LA CAMPANA DI SAN GIUSTO


Quando eu era menino em Limoeiro do Norte, ouvia a minha mãe cantar uma canção, para mim, insólita: era La Campana di San Giusto. Gravei o refrão: Le ragazze di Trieste cantan tutte con ardore, o Italia, o Italia del mio cuore, tu ci vieni a liberar! É claro que eu não intuía no sentido, digamos político, daquelas palavras, embora compreendesse o seu significado literal.

Soube depois que La Campana di San Giusto era canção patriótica composta por Giovanni Drovetti e Colombino Arona em 1915, em plena primeira guerra mundial. Àquela época, a canção era proibida: Trieste estava sob o domínio austro-húngaro. Sempre nutri o desejo de conhecer Trieste. Tinha por San Giusto reverência profunda, mesmo sem conhecer-lhe a história. Conhecer Trieste, coisa tão fácil, dirá alguém. Nem tanto. Trieste está no limite leste da Itália setentrional, incrustada entre uma montanha cuja vertente oriental pertence à Eslovênia (uma das repúblicas da ex-Iugoslávia), e o mar Adriático, algo meio fora do percurso, digamos. O certo é que só agora tive a alegria de conhecê-la.

Quis o acaso que eu me encontrasse em Trieste justamente no dia de San Giusto! Padroeiro da cidade, o santo é venerado com fervor pelos triestinos. Ouvi na Igreja cânticos em latim. Muitos padres na celebração. Pedi a um deles, que estava saindo ao final da missa, para tirar uma foto comigo. Muito gentil, me atendeu.

Voltando: finda a guerra, no final de 1918, com a derrota do Império Austro-Húngaro, deu-se a libertação de Trieste. Uma multidão subiu até a colina da Catedral de San Giusto, a cantar: Tu ci vieni a liberar!... La Campana di San Giusto foi gravada por Enrico Caruso em janeiro de 1919.

Quem foi San Giusto? Um romano, nascido cristão, na segunda metade do século III d.C., cuja vida dedicou à caridade e às orações. Foi denunciado como sacrílego e levado a Magnacio, então Governador de Tergeste (nome romano da cidade), a quem não cedeu para voltar a adorar os deuses romanos. Deocleciano era o imperador, famoso por suas perseguições aos cristãos. San Giusto, desde a prisão, até o momento do sacrifício, adotou uma atitude serena, inabalável. Foi levado numa barca e jogado ao mar, atado a cordas e com uma pedra ao tornozelo. Isso se deu no dia 2 de novembro de 303. Os triestinos comemoram o dia de San Giusto a 3 de novembro, dia em que foi encontrado morto, livre das amarras.  Nesse dia (1.713 anos depois) eu estava lá!...

LM
Publicado no O Povo em 22 de novembro de 2016