O CANTO FLAMENCO


O sul da Espanha foi, por mais de setecentos e cinquenta anos, submetido ao domínio árabe, havendo dele recebido importantes influências, desde a invasão da península em 711 por Tárik Benzema ibn Ziyad al-Layti, ou simplesmente Tárik  (Gibraltar é uma adaptação do árabe Jaba al-Tárik, ou a montanha de Tárik) e o aliado Musa ibn Nusayr com seu exército berbere, até a expulsão definitiva do último reduto árabe da Espanha, Granada, em 1492.
A partir do século XV, por volta de 1447, chegaram à Andaluzia grandes levas de gitanos, vindos da Catalunha, que parece ter sido a sua porta de entrada na Espanha. Passaram anteriormente pelo Egito (vinham do noroeste da Índia), daí talvez a sua denominação, oriunda  de egiptanos (em inglês gypsies).
Quando desejamos falar da música andaluza, devemos ter em conta as variadas influências exercidas na região, desde tempos remotos, por romanos, bizantinos, vândalos (Al-Andalus!), muçulmanos, judeus, árabes (moçárabes), além, principalmente, dos ciganos, que a ela deram um colorido especial. O flamenco, palavra de origem algo obscura, parece vir do árabe felamengu (homem errante) e de flahencon (cancioneiro). Assim, flamenco seria a denominação dada por moçárabes (andaluzes mestiços arábigo-espanhóis) aos gitanos, notórios andarilhos e músicos extraordinários.
Não devemos reduzir o conceito de flamenco a um guitarrista, um cantaor, um tablado e uma dançarina! O flamenco comporta, além do cante hondo, romances corríos, martinetes, soleares, tientos, peteneras, bulerías, fandangos, seguiriyas... uma miríade de estilos e ritmos. E há, sobretudo, a poesía flamenca, uma estética especial: Se adespierta un rey celoso,/ coje la pluma y escribe, / y en el primer renglón pone; / quien tiene celoz no vive! Ou: Dezpué de haberme llevao / toa la noche de harana, / me vengo a purificá / debajo de tu ventana, / como se fuera um artá.
O poeta andaluz Federico García Lorca, ele próprio se autodefinindo gitano, escreveu, em tom encantatório: Cuando la cabeza inclina / sobre su pecho de jaspe, / la noche busca llanuras / porque quiere arrodillarse. A música andaluza cantada reflete uma herança ancestral vincada sobre a voz gitana. Ela tiene duende, como disse o poeta.
Há evidente semelhança, não somente temática, mas de intensidade dramática, entre o flamenco e o tango argentino. Matéria para um estudo. E já os há, a respeito.

LM
Publicado no O Povo em 20/12/2016