A LÍNGUA SARDA


Entre todas as línguas românicas, ou seja, as línguas continuadoras do latim vulgar outrora falado no Império Romano, destaca-se uma como a mais conservadora quanto à morfologia e, em certa medida, quando ao léxico: sa limba sarda (a Sardenha é uma ilha e, como se sabe, as ilhas conservam mais as línguas). Inclusive o artigo definido su, masculino (do latim ipsum) e o feminino sa (do latim ipsa), difere dos das demais línguas românicas, que adotaram ille (pronome demonstrativo latino).
Em muitas publicações sobre a língua sarda, encontramos a frase abaixo, no intuito de demonstrar a similitude (no caso, a identidade) do sardo e do latim: Columba mea est in domo tua (claro, domo, aqui, não tem mais a função de ablativo, é uma forma fossilizada). Em todo o caso, é indubitável que alguém com noções, ainda que rudimentares, do latim vulgar, ao ler ou ouvir a língua sarda terá a impressão de estar diante de um latim modificado, evidente, mas com uma sonorização que o remete a in illo tempore, ou seja, a uma deliciosa e rara sensação de tempos antigos.
A língua sarda apresenta cinco vertentes: o logudorês, no centro-norte (incluindo o nuorês), considerado o sardo por excelência e que a maioria dos escritores utiliza como língua literária; o campidanês, na metade meridional da ilha, incluindo a capital, Cagliari; o sassarês e o gallurês, no norte.
Há atualmente na Sardenha um intenso movimento linguístico-cultural, onde se inserem instituições públicas e particulares, com o apoio de escritores e até de políticos, visando à uniformização do sardo. Tarefa difícil, mas não impossível: o cantão suíço dos Grisões tem hoje o rumantsch grishun, língua unificada dos seus cinco codialetos. E o sardo é muito mais homogêneo do que o romanche, além de ter uma população muitíssimo mais numerosa que os Grisões.
Para os estudiosos das línguas românicas, o sardo é uma relíquia, uma língua falada numa ilha banhada pelo mar Tirreno, com um povo alegre e hospitaleiro, ainda com características encontráveis, por exemplo, no nordestino do interior. Inclusive a vertente da vendetta (vindicta, em sardo, latim puro), a vingança praticada fora dos ditames da lei. Perfeitamente compreensível, numa região onde a ausência do Estado deu lugar às contendas pessoais e familiares desde tempos remotos (vide, mutadis mutandis, o cangaço). Há na Sardenha um provérbio bastante ilustrativo da cultura da vingança: justitia pronta, vindicta facta!

LM
Publicado no O Povo em 03 de janeiro de 2017

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