LINGUÍSTICA E MODISMO




Vivemos atualmente, no campo linguístico, em vários países, um certo modismo (digo modismo,  porque cíclico: já ocorreu em eras passadas) de, partindo de pressupostos ditos científicos, negarem-se postulados linguísticos. No livro No venimos del Latín, de Carme Jiménez Huertas, especialista em Linguística Catalã, tenta a autora provar que as chamadas línguas românicas não vêm de latim, ou seja, não são neolatinas. Para ela, as línguas românicas apresentam, sob vários aspectos, inclusive o fonético, mais semelhanças com o inglês e o alemão! Diz isto com todas as letras.

Vejam-se alguns argumentos de natureza etimológico-semântica que a autora “pescou” do livro Le Français ne vient pas du Latin!, de Yves Cortez, no campo dos feitos da guerra: segundo ela, as palavras guerra, tratado, luta e desastre são panromânicas (n. n.: exceção ao romeno razboi, para guerra), isto é, segundo ela, existem em todas línguas românicas e não vêm do latim. Diz ela: no latim, estas palavras são, respectivamente: bellum, foedus, pugna e clades. Mas, o que dizer de belicoso, federal, punir? Quanto a clades, é helenismo. A autora se esquece de mencionar que aquelas palavras ditas panromânicas têm origem em outras fontes... latinas! Veja-se: werra, depois guerra, latim medieval, vindo do francônio, que substituiu bellum, lat. arc. duellum; lat. tractatus, de tractu, deverbal de trahere; lat. lucta; lat. disastrum, acontecimento funesto, sem o favor dos astros. A autora menciona que o ibérico, por exemplo, era falado antes da chegada dos romanos à península. Descobriu a roda! Claro, os ibéricos não eram mudos! Falavam uma ou mesmo várias línguas. Mas o que restou de sua ou de suas línguas (alguns topônimos, antropônimos hidrônimos e pouquíssimos outros exemplos) foi incorporado ao romance (língua intermediária entre o latim e as românicas) ibérico (protoportuguês, protoespanhol, protocatalão e ouros falares peninsulares).

O livro de Carme Jiménez Huertas já tem várias edições na Espanha e foi traduzido a outras línguas. Não sei qual a motivação de cientistas (?) que, reunindo conhecimentos de Linguística, mistura-os sem critério para fazer uma salada pouco palatável. Falta-lhes robustez nas contestações, que mais parecem destinadas a vender do que a pesquisar com seriedade. São destinadas mais às coisas novidadeiras que às novidades científicas.

LM
Publicado no O Povo, em 8 de novembro de 2106