdadeira relíquia! Por curiosidade, estabeleci diálogos com esses ilhéus, deliciando-me tanto com o acento quanto com o significado de sua fala.

Estava eu no mercado público de Floripa, saboreando uma tainha assada, quando fui abordado por uma senhora idosa. Queria vender-me paçoquinha doce. Falando da vida, disse ser viúva, enfrentar grandes dificuldades, mas ali estava, a trabalhar e a aproveitar o que o mundo lhe podia oferecer. A fala dessa senhora soou-me como a de uma trisavó, algo assim. Foi-me um verdadeiro encantamento ouvir aquela senhora tão simples, tão humilde, a falar uma língua tão rara, tão sonora! E que sintaxe ancestral!

Tens tempo, istepô! Esta é uma frase ouvida com frequência. Fiquei intrigado com a palavra istepô. Descobri: tem o sentido de inoportuno, chato, molesto. A frase diz, a quem é dirigida, que se trata de pessoa desocupada. Vi depois esta frase: Diacho, ainda mais este estupor de aguaceiro!, que nos fornece a etimologia do termo (diz-se também istepôre). O “s” é lusitaníssimo: Tás tolo? Outra frase bem usual. Outra: Vais, mas mofas coa pomba na balaia! Não vais te sair bem, com este preço alto. Vendiam-se polvilhos em balaios, em forma de pombinhas... E as próprias, indicadas para uma sopa...


Pude notar, não sem desagrado, que alguns dos habitantes mais recentes da ilha tratam os antigos colonos, os quais chamam manezinhos, de forma caricata. E o norte da ilha está exposto a uma desenfreada especulação imobiliária. Pois é, amiga artesã da Ilha de N. S. do Desterro: arrombasse com o teu linguajar harmonioso, puro substrato açoriano resistindo a este tempo de istepôres.Há, entre tra\ntoHá

LM
Publicado no O Povo em 27/09/16