A NOIVA DO OCEANO


Li, já faz algum tempo, no livro Breves memórias de Alexandros Apollonios, de José Paulo Moreira da Fonseca, (Edições O Cruzeiro, 1960), um poema que falava da “líquida Amsterdam”. De fato, a água está para Amsterdam, assim como o monólitos estão para Quixadá: ambas as cidades estão rodeadas, uma, de água, outra, de pedras. Mas, com a vênia do poeta, convenhamos: líquida, mesmo, é Veneza. Os canais de Amsterdam, que podemos navegar em barcos de pequeno porte, não se comparam aos de Veneza, por onde passeiam as gôndolas (con canzone o senza canzone), hoje ainda pilotadas a vara, como há centenas de anos atrás, e muito menos com aquela imensa avenida líquida que tem o nome de Canal Grande. Trata-se mesmo de uma avenida, ladeada por belíssimos edifícios pertencentes a nobres de um passado remoto, por onde transitam hoje táxis aquáticos, levando e trazendo gente, a passeio ou de volta aos cais dos vaporetti (ainda assim se chamam os barcos a motor, em Veneza)  para o abastecimento de hotéis, restaurantes e moradias, ou para o aeroporto ou as estações de trem ou rodoviária.

Em Veneza, uma noite, depois de um vinho e de perambular por seus becos estreitos e trespassados de lendárias pontes, talvez encantado pelo abraço de águas, deu-se que sonhei com um açude, velho meu conhecido. Só que estava irreconhecível: a sua imensidão era tanta, que o horizonte era o encontro de céu e água... Acordei feliz, mesmo sabendo que há cinco anos falta água ao velho açude, em meu sonho, a rivalizar e superar as águas venezianas... Lembrei-me imediatamente de Drummond: talvez porque me faltasse água corrente...

Paredes medievais de construções severas, o ocre a nos mostrar a mão do tempo. Em Veneza, o tempo é, simultaneamente, aliado e mau zelador. Sim, porque se está a nos dizer do valor daquelas vetustas construções (a vida faustosa de Veneza...), está também trabalhando, ainda que a contragosto, para a desconstrução, lenta e irreversível, daquela arquitetura-testemunho, desde os tempos das festas pelos portais de mármore, ao som de vivas e celebrações da Serenissima Reppublica. Hoje, a lua penetra pelas frestas daquelas paredes, embranquecendo as fachadas de velhos palácios silenciosos. Veneza é todo um passado incrustado naquelas paredes ocres e lodosas ao luar, enquanto São Marcos bate a meia-noite, na nostalgia de um tempo líquido e faustoso da noiva do Oceano.

LM
Publicado no O Povo no dia 6 de dezembro de 2016.