SEGUIR OU CONTINUAR?



A nossa língua, como qualquer outro idioma, é um organismo vivo, naturalmente sujeito às transformações de caráter endógeno e exógeno, como tudo, aliás, no Universo. Por outro lado, existem as desnecessárias intervenções novidadeiras e o desrespeito, fruto da ignorância, à nossa língua. Ignorância que vem, quase sempre, travestida de erudição.

Assistimos hoje no Brasil a uma verdadeira onda de ligeirices no uso da nossa língua, com agressivos ataques ao nosso vernáculo. “Com os últimos resultados, a equipe segue líder”. Não é necessário ser estudioso da nossa língua para perceber nesta frase uma desnecessária afetação. Ou nesta: A vítima segue hospitalizada”. Nos dois casos, o verbo a ser empregado, de forma natural, sem frescura, é o verbo continuar.

Nos últimos anos, a imprensa no Brasil parece disposta a sepultar o verbo continuar, de uso tão frequente e útil no nosso vernáculo, em todas as circunstâncias. Na nossa língua, o verbo seguir está mais afeito à ideia de movimento (real ou abstrato): seguir andando, seguir uma ideia, seguir um caminho e assim por diante. Em resumo, o verbo seguir não se presta, de forma adequada, a substituir o verbo continuar, que não exige necessariamente movimento: continuar dormindo, continuar ouvindo o discurso etc.

Outra afetação hoje muito ouvida nos telejornais são as saudações “ótima-tarde”, “ótima-noite”, e assim por diante, quando o normal, o natural, seria o nosso “boa-tarde”, o nosso “boa-noite”. Não vemos ninguém na rua, ou em qualquer lugar, dizer “ele segue aposentado” ou “ótima-noite, José”. A naturalidade faz falta...

Também na crônica esportiva ouvimos tolices como esta: “Ele é um visionário”, pretendendo dizer que alguém previu uma situação ocorrida depois, como o resultado de uma partida, Vidente, alguém com visão premonitória, seriam as palavras para isso. Visionário é outra coisa. Um visionário é alguém que sonha em realizar mudanças revolucionárias, acredita num futuro grandioso, geralmente utópico.

E os políticos? Estão a proferir besteiras, eles também: “O deputado pensa de forma errática”. Errático é vagamundo, nômade, errante. Não errôneo, como pretende a frase acima. Parece que a onda, impingida pela ignorância, não vai pegar.  Não nos obrigamos a seguir essas bobagens. Continuaremos a falar a nossa língua de forma natural. Na verdade, não consigo atinar sobre o que desejam os novidadeiros da fala.

LM
Publicado no O Povo em 25/10/2016