OS VIMARINOS


A história de Portugal está repleta de episódios bem marcantes no que toca à formação da nacionalidade. Tal é o caso de Guimarães, emblemática cidade de Entre Douro e Minho, considerada o berço dos portugueses. Guimarães tem o nome derivado do germânico wigmar (cavalo de guerra). Com efeito, o cavalo tinha, na Idade Média, o valor que tem hoje um blindado, numa batalha. Houve na região muitos cavalos adestrados para o combate, a ponto de o lugar vir a receber essa denominação desde os tempos dos visigodos e suevos. De wigmar surgiu Wimarana, terra dos cavalos de guerra. E daí o topônimo wimaranes e depois o gentílico vimarino. É natural a passagem de wa, we, wi do frâncico e do germânico para gua, gue, gui nas línguas românicas. Vejam-se os casos de werra-guerra, warjan-guarir, dentre outros, além do presente Wimaranes-Guimarães.

A cidade experimentou grande impulso no século IX, com o fidalgo corunhês Vimara Peres, época da Reconquista, empreendida a partir do Reino de Galícia. A condessa Mumadona Dias, bisneta de Vimara Peres, responsável pela construção do Mosteiro de Santa Maria, deu enorme prestígio à cidade, a partir do século X. Em Guimarães e em seu entorno veem-se vestígios da pax romana, época em que se construíram estradas, pontes, termas, marcos miliários etc. E as citânias, construções celtiberas, entre as quais a mais bem preservada e estudada é a de Briteiros, testemunha da cultura castreja pré-romana, assim como o castro de Sabroso. Imponente é o Castelo, reedificado pelo Conde Dom Henrique em 1095, a partir do Condado Portucalense, início da consciência da nacionalidade. Guimarães constituía domínio hereditário dos condes portucalenses. Foi ali que esteve cercado, em 1127,  Dom Afonso Henriques, pelas tropas do seu primo, o rei Afonso VII, de Leão, que exigia a sua vassalagem.

A cidade é agradabilíssima. Oferece muitos trajetos ricos em história, além de uma arquitetura deslumbrante. As pedras das ruas mais antigas guardam ainda as luzes, as cores e a poesia do que podemos denominar a matriz do povo português. Escreveu Sebastião Pereira da Cunha, poeta-fidalgo do Minho: É Guimarães uma fidalga idosa / Rica e orgulhosa, em seus gentis mainéis / Que diz ao mundo, em derredor disperso: / Eu fui o berço do maior dos reis. No centro da cidade, em letras gigantes, na parede ocre de uma construção vetusta, lemos: AQUI NASCEU PORTUGAL.

LM
Publicado no O Povo em 11 de outubro de 2016